As primeiras pesquisas sobre a relação entre arte e distúrbios emocionais surgiram no final século 19. Desde essa época, estudiosos procuravam classificar as patologias dos doentes mentais de acordo com suas manifestações artísticas, explica Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, psicóloga e coordenadora do Instituto Bauruense de Psicodrama (Ibap).
De acordo com ela, Freud analisou as obras de arte a luz da teoria psicanalística e mostrou que o inconsciente se manifesta por meio de imagens. Na década de 20, Jung percebeu a expressão artística como parte do tratamento psicoterápico. Moreno criou o psicodrama, que se utiliza da dramatização para tratar dos conflitos psíquicos.
Ao longo do tempo (leia mais abaixo), os recursos de expressão artística se tornaram bons aliados no tratamento terapêutico, trabalhando com pacientes de todas as idades, individualmente ou em grupo. O método ficou conhecido como arterapia, aponta Vanin. “A arteterapia é um instrumento de acesso ao inconsciente, tem ação catártica, integrativa e de elaboração de conteúdos”, diz.
Longe desse contexto, a arte – muitas vezes considerada hobby – é uma grande oportunidade para melhoria na qualidade de vida, combate ao estresse, aprimoramento das habilidades individuais e da auto-estima, destaca Vanin. Além disso, contribui para o desenvolvimento da intuição, percepção e expressão. Pode ser, inclusive, uma forma de terapia e exercício mental.
“Na atividade artística a pessoa é solicitada e estimulada a fazer novas combinações de cores, formas, ritmos e sons. É um desafio constante para a criatividade”, diz a psicóloga, que tem experiência comprovada na área. Isso porque Vanin gosta de todas as formas de arte e, como ela diz, já “experimentou um pouquinho de cada coisa”.
“Fiz curso de artes plásticas, de dança, música e mais recentemente de pintura em tela. Também escrevo poesias”, conta a psicóloga. “Utilizo a arte como veículo de expressão e como hobby’”, define.
Assim como Vanin, muitas pessoas apostam na arte para exercitar habilidades e desafiar a própria criatividade. É o caso da professora de música e piano Jurema Melo de Siqueira, 46 anos. “Desde garota sempre gostei de atividades artísticas. Em 1999, comecei a me dedicar à isso.”. “Faço do artesanato uma forma de terapia”, diz ela, que trabalha com pintura, bordado e artesanato.
“Quando estou produzindo, esqueço de tudo, mas ao mesmo tempo em que me desligo, paro para pensar e refletir. Além disso, expresso emoções e sentimentos por meio dos trabalhos”, conta Siqueira.
De acordo com Vanin, a arte ajuda o ser humano a se manter emocionalmente saudável. “Ao estimular a criatividade através de qualquer manifestação artística, as pessoas descobrem seu potencial e aprendem a dar respostas novas para as situações da vida”, avalia a psicóloga.
“Gosto muito de uma frase de um texto do Oswaldo Montenegro que diz: ‘Que a arte nos aponte uma reposta, mesmo que ela não saiba’. Acredito que a arte tem muitas respostas”, pontua Vanin.
____________________
Tempero da vida
Transformar simples objetos em peças criativas e originais não é a única característica do artesanato feito por Giédre Sartorelli, 33 anos. Designer gráfica e pós-graduada em marketing, nas horas livres ela troca o computador por tintas e pincéis. Mergulha em um universo de cores, linhas e texturas, transmitindo seus sentimentos em cada peça. Entre elas, caixas, oratórios, bandejas e portas-chá com a técnica da découpage, termo francês que equivale a recorte e colagem de figuras sobre objetos.
Adotando o mesmo “ritual” da professora de música e piano Jurema Melo de Siqueira, quando está em seu ateliê – localizado em sua casa – Sartorelli se isola em um universo particular. “Fico sozinha. Não atendo telefone, interfone. É um momento de interiorização”, diz.
Ela faz uma analogia com a própria vida: “Uma das lições que o artesanato traz é que cada coisa tem seu tempo. Quando estou pintando, passo a tinta e como a peça está molhada, é precisa esperar secar. A figura já está recortada mas não posso colar porque ainda não é hora. Se aplicá-la, estrago e prejudico todo o trabalho”, explica.
A primeira peça de Sartorelli, uma mala antiga, é uma espécie de balanço de sua vida. “Foi um trabalho muito gostoso porque com a técnica da découpage, reuni diversas fotos e situações da minha vida: minha infância, formatura da pré-escola, da faculdade e amigos”, conta.
Realização pessoal é um dos principais benefícios proporcionados pela arte, aponta Sartorelli. “Sempre fui apaixonada por trabalhos manuais; por meio dele consigo dar vida e concretizar minhas idéias.”. “O artesanato temperou minha vida”, revela.
Cristiane Goto
____________________
Pesquisa
Além dos estudos de Freud, Jung e Moreno, teorias como a Gestalt e as linhas sistêmica, construtiva, humanista e transpessoal da psicologia fornecem embasamento teórico para a arteterapia, que vem contribuindo muito no tratamento de distúrbios psíquicos.
No Brasil, explica a psicóloga e coordenadora do Instituto Bauruense de Psicodrama (Ibap), Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, dois nomes se destacam no trabalho com expressões artísticas aliadas ao processo terapêutico: Osório César e Nise da Silveira.
De acordo com a psicóloga, ambos defendiam que independentemente da condição de saúde mental, existe um potencial criador no ser humano. “Osório César acreditava que fazer arte é uma atividade terapêutica por si só, por ser um veículo de acesso ao mundo interior”, diz.
Nise da Silveira realizou experiências no centro psiquiátrico “D.Pedro II em Engenho de Dentro”, Rio de Janeiro, aponta Vanin. Apoiando-se na psicologia junguiana, ela propunha a seus pacientes a execução de trabalhos utilizando todas as formas de arte: desenho, pintura, argila, música, dança e representação.
“Para Nise, o mundo interno do psicótico é rico e conserva um grande potencial expressivo mesmo depois de anos de doença”, observa Vanin. “Sua experiência abriu um importante campo de pesquisa no tratamento de psicóticos através da arte”, avalia.
Cristiane Goto