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Tânia: em guerra pela ecologia

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 12 min

Debochada. Desbocada. Bem-humorada. Simpática. Alto astral. Séria quando tem de ser. Inúmeros são os adjetivos para as características pessoais e comportamentais que muitos poderiam utilizar para definir a personalidade da jornalista Tânia Guerra. Mas o que poucos sabem de um dos rostos mais conhecidos da mídia bauruense e regional é sua atuação marcante por causas que extrapolam sua atividade profissional.

Uma delas é a de defender com “unhas e dentes” a preservação ambiental e do patrimônio histórico-cultural do município de Piraju, sua cidade de origem, que está recebendo de volta uma das “filhas” mais famosas. Exemplo disso é a luta que desenvolve contra a instalação de uma usina hidrelétrica no local onde nasceu.

Além disso, ela revela, em entrevista ao JC, quais são seus novos planos de vida longe de Bauru e descarta, por enquanto, disputar um cargo político em Piraju, intenção que já chegou a cogitar e desistiu após, segundo Guerra, tomar uma “rasteira” do PSDB em sua terra-natal. A jornalista conta, ainda, detalhes de sua trajetória profissional, de sua vida fora do trabalho e opina sobre a participação da mulher na sociedade.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

JC - Como é a Tânia em casa? O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?

Tânia - Gosto de muitas coisas e tenho uma relação com a vida muito legal. Uma coisa que sempre falo para meu filho é que amigo não é uma coisa que você tem hoje e vai trocando por outro. Amigo é uma coisa que a gente coleciona. Sou uma pessoa de muitos amigos, e amigos mesmo, de naipe. Uma coisa que eu adoro é estar reunida com eles, principalmente se eu estiver no fogão, pois adoro cozinhar e servir, que é uma arte para poucos. Morei em São Paulo muito tempo e tenho amigos com os quais me relaciono até hoje. Saí de Piraju há muito tempo e não perdi minhas amizades lá, pois quando chego na cidade no fim de semana, tenho onde ir e já aviso que estou indo, e quando chego lá já tem coisa armada para fazer. Por isso, fora da profissão sou daquelas pessoas que gosta de ter amigos, relacionar-se e fazer esportes. Em Piraju, gosto muito de nadar, entrar no rio, praticar canoagem e remar.

JC - Ou seja, você não é daquelas pessoas que saiu de uma cidade pequena do Interior, foi para outras maiores e se esqueceu das raízes?

Tânia - Não. Piraju é minha cidade natal, mas Bauru é minha segunda cidade. Aqui tenho amigos em todos os lugares que você possa imaginar. Eu ando na rua e parece que estou em Piraju, pois pareço político cumprimentando as pessoas. É “oi” para todo lado. Mas também sou uma pessoa que tenho uma relação política, não partidária, com o meio em que vivo muito forte. Por exemplo, temos uma luta em Piraju de defesa do rio Paranapanema, que já dura 30 anos, e sempre estive entre os cabeças do movimento. Nossa luta mais recente é que os últimos sete quilômetros de calha natural do Paranapanema ficam dentro de Piraju e já está se querendo construir mais uma usina bem no meio desse trecho. Estamos em uma briga de titãs por causa disso e já conseguimos, em primeira instância, que fosse negada a licença de instalação da usina. É uma briga que eu adoro e mais um lado meu fora da profissão. Por isso, além de assistir TV, relacionar-se bem com meus amigos e cuidar do meu filho, gosto de estar de olho nas coisas e ter uma postura de intervenção no meio. Não concebo a idéia de ficar na rotina e acho que por onde a gente passa temos de transformar as coisas.

JC - Atualmente você está morando em Piraju?

Tânia - Voltei para lá há cerca de duas semanas. Como passei 27 anos fora de Piraju, sempre tive uma coisa dentro de minha alma que ficava me “dizendo” para voltar. Além de meu filho adorar Piraju, faz tempo que um empresário da região está me chamando para coordenar uma rádio e trabalhar na assessoria de comunicação de uma faculdade de Avaré. E agora, com esse assunto da tentativa de instalação de uma nova usina voltando à tona, acho que minha presença lá é mais importante do que aqui.

JC - E como foi sua trajetória até chegar em Bauru?

Tânia - Nasci em Piraju e vivi lá até os 17 anos. Depois, como todo mundo na minha época, terminei o colegial e entrei direto na faculdade, pois o ensino público estadual era muito bom. Fui para São Paulo e fiz Rádio e TV na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Lá trabalhei na Jovem Pan, na Gazeta Mercantil e em uma série de lugares legais. Fiquei por nove anos na Capital e voltei para Piraju para me redirecionar e porque São Paulo me saturou e encheu a paciência. Como sou meio “caipirona”, de estilo rústico e categoria “simprão” (risos), São Paulo era muito grande e achava que lá não estava legal. Em Piraju, não consegui ficar sem fazer nada. Trabalhava no jornal Folha de Piraju, na rádio Paranapanema, era assessora de imprensa do prefeito e, à noite, vendia roupa e ainda tinha tempo de nadar e fazer churrasco. Era uma delícia. Foi graças a Piraju que consegui comprar meu primeiro Fusca.

JC - Mas como você veio parar em Bauru?

Tânia - Bauru é uma história de paixão muito antiga que não garanto nada se daqui a algum tempo não voltarei para cá, pois amo de paixão essa cidade, que me recebeu de braços abertos. O Léo Freitas, que já trabalhou aqui no Grupo Cidade, estava na Rede Globo Oeste Paulista. Na época, a emissora tinha um projeto para a terceira edição do SPTV e o Léo me chamou para fazer um teste. Vim, gostaram de mim e queriam me contratar, mas eu não tinha o diploma de jornalista. Por isso, decidi largar tudo em Piraju e vir para cá fazer faculdade de jornalismo na FEB que, um mês depois, foi encampada pela Unesp. Vim morar em uma república do meu irmão, que estudava direito, com quatro rapazes na Vila Falcão. Quando estava chegando em Bauru - era o dia 1.º de agosto, aniversário da cidade, uma segunda-feira, às 20h -, com meu Fusca mostarda, que eu chamava de “Mostardão”, abarrotado de coisas, liguei o rádio para ver quais emissoras existiam por aqui. Sintonizei a 96FM e entrou uma propaganda que falava assim: “Se você tem uma voz legal, venha à Rádio Cidade fazer um teste de locução”. Ao chegar aqui, a primeira coisa que fiz foi ligar para o Léo perguntando se ele conhecia alguém da 96FM. Ele me respondeu que só conhecia o Renato Zaiden (diretor administrativo e de mar-keting do JC). Pedi que me apresentasse ao Renato e o Léo ligou para ele, que pediu que eu fosse fazer um teste de voz. Fiz e depois fomos conversar com o Renato. Ficamos duas horas conversando no maior papo e, quando terminamos de conversar, entreguei a fita com o teste de voz para ele ouvir e disse-lhe que ligaria depois de uns dias para saber o que ele tinha achado. O Renato falou que não precisava, que podia levar a fita embora e que era para eu começar no outro dia na 96FM.

JC - Então você começou como jornalista em Bauru na 96FM?

Tânia - Foi meu primeiro emprego. Comecei fazendo, das 7h às 9h, o “Viva Cidade” junto com o Beto Pampa. Era uma delícia e foi uma das coisas mais felizes da minha vida. Era muito legal porque concorríamos, eu e o Beto, para ver quem dava mais informações aos ouvintes.

JC - E em que o rádio te ajudou na profissão?

Tânia - Na rapidez de raciocínio, na improvisação e na instantaneidade. Você tem de olhar a informação, organizá-la e falar aquilo rápido e sem erros de português. Isso você aprende muito em rádio.

JC - E como você foi para a TV?

Tânia - Fiquei dois anos na 96FM e depois passei no concurso para a Rádio Unesp. E, após terminar a faculdade de jornalismo, na Unesp, a Globo não precisava mais de apresentadores. Daí, mais uma vez o Léo Freitas, me apresentou para a EPTV que estava inaugurando em São Carlos. Mandei uma fita para lá e o Gérson de Souza foi comigo levar. Estava uma chuva enorme e o limpador de pára-brisa do meu Fusca não funcionava direito. Cheguei lá e fui aprovada na hora. Fiquei dois anos e meio em São Carlos, onde fui muito feliz, me casei e tive meu filho. Quando estava em São Carlos, meu marido estava terminando o curso de fisioterapia na faculdade e, assim que ele concluiu o curso, queria mudar-se para São Paulo. Não queria, mas fui e sofri muito por pouco mais de dois anos, pois meu filho era muito pequeno ainda. Daí o Léo Freitas saiu para fazer a campanha do Antonio Izzo Filho e o Sérgio Tibiriçá do Amaral me chamou para a Globo aqui em Bauru para ser apresentadora, onde permaneci por oito anos.

JC - É verdade que você pensa em concorrer a algum cargo político em Piraju?

Tânia - Na eleição de 2004, saí da TV Tem porque pretendia me candidatar à Prefeitura de Piraju. Temos um grupo grande e bem articulado por lá que é esse que trabalha em defesa do meio ambiente. Na época dizia que, além de termos essa articulação, estava na hora de termos representantes no Legislativo que abraçassem a causa e quem sabe até um prefeito que tivesse essa visão voltada para o lado do desenvolvimento turístico. Até agora não tivemos um prefeito em Piraju que abraçasse essa causa e abraçar essa causa significa dizer não à usina que está querendo instalar-se lá. O pessoal que quer construí-la chega lá tentando as pessoas, oferecendo facilidades até financeiras e os olhos das pessoas chegam a brilhar. É um absurdo isso! Precisamos parar de pensar pequeno e em projetos pessoais para pensar em construir coisas que talvez não estaremos vivos para ver. Mas isso não tem problema, pois nossos filhos e netos farão isso. Assim, quando saí da TV em 2004, essa era minha idéia. Mas tomei um “rasteirão” do PSDB de lá e recuei. Avaliei que poderia continuar articulando politicamente a cidade e tocando os projetos do grupo para frente sem, necessariamente, participar da política partidária. Por essa razão, se você me perguntasse hoje se pretendo ser vereadora ou prefeita, digo que não. Me desfiliei do partido em Piraju e não tenho mais nenhuma ligação política.

JC - Você se decepcionou com a política?

Tânia - De forma alguma. Continuo achando que temos de fazer uma limpeza nos níveis municipais, estaduais e federal. Temos de continuar de olho porque há muito mau-caráter e pessoas mal intencionadas e cheias de projetos pessoais nesse meio. Não tem essa de que estou desencantada, pois para mim isso é papo de gente fraca. Nunca me desencanto das coisas, nunca desisto da vida e nunca vou desistir da política, do ser humano político, pois você tem de ser político até quando está tomando banho. Não desisto de vigiar os políticos, de ficar do lado de cá contestando e querendo saber tudo o que estão fazendo. Em Piraju, a primeira coisa que fiz na Quarta-feira de Cinzas foi ir na reunião da Câmara. Cheguei lá e me espantei, pois não tinha ninguém da imprensa. Quer dizer que aprova o que se quer? A imprensa tem de estar lá e é esse papel que quero fazer. Esse tipo de articulação política é algo que não vou desistir nunca e, se isso vai me levar algum dia para algum cargo eletivo, não sei porque só o futuro vai dizer. Mas minha intenção é sempre ajudar a melhorar o momento histórico e o espaço em que vivo para mim, meus amigos, meu filho e à comunidade. Não tenho projeto pessoal nenhum.

JC - O fato de você ser uma pessoa muito conhecida já te fez passar por situações curiosas na rua?

Tânia - Muitas vezes. O vídeo “engorda” a gente uns cinco quilos e também tem a maquiagem, o cabelo bem arrumadinho e, normalmente, usamos blazer com estrutura no ombro. Isso tudo faz você dar uma “crescida” artificial. Uma vez estava em um supermercado e chegou um senhor do meu lado. Percebi que tinha uma pessoa me olhando e uma hora não resisti e olhei para ele. Ele me perguntou se eu era a Tânia Guerra. Respondi que sim e ele emendou: “Nossa, mas você é só isso?”. Acho que ele me achou mais magra sem maquiagem. (risos)

JC - E qual foi sua reação?

Tânia - Me deu um acesso enorme de riso e fui lá dar um abraço nele. Mas também teve outra passagem de uma senhora em uma quitanda. Ela me viu e gritava meu nome e chorava. Ela ficou uns cinco minutos abraçada chorando. Fiquei com medo dela ter um treco ali e passar mal na hora.

JC - E você encara esse assédio popular com naturalidade?

Tânia - Claro. Nunca desprezei ou tive qualquer tipo de soberba com quem me reconhece na rua.

JC - Você acha que as mulheres estão cada vez mais independentes dos homens ou ainda há muito o que melhorar nesse sentido?

Tânia - A mulher “explodiu” como pipoca e isso é irreversível. Ouso até dizer que, se tiver de ocorrer uma reengenharia filosófica ou um repensar dos seus atos, têm de ser os homens. As mulheres não têm de repensar mais nada e sim continuar no caminho que abriram há décadas. Elas avançaram tanto que largaram um pouco os homens para trás. Não que tenham esquecido os homens, mas houve um distanciamento. Isso não ocorre com a maioria, pois ainda vemos muitas mulheres submissas, sofrendo violência e ganhando salários menores que os homens. Há muito ainda o que conquistar pelas mulheres e acho que aquelas mais arrojadas têm de ajudar as que são mais retraídas. Mas acho que os avanços das mulheres são irreversíveis.

JC - Em que você acha que os homens precisam mudar a postura ou rever conceitos?

Tânia - Considero o machismo hoje algo mais cultural e presente no subconsciente coletivo do que algo pensado. Existem alguns cacoetes e atos falhos, como o fato de alguém mandar uma filha mais nova fazer comida para os machos, que ainda estão arraigados no subconsciente coletivo não só dos homens, mas das mulheres também. Eu adoro fazer comida para mim, meu filho e meus irmãos, mas quando eu quero fazer isso por vontade própria, e não por obrigação. Há infinitos atos falhos como esses, até os homens que continuam achando que as mulheres nasceram para esquentar a barriga no fogão.

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