Vingança, represália, tentativa de intimidação, vandalismo ou fatalidade. Ninguém sabe ao certo porque a casa de Albino e Jupira Manoel Sobrinho, na aldeia Kopenoti, no município de Avaí, foi destruída pelo fogo na madrugada de ontem. O fato é que tudo o que estava na residência - eletrodomésticos, móveis, roupas e mantimentos - foi consumido pelas chamas. O caso está sendo investigado pela Polícia Federal, que até ontem não tinha chegado à causa do incêndio. Porém, o JC apurou que existe um clima de rivalidade entre integrantes da tribo e a família dos donos da residência.
A suspeita é de que o incêndio tenha começado por volta das 2h de ontem. O casal não estava na residência, construída em madeira e alvenaria, no momento. Jupira é funcionária da Fundação Nacional do Índio (Funai) e, durante a semana, ela e a família permanecem em Bauru - só voltam para a reserva aos sábados e domingos. Na aldeia, todas as pessoas ouvidas pela reportagem garantiram que o incêndio foi criminoso.
Acompanhados da Polícia Federal, representantes da Funai foram até a aldeia. Amauri Vieira - que está substituindo o responsável pela fundação em Bauru, Nilton Machado, em viagem a Brasília - afirmou que será aberto procedimento de investigação sobre o caso.
“Houve um conflito interno. Fomos chamados para apurar o que houve. Conversamos com eles (índios) e agora vamos esperar o trabalho policial”, conta Vieira. O delegado da Polícia Federal Gustavo Martins esteve na reserva com sua equipe. “O caso será apurado com a possível instauração de inquérito policial”, explica.
Procurada pelo JC, Jupira disse acreditar que o incêndio foi criminoso. Segundo ela, tudo teria começado após uma denúncia feita por índios da reserva ao Ministério Público (MP) sobre supostos benefícios de transporte escolar. A partir daí, diz ela, sua família passou a receber ameaças. “Fui atingida sem motivo. Estamos pagando por uma coisa que não estamos relacionados”, acredita.
Denúncias
Por conta da denúncia feita ao MP, ela teria sido impedida pelos moradores da aldeia de voltar à sua casa. “A polícia vai investigar e quem causou isso vai responder na Justiça”, aponta Jupira. Ao JC também chegou a informação de que o estopim da crise entre índios da aldeia e a família de Jupira, que culminou com o incêndio, teria sido uma agressão ocorrida dentro da Funai, recentemente.
As informações dão conta de que Jupira estaria envolvida indiretamente na agressão à mulher, que seria uma índia. Questionada pelo JC, Jupira negou veementemente a acusação. “Inclusive, eu ajudei a afastar a agressora. Quem disse isso, terá que provar na Justiça”, afirma. Além da alegada agressão, o clima de discórdia teria levado, inclusive, à renúncia do cacique da aldeia, que é cunhado de Jupira.
Ela confirma a renúncia, mas diz que foi em função das denúncias feita ao MP. Após a renúncia, o cargo foi ocupado por um outro índio da aldeia. Ele teria exigido a saída de Jupira e seu marido da aldeia, inclusive concedido prazo para a retirada dos móveis da casa. Na aldeia, os índios contaram que, na tarde anterior ao incêndio, o atual cacique e outras pessoas foram até a casa de Jupira e Albino com uma carreta.
A intenção seria retirar os móveis da casa e armazená-los no centro comunitário do local. “Mas eles não tinham nenhum documento que os autorizasse a tirar as coisas de lá, então, nós os impedimos”, revela um dos parentes da família, que não quis revelar o nome e estava indignado com o incêndio.
Segundo Albino Sobrinho, a casa que foi destruída pelo fogo foi uma das primeiras levantadas na aldeia. “Foi a minha mãe, que só falava a língua nativa, quem construiu. Era um legado para nós”, aponta. “Era um patrimônio cultural e histórico da aldeia. Muitos índios nasceram lá”, lamenta Jupira.