Tanto faz que se diga pacote ou remendo à iniciativa do governo de oferecer um incentivo à construção habitacional, porque ambas as coisas são de caráter emergente e temporário. Não vamos negar o valor dessa medida e nem de seus efeitos, que serão positivos. Também não vamos dar importância aos comentários da oposição, taxando-a de eleitoreira. Desde que nos conhecemos por gente, nessas situações a linguagem da oposição e da situação sempre foi a mesma, variando apenas as posições. O que importa aqui é que entra e sai governo sem que haja políticas definidas sobre as questões mais importantes para o país. O governo vai sempre remendando ou tapando buracos (sem alusão à operação tapa-buraco, mas que vale também).
Se o governo tem sido incapaz de formular políticas ou diretrizes duradouras, o Congresso, por sua vez, não consegue discutir e aprovar nenhum projeto de fôlego sobre as reformas necessárias. Faltam competência e vontade política para encarar os assuntos mais sérios. Há vários projetos de reforma – tributária, fiscal, política, agrária, sindical etc. que nunca avançam. Quando o problema fica impostergável, faz-se uma ‘meia sola’ e o projeto principal continua sem solução. Nestes últimos tempos o Congresso tem sido mais um referendador de Medidas Provisórias do que legislador.
Voltando ao caso do incentivo à construção habitacional, vejam a falta que faz uma política da indústria da construção civil. Primeiramente, tanto na área habitacional como nas outras áreas - edificações em geral, estradas e pontes etc. a necessidade é permanente e crescente. É uma atividade que além de não poder parar tem que crescer. Quanto ao aspecto econômico, é a mais reprodutiva de todas indústrias. O crescimento da construção civil aumenta o número de empregos diretos e indiretos. Segundo Melvyn Fox, da Abramat, a capacidade multiplicadora de emprego e renda é duas vezes superior à do setor mais dinâmico, que é a indústria automobilística. É que o aumento da construção, além do aumento de emprego nela própria, aumenta o emprego no comércio de materiais de construção e nas indústrias de aço, cimento, cerâmica, tinta, madeira, plástico, enfim, é uma locomotiva da economia. Ainda segundo Melvyn Fox, nos Estados Unidos, o primeiro índice da economia que o presidente da República avalia ao iniciar seu dia de trabalho é o que trata da construção civil.
Uma pessoa importante disse em certa ocasião e nós ficamos repetindo, que a diferença entre um estadista e um político é que enquanto o estadista pensa nas próximas gerações e político pensa nas próximas eleições. E essa preocupação com as próximas eleições não tem deixado tempo para pensar no longo prazo. O governo que sai não deixa plano para ser continuado pelo que entra e o que entra não tem planos, só tem promessas, que depois procura cumprir com os remendos. Sobre o atual pacote, Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, diz que “É difícil imaginar que essas medidas tenham um impacto muito grande. O que tem peso mesmo é o que vai acontecer nos próximos anos. O país chegou a um ponto em que, para a economia deslanchar, é preciso saber o que fará o próximo governo, seja ele qual for.”
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru