Os votos dos membros do Conselho de Política Monetária não deveriam permanecer secretos. Eles devem ser registrados individualmente e depois de algum tempo tornados públicos, para conhecimento da sociedade brasileira das razões de cada um dos conselheiros. Uma iniciativa desta natureza pode ser ordenada pelo Congresso Nacional, onde a questão desperta interesse principalmente após a reunião do Copom de 7 e 8 de março em Brasília, quando três dos nove conselheiros votaram pela redução de 1 ponto percentual da taxa Selic e foram voto vencido. Os outros seis conselheiros aprovaram a redução de apenas 0.75% e a Selic ficou em 16.5% ao ano, mantendo a folgada liderança do Brasil no torneio mundial de juros altos. Com o passar do tempo, seria interessante conhecer os argumentos que produziram o resultado atual e os anteriores.
O fato é que a política monetária que nos foi imposta em 2005 produziu resultados devastadores no crescimento da economia brasileira. No terceiro trimestre de 2004 estávamos crescendo à taxa anualizada de 5%, o setor externo estava calmo e não existiam no horizonte indicações de retomada da inflação. Em setembro de 2004 o Banco Central “descobriu” sérias tensões inflacionárias (até hoje não reveladas, apesar do benefício do tempo) e iniciou uma escalada de aumentos da taxa básica de juros que esfriou o nível da atividade e reduziu o crescimento da economia que era de 5% em setembro de 2004 para 2,3% ao final de 2005. A tabela abaixo mostra a queda das taxas de crescimento do PIB acumulado no ano, trimestre a trimestre (referidos ao período do ano anterior):
3.º Trimestre de 2004: 5,0%
4.º Trimestre de 2004: 4,9%
1.º Trimestre de 2005: 2,8%
2.º Trimestre de 2005: 3,4%
3.º Trimestre de 2005: 2,6%
4.º Trimestre de 2005: 2,3%
O balanço final dessa política monetária foi duplamente trágico: 1) Desperdiçou 2,7% de crescimento do PIB, obtendo, “como troco”, menos de 1% de redução da taxa de inflação; e 2) Sustentou uma supervalorização do Real permitida pela arbitragem das taxas de juros interna e externa que transformou nossa moeda na mercadoria mais cobiçada dos especuladores internacionais. Ao longo de 2005 o Banco Central manteve ferozmente a política monetária, não obstante se tornarem evidentes os sinais da tragédia anunciada. A sociedade está pagando o preço desse baixo crescimento da produção e do pífio crescimento dos níveis de emprego e da renda do trabalhador. Ela merece saber as razões de cada um dos conselheiros: os membros do Copom devem não apenas votar mas também justificar os seus votos, em termos da teoria ou das suas crenças, de seus desejos ou de sua forma de ver o mundo. Seria fundamental poder conhecer o raciocínio que o conselheiro utilizou no momento em que proferiu o seu voto, mesmo que tenhamos que esperar dez ou doze meses, como acontece em outros países. Mas isso é de extrema importância, em nome da transparência.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br