Cultura

Palácio das Cerejeiras mais colorido

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

A sobriedade de um local como o Palácio das Cerejeiras, palco de grandes discussões entre figuras públicas, foi quebrada por quadros coloridos pintados pela bauruense Marina Kassai Silva. Portadora da síndrome de Down, há três anos a jovem faz aulas de pintura, contabilizando mais de 50 quadros, entre figurativos e abstratos, compostos em tinta acrílica. Para desafogar um pouco a casa, sua mãe, a coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência Física (Comude), Fujika Kassai Fernandes Silva, decidiu levar algumas da pinturas para o Gabinete do prefeito Tuga Angerami. “O Tuga adorou a idéia e, aos poucos, mais pessoas que trabalham no prédio foram me pedindo. Agora as paredes estão menos frias”, conta.

Com 20 anos, Marina adora pintar. Sua dedicação foi notada durante um evento para preparação ao mercado de trabalho, realizado em 2004 na Universidade Estadual Paulista (Unesp). “A psicóloga que coordenava o grupo com quatro deficientes me disse que a Marina era a única que tinha perspectivas, queria ser pintora”, conta Fujika.

Seu estilo, na maioria das vezes, é solto, aquarelado. Sem preocupações em agradar, Marina extravasa toda sua criatividade na hora de pintar, produzindo quadros semelhantes a de profissionais. “Ela não tem medo de se expressar. Além disso, consegue efeitos com o pincel que muitos gostariam de fazer e ficam apenas na vontade”, diz sua professora de pintura, Mara Mazeto.

A professora ainda aponta a desenvoltura de Marina com as duas mãos e sua rapidez como fatores de diferenciação no grupo. “Enquanto muitos alunos levam meses para finalizar uma obra, Marina, geralmente, pinta um quadro por aula”, orgulha-se Mazeto, que se diz gratificada ao poder propiciar felicidade a pessoas que geralmente são excluídas da sociedade. “Aqui na aula, a Marina se sente útil, além de ter sua auto-estima elevada ao ver que muitas pessoas realmente gostam de seu trabalho”.

Um de seus admiradores é o prefeito Tuga Angerami. Na parede de seu Gabinete, o administrador colocou o seu quadro preferido: um mar revolto retratado pela pintora. “Quem olha a imagem não acredita que foi feita por uma portadora de deficiência. Prova de que só lhes falta oportunidade para que essas pessoas mostrem suas potencialidades”, ressalta Fujika.

Barreiras

Recomendada como terapia para todas as pessoas, a pintura muitas vezes é relegada aos portadores de deficiência. “Procurei por várias escolas e muitas me diziam que não trabalhavam com deficientes. Mas eu só queria que a Marina aprendesse a pintar”, diz Fujika. Obstinada, a mãe continuou buscando oportunidades, até encontrar a artista e professora Mara Mazeto. “A Mara nunca tinha trabalhado com portadores de deficiência e, no entanto, aceitou na hora. O importante é não desistir”, aponta.

Para Fujika, as inúmeras dificuldades vividas por portadores de deficiência têm sido vencidas aos poucos. Um exemplo apontado por ela é a Campanha da Fraternidade de 2006, definido pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB (Consep), cujo tema é “Fraternidade e pessoas com deficiência”. “A Igreja ter despertado para isso é um sinal de grande avanço. Um assunto, antes limitado a profissionais e entidades da área, poderá ser divulgado a toda população”, anseia.

Comentários

Comentários