Para defender a tese de que a inteligência tem origem genética, o pesquisador e prefeito do câmpus da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, José Aparecido Da Silva, fez a correlação do indicador de inteligência, o Quociente de Inteligência (QI), de pessoas aparentadas. A professora-doutora Marisa Eugênia Melillo Meira, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru, entretanto, questiona: o que o teste de QI avalia? Para ela, nada além das habilidades específicas e informações de uma pessoa.
“Não se mede inteligência. Ela é um processo sempre em construção. O desenvolvimento intelectual vai sendo construído na medida em que se tem condições de desenvolver a intelectualidade e é preciso ter condições para isso. A inteligência é um processo que não termina, dura a vida toda”, afirma a professora Marisa.
Medir QI faz parte da própria origem da psicologia, no século 19, que nasceu querendo “medir” as diferenças das pessoas. Assim, os testes apareceram como instrumentos para essa medição. Porém, em geral não levam em consideração a capacidade e oportunidade de aprendizado das pessoas.
“Se o teste de QI for aplicado em uma criança que teve várias oportunidades de se desenvolver e em outra que não teve nenhuma, o resultado é diferente. E não dá para dizer que uma criança é mais inteligente que a outra”, afirma. “Então, na verdade o teste acaba traduzindo entre aspas a desigualdade social. Dá uma desculpa para um problema, explica a desigualdade social como sendo natural, o que não é.”
Marisa Meira lembra que um dos testes de QI mais aplicados. Um dos teste mais usados, por exemplo, mostra um violino e pergunta o que é. Se a pessoa não sabe, perde ponto. “Num teste assim, na verdade está sendo medido quanto cada pessoa teve de acesso a bens culturais. Por que saber o que é violino denota que uma pessoa é mais ou menos inteligente?”, questiona Marisa.
Além disso, a professora destaca que os testes são adaptados ao Brasil e vêm de países com realidade completamente diferente da brasileira.
Marisa Meira afirma que para saber o nível de desenvolvimento de uma criança tem que ter acesso a uma série de variações sociais e econômicas dessa criança. Ela diz, por exemplo, que é preciso saber qual a capacidade de desenvolvimento da criança, por exemplo. Aquilo que ela já conseguiu construir é patrimônio dela, fácil de ser identificado, já que a criança mostra que sabe fazer sozinha. Porém, para Marisa, isso não é suficiente.
“Existe um outro tipo de desenvolvimento, que é aquilo que a criança é capaz de fazer com ajuda. Quanto mais a criança vai aprendendo, mais vai se desenvolvendo. E não há teste que seja capaz de medir a capacidade de aprendizado de uma pessoa, o que é o mais importante.”