Há muitos anos, assisti na Universidade de Stanford a palestra de um famoso economista alemão que também era um respeitado crítico de música do San Francisco Cronicle. Foi na época do milagre econômico do Brasil, no início do regime militar. A economia brasileira crescia a mais de 10% ao ano, ultrapassando todas as outras de países emergentes. Quando se falava do Brasil, o adjetivo “booming”, que quer dizer explodindo, sempre estava ligado ao nome Brasil. “Brazil’s booming economic growth” era uma frase padrão entre os economistas, não apenas entre os brasilianistas que sempre se empolgavam com o nosso estampados País, considerado por eles a nova fronteira econômica.
Fiquei surpreso quando o palestrante enfatizou que uma das indicações importantes de desenvolvimento econômico é a intimidade que o povo tem com a música erudita, que, segundo ele, deve se refletir em todas as atitudes da sociedade. Para ele, a música erudita tem um efeito positivo no pensamento individual, bem como no coletivo. Ela abre horizontes, incentiva os bons sentimentos e apela ao altruísmo. Da mesma maneira em que o ritmo de tambores rudimentares leva os seguidores de seitas primitivas a entrarem em transes hipnóticos que momentaneamente os transportam a outras dimensões menos desagradável do que sua miséria cotidiana. Em outras palavras, o primitivismo musical não estimula o indivíduo a procurar melhorar, mas o ajuda a fugir da realidade. Tive certeza, naquele momento de que, se ele estivesse certo, o Brasil do Carnaval certamente era uma exceção a essa regra que eu julguei um tanto elitista. Com o passar do tempo, cada vez mais me convenço de que o alemão estava certo.
A música erudita é uma amante implacável, como dizia o pianista norte-americano John Browning. Para possuí-la, é necessário dedicação, fidelidade, trabalho árduo e, acima de tudo, muito amor. A música erudita causa uma transformação naquele que a ama. Ele não fica mais satisfeito com a mediocridade, com o jeitinho, com a mentira ou com a demagogia, pois aquilo que é não pode ser substituído por aquilo que parece ser, mas não é. A música não aceita ilusicionistas. O músico é o portador de um dom divino e ele tem por obrigação desenvolvê-lo e nunca enterrá-lo.
Bauru, presentemente, passa por uma transformação maravilhosa. A música erudita está brotando em muitas vertentes. A nossa orquestra de câmara, sob a batuta do incansável e talentoso maestro Marcos Virmond, cada dia vem se tornando uma das grandes expressões artísticas do País. Com o grande entusiasmo do nosso secretário de cultura, Augusto Vinagre, novos talentos estão sendo revelados na orquestra sinfônica de jovens e na banda sinfônica. É uma nova geração de jovens talentos que vão se revelando. Jovens esses que poderão transformar o nosso País em uma grande nação, num futuro bem próximo.
Talentos bauruenses como Rogério Lourenço dos Santos, o “Tutti”, já brilham nos palcos da Steinway, nos Estados Unidos, a mais conceituada fabricante de pianos de alta qualidade do mundo. “Tutti”, por sinal, virá brindar Bauru por ocasião do aniversário da cidade neste próximo agosto. Ele apresentará, juntamente com a nossa orquestra de câmara, o majestoso, brilhante e altamente aclamado Concerto Número Um de Tchaikovisky, que o nosso querido artista interpreta impecavelmente rivalizando a famosa interpretação de Van Clibern quando este venceu o “Concurso Tchaikovisky”, em Moscou.
Bauru também foi abençoada com a vinda da “diva do ensino do piano” para a nossa cidade, a grande pianista cubana, formada em Moscou, a Rosa Maria Tolon. A Rosa tem grande paixão pelo piano. Foi através dela que “Tutti” desenvolveu o seu admirável talento. É também a Rosa que atualmente lapida uma pedra de valor inigualável, a prodigiosa Sílvia Molan que, com apenas 16 anos, já domina o instrumento com maestria. Sílvia está destinada a ser a sucessora da nossa saudosa primeira-dama do piano, como era conhecida nos Estados Unidos, a grande Guiomar Novaes, a quem tive o privilégio de conhecer após uma de suas memoráveis apresentações a uma das platéias mais exigentes do mundo, em Carmel, cidade que foi a residência do grande pianista Walter Gisiking.
Vejo um grande potencial para Bauru: o de se tornar um dos centros culturais do País como Campos de Jordão, Tatuí ou Ribeirão Preto. Espero, num futuro não muito distante, poder ver meu sonho realizado em podermos sediar o “Music Festival of North-South Hemispheres of Bauru”.
Prof. Benedito S. Guedes de Azevedo - RG 1.571.673