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Dr. Automóvel: O uso correto dos engates

Consultor: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 3 min

Está em estudos pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) a proibição do uso de engates fixos de reboque em veículos. O principal objetivo é regulamentar o uso do acessório para que ele possa ser empregado com a finalidade de reboque. Antes de pensarmos que é mais uma intromissão de um órgão público em nossa privacidade, temos que avaliar se desta vez estão ou não com a razão. Em minha opinião, estão certíssimos.

Engate de reboque foi feito para rebocar carreta e não para proteger pára-choque contra “batidinhas”. Pára-choque foi feito para levar “batidinhas” e amortecer o impacto da colisão, dissipando energia e protegendo os ocupantes do veículo. É melhor detonar um pedaço do carro do que machucar seus ocupantes, não? Mas muitos espertos acham que não. Custa caro repor e, hoje em dia, quase todos os carros têm capas plásticas de acabamento externo, simulando pára-choques, os quais na verdade estão internos como estruturas metálicas de absorção de impacto.

O uso indiscriminado de engates fixos - hoje se comprova que mais de 80% dos instalados nunca puxaram nenhum tipo de carga - vem causando diversos problemas. A começar no próprio veículo. Sua instalação demanda pontos rígidos de fixação nas longarinas (reforços onde são presos os agregados de suspensão e câmbio) ou no chassi do veículo, quando existente. Eu mesmo vi diversos colocados de qualquer maneira, apoiados em apenas dois pontos - quando se necessita de pelo menos três para dar rigidez a uma fixação qualquer, pelo princípio da estabilidade dos triângulos.

Ou também como vi em um Omega, com dois pontos laterais de fixação bem ancorados na longarina, mas o terceiro fixo por parafuso em um furo feito no assoalho do porta-malas, sob o estepe. No primeiro toque mais forte que levou, o engate entrou para dentro, amassou todo o pára-choque, rasgou o assoalho do porta-malas e danificou o estepe. Conclusão: o esperto teve um prejuízo muito maior do que se não tivesse instalado o engate.

Outro problema comum acontece com o carro dos outros. Qualquer manobra de baliza ou estacionamento mal feita, em que é dada uma “encostadinha” de leve - perfeitamente absorvida pelo pára-choque original -, o engate deixa um estrago caprichado.

E o mais importante: diversas pessoas se machucam diariamente ao passar por trás de veículos estacionados e ralar suas canelas no bendito engate. Os idosos, principalmente, sofrem mais com isso por serem mais sensíveis a batidas. Sem contar que, por lei, nada pode encobrir as placas dos veículos, o que pode ocasionar uma multa, com sete pontos a mais no prontuário e R$ 191,54 a menos no bolso.

Existem pessoas que precisam, eventualmente, rebocar uma carga, seja ela qual for e que necessitam de um engate. Para estes, existe um modelo de engate removível ou retrátil, de forma que não fique saliente quando não em uso. Isto sim, acho interessante e inteligente. Não prejudica ninguém e atende à finalidade específica a que foi projetado.

O mesmo se aplica aos quebra-matos instalados na frente. Certos jipes precisam (?) de um quebra-mato para proteger faróis e grade em situações extremas, mas pensar que veículos urbanos apenas com “look off-road”, sem tração nas quatro e totalmente adaptados para ir ao shopping, venham a precisar dele é viajar na maionese.

A indústria automobilística investe milhões nos veículos em segurança passiva, desenvolvendo plásticos especiais de engenharia em pára-choques para eliminar toda saliência metálica. Não vamos retroceder em segurança apenas por moda. Deixemos o quebra-mato para quem realmente precisa dele e o usa com critério.

Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

*Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em Administração Industrial e Marketing e Engenharia Aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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