Bagdá - Para aplacar o surto de violência sectária que sacudiu o Iraque após um ataque contra um importante templo xiita na última quarta, o governo em Bagdá estendeu um toque de recolher diurno implantado anteontem na Capital e em três Províncias sunitas. O presidente dos EUA, George W. Bush, pediu aos iraquianos que se unam para evitar uma guerra civil e definiu os próximos dias como “cruciais”.
No seu primeiro dia de vigência, a medida conteve os ataques e contra-ataques na Capital, onde já vigorava um toque de recolher noturno e um dos principais focos de tensão nos dois dias anteriores. Ontem, segundo a polícia, foram cerca de 20 mortos em Bagdá, mas a situação se manteve relativamente calma.
Apesar do arrefecimento da violência, nem todos respeitaram as medidas emergenciais. Dezenas de milhares de seguidores do clérigo xiita Moqtada al Sadr saíram as ruas de Sadr City, bairro superpovoado e pobre da Capital, para protestar. A milícia comandada por Al Sadr, o Exército Mehdi, se envolveu em diversos confrontos.
Mas outros clérigos importantes discutiram como conter as tensões. O principal líder religioso xiita do país, aiatolá Ali al Sistani, já proibira ataques a sunitas. Por causa do poder de alcance dos sermões, analistas vêem nos clérigos figuras cruciais para conter a violência iniciada com um incidente carregado de simbolismo religioso.
Na quarta, uma bomba reduziu a escombros a Mesquita Dourada, um dos principais santuários xiitas, em Samarra, ao norte de Bagdá. Embora o atentado não tenha deixado vítimas, a retaliação atingiu quase 200 mesquitas sunitas.
Xiitas e sunitas são facções distintas do islã por discordarem sobre a sucessão de Maomé. O incidente e a reação acirraram tensões latentes no Iraque desde a queda de Saddam Hussein, há três anos. Sob o ditador, os árabes sunitas (que são 20% dos iraquianos) dominavam o país, enquanto árabes xiitas (60%) e os curdos (15%) eram reprimidos. Perdidos os privilégios, os sunitas deixaram o processo político e passaram a fomentar a insurgência.
Além das tensões religiosas, há questões políticas: entre outras coisas, os sunitas temem perder o acesso ao petróleo, já que a Constituição aprovada por um governo majoritariamente xiita aumentou a autonomia regional, e os campos petroleiros se concentram nas áreas xiitas e curdas.
“Este é um momento de escolha para o povo iraquiano”, disse Bush nos EUA. “Devemos esperar que os próximos dias sejam intensos”, afirmou, aludindo ao temor de uma guerra civil. Com a escalada de violência, o governo americano pode ser obrigado a rever o plano de antecipar a saída dos 138 mil soldados que tem no Iraque. Sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse que os países árabes temem a disseminação dessas tensões.