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Ser humano ‘constrói’ inteligência

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 4 min

“Inteligência: faculdade de aprender, apreender ou compreender; percepção, apreensão, intelecto, intelectualidade. Qualidade ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração, agudeza, perspicácia. Maneira de entender ou interpretar; interpretação.” É assim que a tal da inteligência, tão valorizada em todas as esferas do chamado mundo moderno, é descrita por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira em seu “Novo Dicionário - século XXI”.

Mas a inteligência pode ser medida? As pessoas já nascem inteligentes? Ela é herdada ou é produto do meio? Pode ser definida através do Quociente Intelectual (QI)?

Para o pesquisador e prefeito do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, José Aparecido Da Silva, a inteligência tem origem genética. Ele diz que quanto mais a pessoa envelhece, mais é influenciada pelo patrimônio genético e a contribuição do ambiente para o desenvolvimento da inteligência é pequena. Para a professora-doutora Marisa Eugênia Melillo Meira, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, o desenvolvimento da inteligência depende, sim, do ambiente.

“Não dá para falar de inteligência sem falar de outras dimensões da vida humana”, afirma. Marisa Meira salienta que uma pessoa pode ter uma capacidade grande, mas não ter condições de desenvolvê-la por uma série de fatores econômicos e sociais e vice-versa.

Por conta disso, Marisa critica abordagens utilizadas pelo pesquisador José Aparecido Da Silva para chegar à conclusão de que a inteligência tem origem no patrimônio genético e uma pessoa pode ampliar suas habilidades, mas não pode ampliar a inteligência.

Entre as abordagens criticadas por Marisa está a de que as características básicas de cada ser humano já estariam definidas desde o nascimento, desenvolvendo-se com a maturação. Assim, o mundo externo teria a função de subsidiar o que já está determinado no indivíduo. Dentro da psicologia, esta abordagem é conhecida como inatista, originada com Jean Jacques Rousseau, um dos grandes pensadores europeus do século 18.

Para Marisa Meira, a abordagem inatista limita o papel da educação no desenvolvimento do sujeito, já que o sucesso estaria reservado para aqueles com qualidades e aptidões inatas.

Vale ressaltar que a abordagem inatista é uma das três grandes linhas do campo da psicologia. As outras são ambientalista, originada com John Locke, que valoriza a experiência como fonte do conhecimento, e a sócio-histórica, que trabalha com a relação do homem com a sociedade. “O homem é produto e ao mesmo tempo agente ativo na criação do contexto social”, explica Marisa Meira.

Outras críticas

Marisa Meira ainda critica a tentativa de Da Silva de explicar o comportamento humano recorrendo a uma dimensão biológica – abordagem organicista. E a crítica, neste ponto, segundo Marisa, não significa descartar a dimensão biológica, mas considerá-la como primeira condição para que um indivíduo se coloque “candidato” à humanidade.

Quando diz que o homem nasce “candidato à humanidade”, ela enfatiza que ele tem aptidão para formar aptidões. “A maneira como ele vai se humanizar, construir a sua história, se desenvolver do ponto de vista intelectual e psicológico será determinada pelas relações que vai ter com outras pessoas, com a apropriação da cultura que forma no homem aquilo que é humano”, afirma. “O que é especificamente humano não é determinado geneticamente. É construído na vida em sociedade”, emenda.

Marisa destaca que a genética é capaz de determinar a origem de cada suspiro que o ser humano pode dar, mas jamais vai explicar os valores, a ética, os afetos, a política. “Isso vai ser construído, aprendido e apreendido pelas pessoas nas relações humanas.”

Por conta disso, Maria considera muito simplista a argumentação de que a inteligência tem origem genética e a contribuição do ambiente para o desenvolvimento dela é pequena.

Ela cita como exemplo a história das meninas Amala e Kamala, encontradas em 1920 pelo reverendo Singh, na Índia. Elas viviam com lobos, em uma caverna.

Quando foram encontradas, Amala e Kamala tinham presumidamente 2 e 8 anos de idade. Amala, a mais nova, morreu um ano após ser encontrada. Kamala viveu até 1929. Elas não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos.

Amala e Kamala caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre. Comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra. Eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam.

Kamala viveu oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Precisou de seis anos para aprender a andar e, pouco antes de morrer, tinha um vocabulário de apenas 50 palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela bem como às outra com as quais conviveu.

Levando em conta a genética como definidora da inteligência, Marisa Meira lembra que Amala e Kamala tinham todo equipamento genético para andar, falar, mas não fizeram nada disso justamente porque faltou contato com a cultura humana.

“Nascemos com condição biológica hominizada, mas só nos humanizamos na vida em sociedade. É aí que tudo se constrói, inclusive a inteligência”, salienta.

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