Mortais, todos somos. Divino, por sua vez, é um atributo que a poucos se reserva. Faço essa reflexão tendo em conta a recente e arrebatadora passagem de Mick Jagger pelo Brasil. Como explicar o fato de uma pessoa, aos 62 anos, conduzir ao delírio mais de um milhão e trezentas mil pessoas? Proponho essa análise isenta de qualquer paixão pelo rock e, muito menos pelo roqueiro em questão. Entretanto, fato é que ninguém pode ignorar o magnetismo que tomou conta de todos que tiveram a chance de se aproximar desse ídolo. A histeria coletiva é apenas um dos efeitos que as pessoas a quem se pode chamar de “divinas” produzem em nós, pobres mortais. Mas, quais são, afinal, os elementos que transformam alguém que poderia, simplesmente, ser mais um, nesse universo de seis bilhões e meio de pessoas, em um ser tão especial?
A história registra inúmeros exemplos de pessoas que alcançaram esse patamar: Mozart, Leonardo da Vinci, Charles Chaplin, Airton Senna, etc... O que elas têm em comum, apesar da diversidade da área de atuação? Em primeiro lugar, penso que têm elas uma coragem incomum. O ser “divino” não tem medo do ridículo e não se acovarda diante do fracasso. O “divino” não cabe dentro dos limites, não está associado à padrões de comportamento ; “divino” é todo aquele que escapa da mediocridade e consegue romper os limites que aprisionam a grande maioria das pessoas; sua marca é sempre a intensidade. E, justamente por desafiarem os limites humanos, tais pessoas, comumente, enfrentam a ira dos deuses, vivendo, paradoxalmente, entre o céu e o inferno, entre a glória e a derrocada. Ao escancarar seus talentos, as pessoas consideradas divinas cumprem um papel importante no nosso imaginário: mostram-nos que possível ir além, libertam-nos das amarras da realidade e fazem-nos sonhar com outros modelos de comportamento. É por isso que todos desejamos estabelecer contato com o mundo de tais pessoas. E é por isso, sem dúvida, que mais de um milhão de pessoas suportou o desconforto de permanecer horas na praia, sob ameaça de chuva, para comungar, ainda que por poucos instantes, dessa magia que circunda o ídolo. Esse momento de comunhão, ainda que fugaz, nos leva a acreditar que podemos, também nós, alçar vôos mais altos.
Maria Heloisa de Mello Crivelli