Semana passada, foi inaugurada na França a primeira academia de “cafeologia” do mundo: a “Cafeatoeca de Paris”. A idéia foi de uma mulher. A guatemalteca Gloria Montenegro abriu esse charmoso negócio, bem em frente ao Rio Sena, onde a principal atividade é ensinar a degustação da exótica bebida, como antes se fazia com um bom vinho. O espaço já atrai enólogos e sommeliers famosos, loucos para provar e reconhecer as diversas variedades do café, produzido em 70 países. Leio essa notícia e sinto uma inveja danada. Penso que seria muito mais lógico se essa academia estivesse localizada em alguma das esquinas de nosso país, em cujos balcões se consomem cerca de 115 bilhões de xícaras por ano. Mas por que será que o brasileiro bebe tanto café?
Eu arrisco uma resposta: café tem sabor de gente. E não há povo que adore mais um contato humano do que o nosso. Gostamos de tocar nas pessoas, abraçar nos encontros, beijar desconhecidos. Somos um povo quente e gostamos do calor humano. Daí o café cair como uma luva em nossa cultura de colo, ombro e té-te a té-te. A academia irá formar expertises, dentro de um perfeito protocolo de degustação. Os caffeliers, ou qualquer coisa assim, certamente aprenderão a descrever a sensação aromática e o insuperável sabor do pretinho, nas suas milhares de performances culturais. Isso é natural. Mas será que os franceses vão conseguir explicar o toque sobrenatural que envolve a bebida?
Segundo historiadores especialistas, a palavra café tem origem no termo “cahue” que, em árabe significa “força”. Aqui começa o mistério do grão que foi descoberto para consumo lá pelos idos do século XII. A mesma história cataloga que, no ano de 1.615, logo depois que aportou na Itália, o café foi considerado pela Igreja Católica como “invenção de Satanás”. Na Turquia, dos séculos XVI e XVII, quem fosse pego tomando café era simplesmente condenado à morte. Com ou sem protocolo, nós, brasileiros, somos todos experts no apetitoso cafézinho. A tradição de servir uma xícara aos visitantes é um hábito que remonta séculos nas casas interioranas. Venho de uma família onde é considerado falta de educação a simples demora em servir um café aos recém chegados. Ao acordar, algumas xícaras já vêm até as camas. Esse privilégio de tomar o pretinho, quase na horizontal, é uma herança da burguesia mas confesso que não há mal costume melhor. Você se sente um verdadeiro imperador pronto para montar seu cavalo em direção às hordas de infiéis. “Meu reino por um café”. Essa é a frase que atormenta a vida daqueles aos quais os médicos condenaram a uma dieta livre de cafeína. Seja por males do estômago ou por qualquer outro diagnóstico, suprimir o café de uma vida adulta é como arrancar a chupeta de um bebê chorão. Impedidas de consumir a bebida, alguns apenas colocam-na na boca e depois cospem-na, sem engolir. Dizem ficar com o “gosto fingido” no hálito.
Café sempre foi uma bebida agregadora. Gostoso hábito é aquele de marcar encontros para tomar um. Nunca se sabe qual o real motivo de tais encontros, se é a bebida, mesmo, ou se o café é apenas uma boa desculpa para falar da vida, olhar nos olhos, ficar próximo por alguns instantes. E é uma pena durar tão pouco o conteúdo da xícara. No auge do papo, ele acaba. Como um combustível a desencorajar a chama antes, incrivelmente alvissareira. Quantos pares já não começaram seus casos através de uma simples xícara de café? Quantos negócios já foram regados, quantas mágoas já foram consoladas, quantos desabafos já desfilaram ao seu sabor? Mesmo quando estamos profundamente solitários, o cafezinho cai bem. Ele chega como uma presença líquida a nos confortar, a nos fazer companhia. Exatamente como um tapinha no ombro. Um convite para um café, às vezes, tem cheiro de emprego, às vezes tem aroma de despedida. Dependendo de quem vem, aumenta até a nossa auto-estima. Tudo isso sem falar na deliciosa sentença que inesperadamente nos sai da boca: “venha, vou te pagar um café”. Em muitas culturas, render-se a este convite equivale a entregar-se a uma espécie de beijo roubado. Você sente a satisfação mas não paga pelo pecado. E, por falar em pecado, lembro-me agora de uma história da história de uma princesa que, ao comer voluptuosamente um sorvete numa noite muito quente, disse: “que pena não ser pecado!”.Talvez assim também se explique o mistério sobrenatural do café. Vai um cafezinho?
A autora, Luciana Gonçalves, é radialista, profissional de telecomunicações e marketing