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‘Syriana’ investiga indústria do petróleo

Por Sérgio Dávila | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo que “Syriana - A Indústria do Petróleo” fosse um filme ruim - é excelente -, o processo pelo qual seu diretor/roteirista passou para chegar à história que você vê na tela daria por si só um filme - dos bons. Stephen Gaghan foi alçado ao primeiro time da cena cinematográfica pelas mãos de Steven Soderbergh, que o chamou para escrever o roteiro de “Traffic” (2000), possivelmente “o” grande filme hollywoodiano sobre o mundo e o submundo das drogas, que põe a nu a hipocrisia da guerra ao tráfico tal como ela é conduzida pelos Estados Unidos hoje. Gaghan se baseou na minissérie britânica “Traffik”, é fato, mas o que lhe dava conhecimento de causa e profundidade tocantes era o fato de ele próprio ser um ex-drogado, conforme revelaria depois, ao receber o Oscar de melhor roteiro adaptado em 2001.

Além da estatueta, a experiência deu munição suficiente para que o cineasta fizesse o que ele mais queria: um filme isento e independente sobre o mundo e o submundo da indústria do petróleo e a irresistível influência de seus interesses na geopolítica mundial. Dito assim pode parecer um tema maçante, mas Gaghan fez o que os bons contadores de história conseguem fazer: pela via do thriller, deixou o assunto palatável sem perder a profundidade, como fez o brasileiro Fernando Meirelles em “O Jardineiro Fiel”.

Assim, inspirado pelo livro “See No Evil”, do ex-agente da CIA Robert Baer, por quatro anos Gaghan saiu a campo. Literalmente. O cineasta foi ouvir os protagonistas do mundo do petróleo, nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio. Para conseguir os encontros - como revelaria depois, em entrevistas na época do lançamento do filme -, tinha Hollywood e seus bastidores a seu favor; ao mesmo tempo, não carregava a pecha de ser da imprensa. “Ao saber que eu era do cinema, e não um jornalista, contrabandistas de armas me recebiam alegres e perguntavam detalhes sobre a vida de Angelina Jolie”, recordou.

Em certo momento, ele conseguiu marcar uma entrevista com Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah, líder espiritual do grupo radical Hezbollah, no Líbano. Para tanto, se deixou ser “seqüestrado” por um carro no centro de Beirute, vendado e levado a ele. A cena, adaptada para o personagem de George Clooney, que interpreta o tal agente da CIA, acabou entrando em “Syriana”, que estréia hoje em Bauru, depois de receber o Oscar de melhor ator coadjuvante para Clooney e ainda uma indicação a roteiro original.

É um dos grandes momentos de um filme cheio de grandes momentos. Sua estrutura é similar à de “Traffic”. Gaghan desenvolve o roteiro em quatro patamares de um mesmo edifício: o aspecto financeiro, dos produtores e importadores; o legal, na figura dos políticos e lobbystas de Washington; o ideológico, com a Casa Branca de um lado e extremistas do outro; e o subterrâneo, onde os três se encontram e se misturam. Todos, é a tese do filme, estão interligados e se retroalimentam.

Uma seqüência-exemplo: representantes de produtores de petróleo do Texas conseguem que o Congresso aprove uma medida protecionista, o que obriga uma refinaria a mandar seus operários embora num país do Oriente Médio; desempregado, um deles é atraído pelo canto doce de terroristas e vira um homem-bomba.

Imperdível para quem quer ouvir o noticiário internacional atual e ligar lé com cré. Imperdível também para quem está atrás apenas de um bom filme, que prenda o interesse por mais de meia hora.

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