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O rádio alegre de Bauru

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 11 min

Ele já está há mais de 40 anos no ar, o que o torna um dos profissionais do rádio mais antigos ainda em atividade em Bauru. O personagem em questão é José Ferreira Barbosa Júnior, o popular Barbosa Júnior, protagonista dos programas “Rádio Alegre” e “Rádio Alegre de Domingo”, integrantes da programação da rádio Auri-Verde.

Irmão mais velho de Antônio Carlos Barbosa, secretário municipal de Esportes e técnico da seleção brasileira feminina de basquete, Barbosa Júnior é um veterano do microfone que faz muito sucesso com seu estilo descontraído, brincalhão e interativo com os ouvintes, uma de suas marcas registradas.

Mas essas características pessoais impressas nos programas “escondem” uma incrível curiosidade: o radialista detestava e tinha medo de conversar ao telefone com os ouvintes e só passou a gostar da tarefa, que se transformou quase em um “vício”, depois da “primeira vez”.

Essas e outras particularidades, como o início de sua paixão pelo rádio e detalhes de sua rotina e carreira, Barbosa Júnior conta em entrevista ao Jornal da Cidade. Leia a seguir os principais trechos:

JC - O que o senhor gosta de fazer em casa?

Barbosa Jr. - Gosto muito de ouvir música orquestrada. Mas em casa sou completamente diferente do jeito que sou no rádio. Levanto de manhã, tomo um cafezinho, saio, dou uma voltinha e depois vou no bar bater um papo com os amigos e comer um aperitivo. À tarde, vou à emissora fazer minha programação musical para a noite. E, à noite, ouço rádio, por incrível que pareça. Enquanto minha esposa fica assistindo as novelas, ouço programas esportivos, pois gosto muito de futebol e sou são-paulino fanático.

JC - Como surgiu a paixão pelo rádio?

Barbosa Jr. - Desde criança, cinco anos de idade, tinha tendência por rádio e para ser radialista. Embora não tenha me revelado um radialista sensacional, sempre tive uma queda por ele. Tanto é que com cinco anos de idade já cantava em programas de calouros infantis.

JC - Onde?

Barbosa Jr. - Em Bauru. Em 1941, com seis anos, cantando a música “Lero Lero”, que foi um sucesso de carnaval de Orlando Silva, ganhei um concurso de cantor infantil. O prêmio era uma entrada de cinema para o Cine Teatro São Paulo. Depois, com 14, comecei a trabalhar em serviços de alto-falante como locutor em parques de diversões e quermesses. Naquela época, a única emissora de Bauru era a PRG8, a Bauru Rádio Clube, e eles tiveram a idéia de fazer comerciais e puseram um serviço de alto-falante ambulante.

JC - E o senhor fazia essas locuções?

Barbosa Jr. - Sim. Depois, em 1956, entrei na rádio Auri Verde e fui o primeiro locutor a falar com ela oficialmente no ar. Foi a minha estréia e fazia um programa sertanejo às 6h da manhã. Mas trabalhei por pouco tempo, pois saí de lá em 1957. Daí, em 1958, o Luciano Dias Pires me convidou para fazer um jornal falado que ele tinha organizado na Bauru Rádio Clube, que era na Bela Vista. Depois disso parei e, em 1965, quando trabalhava na Companhia Paulista de Força e Luz, o Célio Gonçalves (então diretor artístico da Bauru Rádio Clube) sempre passava por ali, pois morava perto, e me perguntou se não queria voltar a trabalhar em rádio para fazer jornalismo.

Fui lá e ele me explicou o que queria. Naquele tempo a gente gravava o noticiário da rádio Jornal do Brasil e depois ouvia novamente para datilografar a notícia. Isso era feito várias vezes ao dia e, à meia-noite, fazia um apanhado de todo o noticiário do dia. Me saí bem e passei a redigir e fazer locução também. E lá tinha um programa chamado “Rádio Baile G8”, que tocava música para o pessoal dançar em casa, que era interrompido à meia-noite por causa do noticiário. Quem fazia esse programa era o Sérgio Roberto, que foi locutor da Globo e chegou a fazer até o Jornal Nacional. Ficava lá brincando com ele e a direção da emissora me falou que estava disposta a colocá-lo para fazer outro setor e eu para o “Rádio Baile”. Eu me espantei com a idéia porque tinha horror de atender ouvinte no telefone.

JC - Não acredito! Como assim “tinha horror do ouvinte?”

Barbosa Jr. - Eu tinha medo, tremia e ficava nervoso e tenso. Tanto é que a PRG8 tinha antigamente um programa, às 16h, que se chamava “Disque M para música” e o locutor oficial dele precisou faltar e me pediu para fazer o programa no lugar dele. Me recusei de imediato alegando que não queria saber de jeito nenhum em atender ouvintes no ar. Falei que tinha horror, mas resolvi experimentar.

JC - E como foi essa “primeira vez”?

Barbosa Jr. - Por incrível que pareça, me deu uma descontração enorme. Tenho a impressão que o espírito de algum bom locutor baixou em mim, viu!

JC - O senhor ficou surpreso?

Barbosa Jr. - Muito, principalmente pelo fato de como me saí na hora, pois me senti melhor do que quando fazia o jornal. Por isso, comecei a fazer o “Rádio Baile” de forma mais descontraída, brincando com os ouvintes. Daí o Tobias Ferreira, um dos diretores, falou que tinha de mudar o nome do programa porque o que eu estava fazendo era tudo, menos um “Rádio Baile”. Foi então que o Célio Gonçalves decidiu que colocaríamos o nome de “Rádio Alegre do Barbosa Júnior”. Ficou desde 1965 até hoje e, atualmente, se não conversar com o ouvinte não sei mais fazer o programa.

JC - Que coisa! Vindo de alguém que tinha medo do ouvinte é quase inacreditável...

Barbosa Jr. - Realmente, hoje não saberia fazer o programa sem colocar o ouvinte no ar, conversar, brincar e fazer uma perguntinha para ele.

JC - Foi então meramente por acaso que o senhor hoje tem como uma de suas marcas registradas a descontração com o ouvinte?

Barbosa Jr. - Foi, pois não tinha intenção nenhuma de ser animador de rádio. E tem outra curiosidade. Quando era criança, ficava com meu irmão (Antonio Carlos Barbosa, secretário municipal de Esportes e técnico da seleção brasileira feminina de basquete) em casa quando meus pais saíam para ir ao cinema ou passear. Tinha 13, 14 anos e ele quatro e, por isso, tinha de cuidar dele. E sabe o que eu fazia? Recortava as propagandas que saíam em jornal para fazer um programa de rádio imaginário. Ficava fazendo a locução com uma vitrolinha e passava a noite fazendo isso.

JC - O que o senhor acha que despertou essa vontade tão grande de interagir com os ouvintes?

Barbosa Jr. - A reciprocidade deles. Faço muitas brincadeiras, sou um cara muito espirituoso e, modéstia à parte, tenho facilidade para brincar quando uma pessoa diz alguma coisa e de pronto já emendo com alguma piada. Mas coisas sérias demais já não sei falar. Se me pedirem para fazer uma homenagem, só se me derem uma coisa escrita, pois de improviso não sai e não tenho esse dom. Tenho bom improviso para falar coisas divertidas e sobre músicas também. Tanto é que criei um programa com os sucessos dos cantores de ontem com os cantores de hoje. Aí já desenvolvo bem, pois conheço bastante de música.

JC - O senhor se inspirou em algum locutor ou tem algum ídolo do rádio?

Barbosa Jr. - Me inspirei muito no Moraes Sarmento, que era locutor da rádio Bandeirantes e faleceu há pouco tempo. Ele fazia um programa de saudosismo chamado Moraes Sarmento que tocava músicas de Silvio Caldas, samba-canção e outras. Era solteiro e ouvia toda noite, das 23h às 2h da madrugada. Muitas tiradas dele eu assimilei e aos poucos fui aperfeiçoando.

JC - E em todos esses anos de rádio o senhor se lembra de alguma passagem curiosa? Já cometeu alguma gafe ou chegou a perder a paciência no ar?

Barbosa Jr. - Passagem curiosa nunca tive, mas, de vez em quando, a gente perde um pouco a paciência.

JC - Em que situação? Com ouvinte chato?

Barbosa Jr. - Às vezes, você repete vinte vezes a pergunta que se está fazendo no programa e dá a relação de prêmios para quem responder certo e, mesmo assim, dali a pouco toca o telefone (imita o aparelho tocando) e o ouvinte diz: “Qual é a pergunta de hoje, hein?” (risos). Pôxa, fala a verdade, acabei de fazer a pergunta e não é para ficar bravo? (risos). Também tem aqueles que, quando estou encerrando o programa, toca o telefone (imita novamente o aparelho tocando) e pedem que gostariam de ouvir a música ou responder a pergunta (risos). Essas coisinhas acontecem e, às vezes, a gente também recebe umas bronquinhas dos ouvintes.

JC - É comum nos programas de interação com os ouvintes ter pessoas que ligam sempre e se tornam até “figurinhas carimbadas” dos programas. Quem são seus ouvintes mais cativos?

Barbosa Jr. - Esses realmente não faltam mesmo. A dona Ortília Godoy, por exemplo, não perde um programa. Ela pode até não telefonar, mas ouve todas as noites. Às vezes, ela falha e até brinco com ela dizendo que foi multada por não ter ligado. Também tem um rapaz, o Luiz Augusto Cardia Júnior, que liga em todos os horários e é ouvinte fiel não só meu, mas de todos os programas da Auri-Verde. Tenho a impressão que ele não dorme e só houve rádio, pois telefona até de madrugada. Outra que está toda noite ligada é a dona Paula Oliveira, cujo marido chama-se Vitorino e mora no Parque Jaraguá. E, quando comecei no rádio, tinha uma senhora chamada Quitéria Bagnol, conhecida nos meios radiofônicos por não perder um programa.

JC - E essa relação com os ouvintes extrapola os microfones e chega a se transformar em amizades?

Barbosa Jr. - Teve um caso de uma senhora que estava muito doente que queria me conhecer de todo o jeito. Quem me levou para conhecê-la foi um jornalista, o José Ricardo Aquilino, já falecido. Todo sábado tinha de ir na casa dela tomar um lanche. Depois teve outra senhora que também quis me conhecer e me convidou para ir na casa dela e conhecer o esposo. E eu e minha esposa também já fomos na casa da dona Ortília Godoy conhecê-la e visitá-la e, às vezes, as pessoas levam bolo para a gente na rádio, pois é um programa que se faz muitas amizades.

JC - E porque o senhor acha que o rádio exerce esse fascínio sobre as pessoas?

Barbosa Jr. - Porque elas ficam imaginando como somos atrás dos microfones. É como a irradiação de jogos de futebol. Muitas pessoas preferem ouvir o jogo pelo rádio do que assistir pela TV por causa da possibilidade de ficar imaginando o que está acontecendo. O rádio faz você criar e mexe com a imaginação. Por isso que também imito determinados instrumentos musicais, como pistão e trombone, o que faz as pessoas acharem que sou louco e depois acabam descobrindo que não é nada disso. Já a televisão mostra fisicamente as pessoas na tela.

JC - Como o senhor compara o rádio feito hoje com o de antigamente?

Barbosa Jr. - Hoje está muito mais fácil em razão da tecnologia. No tempo em que eu gravava as notícias, quando chovia e começava a cair raios fazia uma interferência enorme e não entendia nada. Mas hoje com o computador você pega a notícia na hora, além de ter CD, que naquela época não tinha e facilita demais para tocar as músicas. Mas gostava mais de antigamente, pois o rádio era mais romântico e puro.

JC - O senhor acha que essa tecnologia inibiu o talento dos radialistas?

Barbosa Jr. - Antigamente o rádio era mais criativo, diferentemente de hoje que não se precisa pensar o que se vai fazer. Também era mais difícil entrar em rádio antigamente, pois exigia-se mais. Quando trabalhei na Auri- Verde, era um locutor espetacular de alto-falantes e naquele tempo exigia-se impostação de voz e não podia tossir no microfone senão a direção da rádio te suspendia. Eu não tinha essa impostação de voz, mas agora, não desmerecendo os locutores antigos, aqueles que eu não conseguia competir com eles por causa disso hoje eles não conseguem competir comigo por causa do estilo do rádio, que mudou.

Perfil

Nome

José Ferreira Barbosa Júnior

Data de Nascimento

11/03/1935

Naturalidade

Bauru

Cores preferidas

“Vermelho, preto e branco, em homenagem ao São Paulo.”

Hobby

Ouvir músicas orquestradas

Para quem daria nota 0

“Para ninguém, pois estaria sendo muito rigoroso.”

Para quem daria nota 10

“Para o Damião Garcia e o técnico Paulo Comelli, que estão fazendo um grande trabalho pelo Noroeste.”

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