Nos anos 70, fora Arembepe e Woodstock, Arraial D’Ajuda era o lugar com a maior concentração de maluco beleza por centímetro quadrado, segundo estatística não-oficial. Parecia que todos os bichos grilos do planeta tinham baixado por lá.
Podiam ser vistos fazendo artesanato junto ao muro do cemitério - que fica bem no Centro, ouvindo e fazendo música nas barracas de praia e nos agitos noturnos da Broadway - assim chamada porque ali cintilavam estrelas da TV e do cinema. Eles ainda estão por lá, mas Arraial D’Ajuda, um vilarejo de sonho, com 12 mil habitantes, no Sul da Bahia, mudou.
“Hoje, a malucada vive com conforto”, atesta a professora Glória Maria Ribeiro Souza, 53 anos, que mora em São Paulo e passa férias de três meses no Arraial, em casa própria.
“Passou o tempo em que se abria a porta do ônibus e a ‘cambada’ descia. Naquela época, a gente vivia o dia-a-dia e o amanhã era uma incerteza. Saía de lá com bicho-do-pé, piolho, carrapato...” Quando descia a Estrada do Mucugê para ir à praia, Glória virava sempre à esquerda, nunca à direita, onde ficava a muvuca. Agora, caminha para qualquer lado. “Está bem mais tranqüilo”.
A igrejinha, as casas de fachadas coloridas, a praça com pés de flamboyant, o hábito de juntar um bando de gente para esperar a lua nascer - isso continua igual. Assim como o ar bucólico, o ritmo sossegado. As pousadas são ainda rústicas, mas chiques, e o comércio se sofisticou. Há infra-estrutura, coleta de lixo, saneamento básico, posto de saúde, hospital, aeroporto internacional - com vôos diretos de Holanda, Argentina e Portugal. Em vez do velho ônibus, sempre ameaçando não conseguir subir a “ladeira da santa”, que dá no povoado, modernos veículos 4x4 trafegam nas ruas calçadas.
No meio da ladeira há uma fonte e uma pequena edificação onde se cultua Nossa Senhora D’Ajuda. Dizem que quem se banha naquela água sempre volta para o Arraial.
O engenheiro carioca Paulo Roberto Braz da Cunha, 53 anos, chegou ao Arraial em 1976, quando a vila tinha 2 mil habitantes e se vivia basicamente da pesca. À noite, iluminava os corais com fachos para apanhar lagostas. E comprava a produção dos pescadores, quase de graça, para vender mais caro aos frigoríficos. Só queria moleza. Mas, depois que começou a sair nos barcos com os nativos e a batizar seus filhos (tem 66 afilhados), se envolveu, desistiu do negócio. “Eu queria era ir pescar”.
Na época, as festas duravam três dias. E tinha festa para todo santo. Santa Luzia, São Brás, São Cosme, São Benedito. Sem falar na maior de todas, a de Nossa Senhora D’Ajuda, em agosto, que atraía romeiros de toda parte. Em 1982, abriu um restaurante para a turma da mochila. Deu tão certo que parou de pescar. O cliente do PF Paulo Pescador ainda é aquele que vai ao Arraial com pouco dinheiro, toma o café da manhã, passa o dia na praia e faz só mais uma refeição.
Mas há restaurantes para todos os gostos e bolsos. Se desejar uma comida tailandesa ou francesa, um nhoque de “comer de joelhos” ou uma legítima moqueca baiana, feita com leite de coco e azeite-de-dendê batido no pilão, se tem. De pousadas simples a hotéis de luxo, são 7 mil leitos. Até um parque aquático com 160 mil metros quadrados, considerado o maior da América Latina e o único ecológico, numa reserva natural de mata atlântica. A noite ferve na Broadway e na Estrada do Mucugê, que tem shopping, bares e danceterias, mas só de madrugada.
Quem gosta de agito, aliás, deve ir para o Arraial de dezembro a fevereiro. Se quiser passar réveillon ou Carnaval, é bom já providenciar a reserva.
Geralmente, quem vai ao Arraial passa longe de Porto Seguro - do outro lado do Rio Buranhém, a cinco quilômetros de distância e 15 minutos de balsa. Mas, se der vontade de tomar um capeta (bebida à base de vodca e pó de guaraná) na Passarela do Álcool ou ir a alguma balada regada a axé (no Arraial rola mais MPB, jazz, blues, erudito), basta fazer a travessia. A balsa funciona 24 horas. Dias e noites no Porto costumam ser bem animados, com festas para milhares de pessoas. Bem diferente do Arraial. Ali, como na música de Gil, a paz invade o seu coração.