Deu picolé de chuchu. O governador Geraldo Alckmin mostrou que nada tem de amorfo e insípido. Chuchu bem temperadinho é leve e saboroso. Alckmin sabia que se peitasse José Serra a decisão da sua candidatura à Presidência da República ficaria por conta do Diretório Nacional do PSDB. Apostava que nessa instância teria a grande maioria dos votos. Já conversara com todos os delegados do partido. De nada adiantou ser preterido pela cúpula. Ficará para a história a imagem do jantar no restaurante Massimo, em São Paulo, onde se reuniram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de Minas Aécio Neves e o senador Tasso Jereissati com o prefeito José Serra. Enquanto tomavam vinho, o chuchu dormia o sono dos justos. Próprio de quem sabe o que faz e é capaz de dar lições em matéria de estratégia política.
O governador mostrou que a sua persistência nada tinha de impertinência. Havia razões lógicas para ganhar, no partido, a condição de disputar a Presidência da República contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, uma nova história começa a ser escrita Enquanto Alckmin e Serra disputavam essa queda-de-braço, o presidente petista disparou nas pesquisas e já aparece como franco favorito, capaz até de liquidar os adversários no primeiro turno. É evidente que muita água ainda vai rolar. Lula ironiza seu adversário e teria dito que preferia o Serra porque o Geraldo, “este é candidato a Santo”.
O passado recente do governador paulista que acaba de atropelar o prefeito da Capital mostra que, como político, nada fica a dever em ousadia e pertinácia. Há pouco tempo Alckmin era um nome menor no PSDB. Dava-lhe dimensão o cargo que recebera de Mário Covas, de quem era vice e, depois, mostrou capacidade ao eleger-se e assim adquirir “legitimidade” no cargo. Ao contrário dele, Serra é um dos quadros mais influentes do PSDB, não apenas por ser prefeito de São Paulo mas, por ter uma trajetória de reconhecidos méritos, desde os tempos de estudante. Serra, no entanto, cometeu um vacilo e um deslize. Caiu na provocação da Folha de S. Paulo. Num debate durante a campanha para a prefeitura, o jornal o desafiou a registrar em cartório uma declaração em que se dizia disposto a ficar no cargo até o fim do mandato se vencesse Marta Suplicy. Venceu, mas ficou engessado pelo documento registrado em cartório. Esperava que a mobilização do partido em torno do seu nome fosse de tal magnitude que pudesse romper o compromisso de continuar na prefeitura.
Não houve a tal mobilização e, ao contrário, foi Alckmin quem a buscou para legitimar a sua ousadia de sair candidato sem as bênçãos do alto tucanato, ao qual jamais pertenceu. Aqui na terra os pessedebistas ficaram ouriçados com essa primeira vitória e conhecidos nomes se propõem a sair como candidatos a deputado estadual, enquanto Pedro Tobias, ungido pelo candidato à Presidência da República, está convidado a acompanhá-lo nas andanças como candidato a deputado federal.
Na minha modesta opinião, acho um pouco tarde para mover as peças desse tabuleiro. Tobias tem assegurado sua reeleição à Assembléia Legislativa. O sucesso de uma aventura à Câmara Federal depende, em muito, do entusiasmo que Alckmin consiga despertar como adversário de Lula, a ponto de dar-lhe o favoritismo. A esta altura é tudo uma incógnita. A prudência indica que o Pedro deve guardar posição.
O candidato Geraldo Alckmin ainda vai ter muito trabalho pela frente. Terá que atrair o PFL, entender-se com o PMDB num provável segundo turno e ainda aguardar a palavra final do STF sobre a verticalização. Os pefelistas Agripino Maia e ACM torceram mais abertamente por ele, o que é um bom indício. Chuchu com rapadura ou com carne-de-sol? A brincadeira é dos pefelistas, referência aos senadores José Jorge (PE) e José Agripino (RN), cotados para serem vice de Alckmin.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC