Os xaropes infantis, receitados pelos médicos para curar tosses e resfriados, são extremamente corrosivos aos dentes. Essa é a conclusão de um estudo da dentista Carolina Covolo da Costa, publicado em uma das mais importantes revistas de odontologia do mundo neste mês, a “General Dentistry’’.
A tese de doutorado que Costa defendeu na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) no ano de 2004 já virou notícia em sites especializados da Inglaterra, dos Estados Unidos, da África do Sul, do Japão e até do Vietnã.
Durante um ano, ela avaliou em laboratório o impacto do xarope Claritin D nos dentes de crianças de seis meses a 12 anos. Concluiu que o medicamento causou a quebra do esmalte e gerou uma hipersensibilidade. Segundo ela, o dente perde as características naturais. “No consultório, percebi que muitas crianças tinham o dente liso e ficavam com maior sensibilidade à variação de temperatura dos alimentos.’’ Essas crianças tomavam maior quantidade de medicamentos, segundo relato das mães.
Após analisar o histórico médico dos pacientes, Costa formulou a hipótese de que a erosão dentária era causada pelos xaropes. Selecionou, então, a marca mais vendida nas farmácias de Florianópolis - Claritin D - e foi para o laboratório, onde fez o estudo -simulando, in vitro, as situações cotidianas. Os dentes usados no estudo foram os decíduos (dentes de leite), presentes na cavidade bucal até os 10, 12 anos, quando ocorre a exfoliação, ou seja, a “queda’’ do último deles.
Além de cáries, provocadas pelo açúcar, o esmalte dos dentes foi dissolvido devido ao pH (que indica acidez) baixo do remédio. Quanto menor o pH, mais ácida é a substância. “O problema é que a bula diz que deve ser tomado de 12 em 12 horas. Ou a criança toma na hora de dormir na cama ou os pais a acordam no meio da noite.’’ Em nenhum dos casos, diz, a criança escova os dentes ou faz uma limpeza bucal. Apesar de o estudo ter sido feito apenas com o Claritin D, ela diz que todos os xaropes produzem o mesmo efeito.
Costa, 29 anos, mora em Santa Maria (RS), onde tem um consultório, e atende em Porto Alegre, no setor de odontopediatria do hospital Moinhos de Vento.
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Pesquisa não retrata realidade, diz fabricante
Para o pediatra Celso Sustovich, diretor-médico da Schering-Plough, fabricante do Claritin D, o estudo, por ter sido in vitro, não retrata a realidade. “Como não foi feito na boca, descarta alguns fatores, como a saliva e o fato de ser pingado na língua.’’
Segundo ele, há precipitação em concluir que os xaropes corroem os dentes sem fazer exames em crianças. Em relação à fórmula, disse que qualquer xarope possui pH baixo para manter a estabilidade do princípio ativo. “Com pH neutro ou básico, ele perde o efeito. É um recurso farmacotécnico.’’
A assessoria de comunicação da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) disse que não iria se pronunciar sobre o resultado da tese.
Folhapress