Rural

Só fim do embargo pode frear crise pecuária, diz Lima Verde

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

A pecuária brasileira está passando pela mais forte crise da última década. Alguns estudos econômicos chegam a apontar, até mesmo, que o problema seria o pior dos últimos 50 anos. Para o pecuarista, cafeicultor, presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, só há possibilidade de melhora a partir da suspensão total dos embargos ainda mantidos pela Rússia, União Européia (UE) e países da Ásia à carne bovina brasileira.

“A curto e médio prazos, vejo um quadro negro na atividade pecuária no País. Até o surgimento dos focos de febre aftosa, em outubro do ano passado, as coisas caminhavam de forma estável. Depois disso, várias coisas ruins aconteceram. Atualmente (com os embargos ainda mantidos), o Brasil não vende carne bovina para cerca de 53 países. Com isso, aumentou a oferta interna, o que deveria ter resultado na queda dos preços (da carne). Mas isso não aconteceu porque a cadeia da carne é viciada, sofre muitas interferências (até chegar ao consumidor)”, relata Lima Verde.

Sem obedecer o que seria a “ordem natural” da lei da oferta e da procura, sem a queda dos preços o consumo interno da carne bovina não aumentou, e o produto ainda está enfrentando a “concorrência” da carne de frango. Em função da gripe aviária, o excesso do produto no mercado derrubou os preços em até 70%.

“Na parte externa, continuamos com os bloqueios. Na parte interna, todos esses problemas gerados pela aftosa derrubaram o preço da arroba do boi de R$ 60,00 para R$ 50,00. Para os pecuaristas a situação está horrível, porque além do preço baixo, os frigoríficos estão comprando menos bois para abater”, diz Lima Verde.

De acordo com o vice-presidente da Faesp, outro fator importante que intensifica o cenário de crise é que, desde 2001, vem crescendo o número de abates de fêmeas. Atualmente, segundo ele, cerca de 45% dos abates são de vacas, e não de bois. A arroba da vaca gira em torno de R$ 42,00.

“Isso reduz a oferta dos subprodutos do boi gordo, que são os bezerros, garrotes e novilhas. No momento, há uma grande dificuldade de comercializar esses subprodutos, ao mesmo tempo em que todos os insumos utilizados para a manutenção da pecuária subiram de preço. Além disso, as terras para pastagem não estão acompanhando a valorização de outras atividades, como a cana-de-açúcar e a citricultura”, aponta.

Dados da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) mostram que, no ano passado, ficou 6,41% mais caro produzir carne bovina em função da alta dos custos totais da atividade. Segundo avaliação de técnicos da CNA, em curto prazo o impacto sobre a produção nacional de carne bovina só não será maior pela falta de opções de investimento para os empresários agrícolas que querem diversificar suas atividades. As principais culturas anuais, como soja, milho e algodão, também vivem um momento desfavorável.

No Estado de São Paulo, os custos da pecuária acumularam aumento de 10,98% no ano 2004, mas a margem da atividade foi compensada parcialmente pela valorização de 2,02% da arroba do boi gordo. Já no ano passado, os custos acumularam 3,18% de alta e 13,58% de recuo da arroba do boi no Estado, sendo que somente em dezembro o valor da arroba recuou 7,8% na comparação com o mês de novembro.

Ainda segundo dados da CNA, sem acrescentar a inflação sobre a arroba do boi, verifica-se que a margem da atividade pecuária caiu aproximadamente 32% em 31 meses.

“Com o preço da arroba tão baixo, os pecuaristas não têm condições de fazer investimentos no seu negócio, e também não há investimentos por parte do governo. A pastagem é uma atividade agrícola, precisa ser cultivada, adubada, e isso custa muito dinheiro. Hoje, a pecuária é um mal negócio”, acrescenta Lima Verde.

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Otimismo

O pecuarista Ernesto Guimarães Neto concorda com a avaliação de que o cenário nacional no setor só terá chances de começar a melhorar após o fim de todos os embargos à carne bovina, principalmente por parte da Rússia, que é um dos principais compradores do Brasil. Mesmo assim, tem uma visão de futuro positiva em relação à atividade.

“O momento realmente é ruim, mas o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, o que significa que os outros países não têm muitas alternativas para buscar esse produto. Eu acredito que quem persistir e se mantiver na pecuária, vai ter um bom retorno quando essa crise acabar”, analisa.

Na opinião dele, a decisão de muitos empresários do ramo que substituíram a atividade pecuária por outras nos últimos anos é um fator positivo para quem permaneceu no mercado.

“Isso deixou o setor mais seletivo, ou seja, com mais qualidade para oferecer. Eu acredito na pecuária e acho que podemos vencer inclusive a concorrência do frango, porque se o problema da gripe aviária se agravar, as pessoas terão medo de ficar doentes por consumir a carne”, diz o pecuarista.

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