Regional

Sem-terra deixam fazenda em Agudos

Davi Venturino
| Tempo de leitura: 4 min

Agudos - Cumprindo mandado judicial, policiais militares de Bauru e Lençóis Paulista acompanharam ontem a retirada do grupo de sem-terra que estava há seis dias acampado na Fazenda São Domingos do Tupá, em Agudos.

Um comboio formado por 14 viaturas policiais, um ônibus e um caminhão da cavalaria da Polícia Militar (PM) levaram 63 policiais até o local para garantir a execução do mandado judicial. O capitão José Aparecido Godoy Siqueira e oficiais de Justiça já haviam visitado o local anteriormente e conversado com os sem-terra.

Por volta das 11h15 de ontem, o líder do grupo, Gecizai Marques das Neves, decidiu pela saída pacífica. Cerca de uma hora depois, os integrantes do grupo partiram para o assentamento “Zumbi dos Palmares”, a alguns quilômetros do local onde estavam. Quatro caminhões alugados de uma transportadora de Lençóis Paulista levaram os integrantes do movimento e seus pertences até o assentamento.

A Fazenda São Domingos do Tupá fica a cerca de 40 quilômetros de Agudos e pertence a Arnold Fioravant, que arrendou as terras para a Usina Lorenzetti. O acesso à fazenda é por estrada de terra que, devido à chuva, dificultou o trânsito dos veículos no local.

O grupo de sem-terra, segundo Neves, é composto por 350 pessoas, sendo que deste total, pelo menos 60 são jovens ou crianças. Na fazenda, no entanto, só estava parte do grupo. A coordenadora de educação dos sem-terra, Luzia (ela não revelou o sobrenome), ressaltou que as crianças, filhos dos acampados, estavam estudando em escolas municipais na cidade de Iaras. Um ônibus da prefeitura, segundo ela, vinha buscar as crianças todos os dias.

Para o integrante da direção estadual do Movimento dos Sem Terra (MST), Miguel Serpa, parte das terras naquela região pertence ao governo federal. “A fazenda tem 12 mil hectares, sendo que 8 mil hectares tem documentação e outros quatro não. O problema aqui é fazer o levantamento dos quatro hectares que não têm documentação. Nossa briga é para que o Incra separe onde é que estão os 4 mil hectares não-documentados. Se for aqui, é aqui que eles (os sem-terra) serão assentados”, explica.

Serpa acredita que naquela região existem mais de 85 mil hectares de terras devolutas pertencentes ao governo Federal e que teriam, inclusive, registro legítimo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

O líder do grupo também acredita que as terras pertencem ao governo federal e acha que as reservas de água do local estão sendo esgotadas com as plantações de cana-de-açúcar.

“Este local é uma área do governo federal que está invadida por latifundiários que estão tentando plantar cana na região para acabar com as nossas reservas de água. Nós não lutamos somente por terras, mas também pela preservação da natureza. Por isso estamos aqui”, critica Neves.

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Sem opção

O pernambucano Ivaldo Oliveira Cintra, 45 anos, conta que passou nove anos em acampamentos e conseguiu sua terra há apenas um ano. “Eu vim de Pernambuco para São Paulo para trabalhar. Não consegui trabalho e entrei no MST. Passei nove anos debaixo da lona. Faz um ano que eu estou assentado”, diz o agricultor.

Joaquim Seixas, administrador da Fazenda São Domingos do Tupá, acredita que alguns integrantes do grupo dos sem-terra utilizaram maquinários sem autorização enquanto estavam acampados no local. “Pegaram carriola e destruíram muitas portas. Usaram maquinário sem autorização. Não é meu, mas eu sou responsável e já sumiu muita coisa”, conta Seixas.

Serpa ressalta que o objetivo do movimento não é prejudicar ninguém e que os incidentes serão investigados. “A nossa orientação é que não levem nada. Não é essa a nossa função, nem nosso objetivo. Nós vamos apurar. É possível que tenha acontecido. Minha função principal é acompanhar (a retirada) para que não haja exageros de parte nenhuma. Fazer a luta sem prejudicar ninguém”, diz.

Segundo ele, o governo Federal ainda não cumpriu a promessa de assentar o grupo em 90 dias. “Há uma promessa do governo de assentar este pessoal em 90 dias e já faz quase um ano e ainda não assentou”, conclui.

A retirada dos sem-terra da fazenda foi acompanhada por uma assistente social, por um representante do Conselho Tutelar de Agudos e dois oficiais de Justiça. Uma ambulância também foi disponibilizada pela Prefeitura de Borebi.

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