Cultura

Intolerância nos palcos

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Depois do sucesso das temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, a peça “Triunfo Silencioso” chega a Bauru, sob a direção de Fabiana Valor e Bernardo Jablonski. Fruto da adaptação do livro “Destinatário Desconhecido”, da escritora Kathrine Kressmann Taylor, o espetáculo acompanha o amor entre dois amigos - vividos pelos atores Edwin Luisi e Herson Capri - ser transformado em ódio por conta do nazismo. “Triunfo Silencioso” será apresentado hoje, às 21h, e amanhã, às 20h, no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves.

Do lado direito do palco, fica Herson Capri no papel do alemão Martin; no lado esquerdo, Edwin Luisi vive o judeu Max. Entre eles, um oceano, simbolizado por uma piscina. Eles não contracenam. O contato entre os amigos é feito por cartas. Max vive nos Estados Unidos da década de 30, onde mantém em sociedade com o amigo uma galeria de arte. Martin decide voltar à Alemanha para educar os filhos no país de origem. A saudade inicial vai sendo substituída pelo distanciamento não apenas físico, mas ideológico, até chegar ao ódio, com um desfecho surpreendente.

O relacionamento dos protagonistas acompanha a trajetória histórica de ascensão do nazismo, implantado por Adolf Hitler depois da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Neste contexto, Martin converte-se ao novo sistema até atingir o fanatismo e Max, por sua vez, responde com vingança. “Historicamente, as pessoas não entendem muito bem como um povo pode subjugar de uma forma tão cruel outro. E a peça é diferente de tudo que já foi feito sobre o nazismo justamente por isso. O público nota como estamos vulneráveis à intolerância”, diz Edwin Luisi em entrevista ao JC Cultura.

Fora das apostilas escolares, o que é abordado no palco vai além da milhares de atrocidades então cometidas na Alemanha. O foco está nas relações humanas que, por qualquer mágoa, decepção ou ressentimento, podem levar ao extremo do ódio. “Nós estamos assistindo ao fomento do ódio no mundo todo. Movimentos de extrema-direita, geralmente retrógados, levam à intolerância, como é o caso do governo Bush. Ele também foi visto como salvador da pátria depois dos atentados de 11 de setembro e fez da religião seu fundamento. Se o ocidente continuar com sua xenofobia religiosa, estamos todos em perigo”, ressalta Luisi.

Sucesso inesperado

A atualidade da peça e a performance elogiada dos atores talvez tenham sido responsáveis pelo sucesso inesperado da peça. O que era para durar apenas um mês, por conta da falta de patrocínios, caiu no gosto do público. “Pensávamos que as pessoas não iam gostar, porque é um espetáculo que vai contra a corrente das comédias. É sério, leva à reflexão. Mas nos surpreendemos. No Rio, ficamos entre os cinco melhores espetáculos do ano em todos os jornais da cidade, mesmo sem quase nenhuma divulgação”, diz o ator.

Quanto à apresentação em Bauru, a expectativa é grande. “Sempre existe um nervosinho antes de subir ao palco, mas acredito que o público vai gostar. Sabemos que a população de Bauru é muito interessada em teatro, afinal as tias do Mauro Rasi ainda estão aqui!”, brinca.

____________________

Amizade fora dos palcos

O convite para fazer a peça só foi aceito por Edwin Luisi graças à amizade de longos anos com o ator Herson Capri. “Eu estava me preparando para um outro espetáculo, mas, quando soube que o espetáculo ia ser com o Herson, topei na hora. Temos uma afinidade muito grande”, coloca Luisi, que já contracenou com Capri no “Com a Pulga Atrás da Orelha”, que veio a Bauru há dois anos.

O interesse pela história que dizimou milhares de judeus na Alemanha sempre esteve presente em Luisi. Assim, mesmo não sendo judeu, o papel lhe caiu perfeitamente. Para compor os personagens, os atores tiveram pouco mais de um mês. Mas a sintonia entre os dois fora dos palcos fez toda a diferença. “Nós não contracenamos na peça, mesmo assim, quem assiste diz que temos uma química ótima”, coloca Luisi.

E a parceria entre os atores vai continuar. Com o término da temporada desta peça, que ainda segue para Fortaleza, Herson Capri e Edwin Luisi se unem novamente para encenar “Um Marido Ideal”, de Oscar Wilde, que deve estrear em maio deste ano.

• Serviço

Apresentação do espetáculo “Triunfo Silencioso”, hoje, às 21h, e amanhã, às 20h, no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos para hoje R$ 40,00 e R$ 20,00 (estudantes com carteirinha e maiores de 60 anos). Preços de amanhã: R$ 30,00 e R$ 15,00 (estudantes com carteirinha e maiores de 60 anos). Mais informações: (14) 3235-1072.

Comentários

Comentários