Ser

Firmeza e humildade

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 11 min

Em janeiro, a professora de odontologia Maria Fidela de Lima Navarro, que foi diretora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), assumiu um novo desafio: comandar a Secretaria-Geral da Universidade de São Paulo (USP).

Indicada ao cargo pela reitora Suely Vilela, ela tem como função assessorar todos os órgãos centrais da USP, os conselhos universitário, de graduação, pós-graduação, pesquisa e extensão, registro de diplomas, serviços auxiliares, entre outras inúmeras atribuições que nem de longe intimidam ou inspiram excesso de responsabilidades para Fidela.

Pelo contrário. Aos 62 anos, ela esbanja energia e dedicação ao trabalho, qualidades que sempre acompanharam sua trajetória. Formada em odontologia pela USP em 1966, Fidela concluiu seu doutorado e livre docência na década de 70. Foi indicada para presidir o grupo de professores de dentística da instituição. Comandou a Sociedade Brasileira de Pesquisas Odontológicas e o Comitê de Desenvolvimento Científico Regional. Além disso, Fidela, que é professora titular da FOB, foi a primeira mulher a assumir o cargo de diretoria da instituição, em 2002.

O extenso currículo profissional de Fidela se compara às experiências que ela adquiriu em sua vida. Nascida em Santarém, Pará, ela chegou em São Paulo aos 2 anos de idade. Na década de 60, fez especialização na Escócia. Casou-se por procuração, fato que despertou curiosidade da imprensa internacional e teve quatro filhos. “Um deles é formado em ciência da computação, dois são médicos e o mais novo seguiu a carreira de odontologia”, orgulha-se.

Atualmente morando em São Paulo, Fidela está pronta para assumir o novo cargo com humildade e firmeza - características que, segundo ela, sempre nortearam sua carreira. Traços de sua personalidade e o trabalho como secretária-geral da USP são os principais pontos da entrevista.

Jornal da Cidade - Qual é a função da secretária geral?

Maria Fidela de Lima Navarro - Apoiar os órgãos centrais da universidade os conselhos universitários, os centrais - de graduação, pós-graduação, pesquisa, cultura e extensão. Além disso, minha função é assessorar todas as determinações que a reitora passar. Sou bem afinada com a professora Suely e acredito que vou colaborar com seu trabalho. De imediato, há 36 servidores não docentes subordinados à secretária-geral. Dentre esses servidores, nós temos uma divisão de serviços acadêmicos, a qual registra os diplomas da USP e de regiões que são determinadas pelo Conselho Nacional de Educação. O artigo 48 da LDB estabelece a necessidade do diploma para o exercício da profissão. No Estado de São Paulo, a USP, Universidade de Campinas e Universidade Federal de São Carlos fazem esses registros. O ideal é que esse processo dure, no máximo, 45 dias. Mas há toda uma problemática envolvida nisso e as pessoas reclamam que os diplomas atrasam para serem registrados. Às vezes, o problema pode estar na seção, diretamente na reitoria, ou na origem, na unidade da própria USP, nas instituições ou nos centros educacionais que não enviam o diploma para registro.

JC - Como agilizar o registro dos diplomas?

Fidela - Quando a pessoa presta um concurso público, por exemplo, e precisa do diploma, ele chega com pedido de urgência. Aí agilizamos para que a pessoa não fique sem o emprego. Mas o ideal é que não ocorra isso. Para cada registro feito é preciso olhar dados da instituição e checar todas as informações. O ideal é que os diplomas sempre cheguem em blocos. Já fizemos treinamentos internamente na USP para ajustar exatamente onde há algum empecilho para que o serviço tenha mais agilidade. Outro problema que existe é a possibilidade de falsificação de diplomas. Está em estudo na universidade a elaboração de um diploma com chave de segurança para evitar falsificação, como ocorre com as cédulas do sistema monetário. São coisas interessantes, mas que demandam estudos e custos. É preciso fazer um estudo completo e uma padronização.

JC - Essas são algumas metas estabelecidas pela reitoria?

Fidela - Agilizar o sistema, diminuindo a burocracia em tudo que for possível, foi colocado entre as metas da atual reitora e nós estamos procurando cumpri-las. Costumo brincar com as minhas secretárias dizendo que hoje somos colegas. A função da secretária é servir como uma ponte, uma pessoa facilitadora. Nesse período que estiver na secretaria vou me dedicar da melhor forma possível para desempenhar bem esse papel.

JC - O que representa a nova função em sua carreira?

Fidela - Quando cheguei à secretaria, o primeiro contato foi maravilhoso. A equipe me recebeu muito bem, me presenteou com uma orquídea branca maravilhosa, que está na minha sala. Senti o carinho. É bom chegar em um lugar e ser bem recebida. Vários servidores me abraçaram me parabenizaram, mas, muitas vezes, as pessoas podem ficar pensando só no glamour do cargo. Ele é importante, mas, acima de tudo, é uma função de muita responsabilidade. Tenho consciência disso e sei que essa posição é passageira. É uma oportunidade de desenvolvimento porque vou interagir com vários setores da universidade. A instituição possui uma grande diversidade, que, muitas vezes, não é percebida se ficarmos somente em nosso setor.

JC - Quais foram os principais serviços e inovações implantadas em sua gestão como diretora da FOB?

Fidela - Começei o trabalho com a unificação de serviços gerais. Os serventes e as pessoas que cuidavam da limpeza da escola ficavam estanques em um departamento e nós conseguimos reuni-los e estabelecer um trabalho em grupo. E esse espírito foi irradiando. As atendentes, por exemplo, fizeram treinamento na área. É importante ter pessoas com capacidade para desenvolver não só o próprio trabalho mas também uma função similar em outros locais. As secretárias de departamento - são vários conjuntos de disciplina - também quiseram atuar em conjunto. Além disso nós transformamos nosso salão nobre em um teatro universitário, dando um presente para nossa comunidade e para Bauru. Isso foi fruto de um trabalho realizado pelo professor Luiz Pegoraro, que conseguiu doações dos próprios funcionários da USP, do corpo docente e dos servidores, coisa que não é muito comum. É difícil encontrar um lugar público no qual as pessoas tenham colocado dinheiro em benefício de todos. Isso é gratificante. Na secretaria fiz uma reunião sobre o trabalho em equipe, ressaltando esse espírito porque nós passamos a maior parte do dia no serviço. Esse período em que ficamos no trabalho deve ser maravilhoso.

JC - Como teve início sua trajetória profissional?

Fidela - Fui da primeira turma da FOB. Me formei em 1965 e colei grau em 1966, há 40 anos. Éramos em dez alunos. Logo depois que me formei, ganhei uma bolsa da Fundação Rotária e morei um ano na Escócia. Foi interessante, mas um período muito difícil porque foi entre 1968 e 1969, época do Golpe Militar no Brasil. As correspondências eram todas censuradas, não havia e-mail, Internet, DDI, não havia chat para conversas. Minha mãe tinha problemas cardíacos e eu não podia ficar ligando porque isso causava problemas para ela. Eu ia todos os dias ao Correio e as correspondências não chegavam. Tinha muitas saudades, nunca havia morado fora de casa. A cultura é muito diferente. Os escoceses são pessoas mais fechadas e reservadas, já o brasileiro é extrovertido. Na época, tive relatos de colegas que foram para o Exterior, ficaram uma semana e voltaram. Às vezes, eu olhava um avião as lágrimas desciam, dava uma saudade, mas consegui superar essa dificuldade. Me casei por procuração porque eu estava lá e meu marido aqui.

JC - Como foi essa experiência?

Fidela - Foi interessante e bem noticiada pela BBC. O casamento chamou a atenção porque na Escócia eram só nobres que se casavam dessa forma. Nós nos encontramos em Paris e foi bem romântico. Depois vim para a FOB, fiz meu doutorado em 1970, depois a livre docência e aí fui indicada para presidir o grupo de professores de dentística. Fui a primeira mulher a ocupar esse cargo. Em seguida, fui presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisas Odontológicas. Nós fizemos um trabalho em grupo e fui indicada para a diretoria dessa associação internacional. Durante dois anos, fiz parte dessa diretoria e depois fui indicada para presidente do Comitê de Desenvolvimento Científico Regional. Tive oportunidades interessantes de desenvolvimento. Me tornei professora titular da FOB e, em 2002, fui indicada para ser diretora da escola. A gestão foi bem prazerosa. Sempre tive duas palavras quando dirigi o cargo: humildade e firmeza.

JC - Por quê?

Fidela - Nós temos que ter humildade para não ficar muito arrogantes. Há pessoas que assumem determinados cargos e ficam pensando no glamour e de um dia para o outro mudam. Precisamos manter a tranqüilidade. O cargo não pode “subir à cabeça”. Devemos ter responsabilidade porque, às vezes, pessoas amigas vão pedir coisas impossíveis. Aprendi, com meu pai, que foi um ótimo administrador de empresas, que para administrar bem é preciso atender tudo o que puder, mas é preciso dizer com a mesma tranqüilidade “não” para o que não puder ser feito. Estamos numa instituição pública, que é o do povo. A pessoa, quando ingressa em uma instituição pública, foi escolhida para servir o povo. É uma posição muito importante. Quando voltei para o Exterior fiquei impressionada em ver como as pessoas respeitavam o que era público. Nos países desenvolvidos, o que é público é de todos e nos países em desenvolvimento ou pouco desenvolvidos percebemos que as pessoas só querem levar vantagem e o que é público não é de ninguém. As pessoas estragam, levam como se fosse particular. É um absurdo. Se houver o sentimento de que o que é público é de todos e precisamos zelar, cuidar e preservar, aí conseguiremos um resultado muito positivo.

JC - A USP tem planos para estreitar os laços com instituições e centros de pesquisa do Exterior?

Fidela -A USP está muito empenhada na internacionalização. Ela já tem alguns pontos de intercâmbio. Algumas unidades já têm inclusive duplo diploma. A FOB, no ano passado, realizou um workshop que faz parte de um doutorado internacional no qual houve uma confluência sobre co-tutela. A pessoa pode entrar no doutorado, fazer uma parte no Brasil e outra na Itália e ter duplo diploma. E da Itália já vieram alguns estudantes para Bauru. Luto para que os intercâmbios sejam em todos os níveis.

JC - Como a senhora analisa o mercado de trabalho para os profissionais de odontologia?

Fidela - O mercado de trabalho, como em várias profissões, está muito concorrido. Houve um aumento exponencial em escolas de odontologia, que estão lançando no mercado um nível elevado de profissionais, mas vão se firmar aqueles profissionais que mais se destacam. A tônica da USP é para que o aluno busque formação do mais alto nível. E agora há apelo forte pela estética. As pessoas querem estar com os dentes clareados, uma aparência melhor e, além disso, os produtos estéticos, de maneira geral, estão atingido grande parte dos homens. A questão estética está evoluída e hoje se fala muito nisso, não somente na área de odontologia, mas na importância do conhecimento holístico, algo mais completo e não estanque como víamos anteriormente em especialidades mais fechadas. Hoje, há necessidade de um conhecimento interdisciplinar e a universidade está alerta e acompanhando isso. Há uma comissão de graduação bem atuante e os alunos estão alertados da importância de que se anos atrás se obtinha um título de graduação, a pessoa já estava “feita”, hoje se sabe que o conhecimento deve estar constantemente renovado para as pessoas não serem superadas.

JC - A senhora se mudou para São Paulo, mas tem raízes em Bauru. Como administra a saudade da família e amigos?

Fidela - Tenho boas amizades em São Paulo, mas mantenho contato direto com as pessoas queridas em Bauru. Tenho um filho morando na casa que mantenho aqui. Vennho para Bauru na quinta ou sexta-feira e volto para São Paulo no domingo à noite. Mas na Capital, é uma roda viva, sempre tem alguma coisa para fazer. Sempre que possível virei para Bauru.

JC - Quais são seus próximos projetos?

Fidela - É sempre importante ter metas na vida. Eu, por exemplo, estou com a missão de contribuir com a gestão reitoral, mas assim que acabar o mandato talvez possa retornar às minhas atividades e, aos 70 anos, há a expulsória porque temos que dar oportunidades para os jovens. Eu posso pensar em outra atividade. Vi um trabalho do Damásio Evangelista de Jesus que administra as penas alternativas. Prisão é algo com o qual eu nunca me conformei, acho que não evoluiu. E, depois, eu acredito nas pessoas. Às vezes, elas cometeram um pequeno delito e acabam sendo discriminadas pela sociedade. As penas alternativas são um sucesso. Então, esse é um trabalho abençoado e uma atividade que, eventualmente, posso estar contribuindo como voluntária no futuro, além de tantas outras atividades. O Brasil é um país maravilhoso, mas enfrenta dificuldades sociais terríveis e nós temos que contribuir para que essas diferenças sejam minimizadas. Não vou dizer que existem pessoas marginalizadas em países mais desenvolvidos, mas é um percentual menor e isso incomoda as pessoas. Devemos pensar que são irmãos nossos e, com uma pequena ajuda, eles poderiam estar em condições diferentes.

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