Mais que seis cordas, a viola carrega entre seus acordes causos, mitos e folclore da cultura popular brasileira. Histórias às vezes atropeladas pela modernidade, mas que o Serviço Social do Comércio (Sesc) revive nesta semana por meio de bate-papo, oficinas, show e teatro com o consagrado cantor, violeiro e escritor Paulo Freire.
As atividades começam hoje em tom de prosa. Às 14h30, Freire convida o pessoal da terceira idade para um encontro descontraído, conduzido pela viola e incrementado com causos, onde o artista falará sobre o seu trabalho de pesquisa e divulgação da cultura popular brasileira.
Feita essa pequena introdução, a programação prossegue com a oficina “A Memória de Nossos Causos”, também destinada a maiores de 60 anos. O curso, ministrado amanhã, quinta e sexta-feira, sempre às 14h, resgata lendas que permearam a infância de muita gente encarnadas no saci, na mula sem cabeça e no lobisomem. “As pessoas vão se encontrar e relembrar histórias que são a base do nosso povo, da nossa cultura. É uma resposta aos mitos importados pela mídia e martelados em nossa cabeça”, diz o violeiro, que é integrante da Associação Nacional dos Criadores de Saci e da Associação dos Criadores de Lobisomem.
A conversa ganha um fôlego no sábado, às 11h, quando Freire faz uma coletânea de todo seu trabalho, que inclui um repertório variado fruto dos sete CDs lançados ao longo de sua carreira. “Será um show com músicas e histórias de violeiros”, adianta o artista. Para este ano, Freire ainda almeja lançar um livro infantil e um CD com músicas instrumentais.
A semana é encerrada no domingo, às 11h, com o espetáculo infantil “Curupira, Saci e Cobra-Que-Mama”. A criançada vai se divertir com músicas de viola e uma contação de histórias, que passa pelas lendas do folclore brasileiro, como a do curupira protegendo a mata e as aventuras do saci. “Com o nascimento dos meus filhos, voltei a minha infância, quando cantávamos cantigas de roda e contávamos causos e fiquei com vontade de produzir para crianças”.
Amor nos palcos
Amanhã, Freire assume a viola no show cuja estrela principal é sua mulher, a cantora Ana Salvagni. A apresentação está marcada para 21h na área de convivência do Sesc com músicas do CD “Avarandado”, produzido em parceria com Freire. “Nós temos uma afinidade musical muito grande. É uma delícia poder compartilhar o palco com ela”, derrete-se.
No show, voz e viola se completam em choros, valsas e sambas pouco explorados, frutos de uma intensa pesquisa sobre a música popular brasileira. O CD passeia pelas décadas de 30 a 70 com canções como “Favela”, de Hékel Tavares e Joracy Camargo; “Você Tem Açúcar”, de Roberto Martins e Oswaldo Santiago; “Fiz a Cama na Varanda”, de Dilu Melo e Ovídio Nunes; “Você Vai Gostar”, de Elpídio dos Santos; “Das Rosas”, de Dorival Caymmi e “Avarandado” de Caetano Veloso, que deu título ao álbum.
A parceria musical começou em 1998, quando Freire produziu o CD “Ana Salvagni”. Após seis anos longe do estúdio, a cantora voltou no ano passado para gravar “Avarandado”, cujos arranjo e a direção musical são assinados em conjunto pelo casal.
Sertão Veredas
A viola foi apresentada a Paulo Freire por um ilustre intermediário: João Guimarães Rosa. Ao ler “Grande Sertão: Veredas”, o até então estudante de jornalismo abandonou os livros, em 1977, e se emprenhou no sertão de Urucuia (MG), onde é passada toda a trama. “Saí em busca da trilha do grande sertão. Lá conheci contadores de histórias belíssimos, aprendi a tocar viola com verdadeiros violeiros e nunca mais parei de estudar”, relembra.
A experiência o levou a publicar cinco livros, entre romances, ensaios, causos e biografias de compositores, além de gravar trilhas sonoras para seriados, filmes e programas de TV, como “Globo Rural”, da Rede Globo, e os longas “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues e “Grande Sertão Veredas”. Seu trabalho o consagrou nacional e internacionalmente e lhe rendeu os prêmios Sharp, APCA, Wladimir Herzog, Silver Parentes Choice, Carlos Gomes e Movimento.
E para quem pensa que, com a modernidade, a cultura caipira se extingue, Freire discorda. “À medida que a tecnologia avança, mais a música de viola e tudo que a cerca crescem. As pessoas sentem cada vez mais a necessidade de buscar suas raízes”. Mas, o universo caipira também não ficou imune à avalanche virtual. “Muitos violeiros, assim como eu, estão buscando na Internet maneiras de divulgar sua música e seus trabalhos. A cultura caipira passa por um processo de evolução, meu único receio é de que os princípios básicos que nos norteiam se percam”.
• Serviço
Especial Paulo Freire no Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Mais informações: (14) 3235-1751.