Certo dia, o rabino chegando em sua casa subiu ao quarto dos filhos. Ao abrir a porta, viu o filho mais velho em oração profunda e no canto o filho mais novo, ainda bebê, chorando no berço. O rabino disse, então, ao filho: “Você não está ouvindo seu irmão chorar?” O filho, com um rosto de sábia tranqüilidade, respondeu: “Pai, eu estava em profunda sintonia com Deus!” O rabino respondeu, pegando o nenê em seu colo: “Quem está em profunda sintonia com Deus percebe até mesmo o voar de uma pequena mosca na parede!”
O melhor caminho para não encontrar Deus é procurá-lo por motivos errados. Existem pessoas que seguem religiões, mas exatamente por este motivo deixaram (se é que um dia o foram) de ser religiosas. Muitas pessoas podem até ter a sensação de estarem próximas de Deus (“finalmente encontrei Jesus!”), mas, na verdade, não o encontraram, porque a aproximação aconteceu por razões erradas. Hoje em dia, milhares de pessoas procuram Deus para solucionar seus problemas. O ser humano procura Deus para fugir de seus sofrimentos, para ser curado de uma doença, para se livrar da depressão, para ganhar mais dinheiro e, principalmente, para encontrar a felicidade. Justamente todas essas razões farão com que Deus não seja encontrado. Todas elas são fruto das carências humanas e, apesar de ser compreensível que pessoas com essas razões estejam buscando a solução de seus problemas, estão, infelizmente, no caminho errado.
Se a busca de Deus é motivada pela fuga do sofrimento, dificuldades financeiras, o surgimento de uma doença ou o estado de infelicidade, o encontro com Deus não acontece, pois atrás de todos esses motivos está o ego. O ego é imenso demais e a sua busca consiste na realização de um interesse particular.
Ninguém encontra Deus tentando, por exemplo, buscar a felicidade. O motivo é muito egocêntrico para que o relacionamento com Deus possa se desenvolver e, principalmente, para que a felicidade aconteça. Em primeiro lugar é necessário compreender que a felicidade ou a sensação de ser feliz é sempre uma conseqüência e o relacionamento com Deus não está no nível daqueles problemas cotidianos como relacionamento amoroso, dinheiro ou doença. A felicidade é sempre um subproduto.
Na verdade, ninguém precisa se preocupar com ela. Você cuida da árvore e naturalmente surgem as flores, a sombra, a brisa, etc. Sempre que o ser humano se sente feliz não está procurando a felicidade. A felicidade acontece quando se está procurando outra coisa. Quando alguém está verdadeiramente feliz, esquece de si mesmo e se o ser humano não consegue esquecer de si mesmo é porque não está feliz. Felicidade significa o poder de não estar mais presente. Naquele que procura a felicidade, o ego permanece, continua sendo o ponto de referência. Quem procura Deus para resolver suas carências afetivas, seus problemas financeiros, sua doença ou sua infelicidade possui um motivo egocêntrico demais para encontrá-lo
Na ânsia de soluções fáceis para seus problemas o ser humano acaba, então, reinterpretando Deus a seu modo. Se tenho medo da vida, Deus acaba se tornando um “guarda-costas”. Se estou doente, Ele se torna um “milagreiro”. Se estou em busca do poder, Deus é fiel, poderoso e combate os meus inimigos. Quem deseja viver um verdadeiro relacionamento com Deus não pode projetar nada, nenhum desejo. A razão através da qual podemos encontrar Deus é apenas uma só: a busca da verdade. A plataforma para o encontro com Deus é construída quando o ser humano se questiona com sinceridade: “Qual o sentido da minha vida? O que eu estou fazendo aqui? Qual a razão de estar neste mundo?”
Se nos questionamento profundamente sobre o sentido da vida e a razão de nossa passagem por esta existência estamos prontos para um encontro autêntico com Deus. Nos encontramos com Deus verdadeiramente quando não estamos sofrendo, quando estamos relativamente bem e livres para refletir melhor sobre o caminho de nossa existência. E se buscamos esta verdade fundamental, os momentos de prazer e felicidade, com certeza, se intensificam e aprendemos que somos nós mesmos que devemos solucionar nossos problemas. Deus nos oferece simplesmente sua companhia. Mas, tanto a felicidade como a solução dos problemas não são o objetivo, são conseqüências.
Na busca de resposta à pergunta sobre a razão de viver e no relacionamento com Deus nos tornamos mais responsáveis pelos nossos atos, honestos, pacientes, sensíveis à injustiça, solidários, inconformados com a violência, racionais e críticos. Afinal, tudo isso e muito mais nos ajudam a dar um sentido para a nossa passagem por este mundo. Somente quando se busca a verdade é que se consegue aproximação verdadeira de Deus. Se o buscamos por outros motivos podemos, no máximo, pertencer a uma religião, nos conformar com as palavras dos líderes religiosos, nos aliviar nas celebrações emocionantes e até deixar nosso dinheiro na igreja na ilusão de que Deus nos dará em dobro, mas espiritualmente estaremos muito, muito distante de Deus.