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Mito da felicidade

Da Redação
| Tempo de leitura: 9 min

“Se a pessoa não aceita a dor e a tristeza em alguns momentos reprime sua capacidade de sentir alegria e prazer. Aí, ocorre o vazio, que é a patologia do momento.” Esta é a avaliação da psicóloga clínica e psicanalista Elza Magnoler Guedes de Azevedo, 60 anos, sobre o comportamento humano. Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ela explica que, para amadurecer e ter melhor qualidade de vida, é preciso enfrentar as frustrações, viver emoções - sejam elas tristes ou alegres - ser capaz de se relacionar e estabelecer vínculos.

Alcançar esse equilíbrio nem sempre é fácil, reconhece a psicanalista. “Existe uma cultura utilitária e narcizista, que defende a necessidade de ser belo, jovem saudável e feliz. E nós não somos isso o tempo todo.”

Nesse contexto, a psicanálise funciona como importante ferramenta para ajudar o indivíduo a lidar com seus conflitos e se relacionar de forma madura. Por meio do vínculo paciente/analista, explica Elza, são trabalhadas técnicas de investigação do inconsciente, extraindo dele o significado das atitudes e emoções.

“A psicanálise busca uma conquista do pensamento”, observa Elza, considerada nome de destaque entre os profissionais da área. Nascida em Catanduva, mas radicada em Bauru há três décadas, ela é formada em psicologia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e especializada em psicanálise pela Sociedade Brasileira de Psicanálise - filiada a uma instituição internacional fundada por Freud.

Possui experiência em psicologia clínica, escolar, industrial e acadêmica. Foi docente na Universidade do Sagrado Coração (USC) e Universidade Estadual Paulista (Unesp). Atualmente, atende crianças, adolescentes e adultos e docente em seu consultório, ministra aulas no curso de especialização em psicoterapia psicanalítica em Marília e coordena grupos de psicanálise. O perfil de Elza e uma análise sobre a psicanálise contemporânea estão entre os principais enfoques da entrevista. Confira os melhores trechos.

Jornal da Cidade - O que é psicanálise?

Elza Magnoler Guedes de Azevedo - Podemos entender a psicanálise num vértice tríplice: como uma teoria do aparelho psíquico da personalidade, um método de investigação dos processos mentais inconscientes e uma técnica de tratamento dos distúrbios afetivos. A psicanálise tem como base a investigação dos mecanismos inconscientes. Freud comparou esse trabalho com o de um arqueólogo. É um trabalho de escavação, onde se extrai do inconsciente o significado das atitudes e emoções, compreendendo melhor a personalidade a partir do conhecimento, do funcionamento e dos aspectos inconscientes da mente. Freud acreditava que a maioria dos nossos comportamentos é fruto de aspectos inconscientes. A psicoterapia é uma técnica de atendimento e o foco é mais no alívio dos sintomas. Já a psicoterapia psicanalítica tem a finalidade de adaptação e resolução dos problemas, usando recursos da psicanálise, ou seja, buscando o simbolismo inconsciente dos sintomas e atitudes.

JC - Qual é a diferença entre psicanalista, psicólogo e psiquiatra?

Elza - A psicanálise é uma formação específica feita após o curso de psicologia ou de medicina. Sua linha de abordagem trabalha com os aspectos de abordagem inconsciente, do simbolismo e dos sintomas. O psicólogo atua em psicologia escolar, clínica, industrial, hospitalar ou comunidade e desenvolve trabalhos de psicoterapia, que pode ser cognitiva, assistencial e outras várias. O psiquiatra é formado em medicina e pode trabalhar com psicoterapia e se especializar em psicanálise. A diferença é que somente ele pode medicar o paciente.

JC - Qual é o campo de atuação da psicanálise contemporânea?

Elza - A psicanálise trabalha em conjunto com a educação, psicologia, neurociência, aspecto social e comunidade. A psicanálise contemporânea se caracteriza pela preocupação em trabalhar e se expandir a outros ramos da condição humana porque dessa forma os conceitos psicanalíticos podem ser aplicados na educação, comunidade, indústrias e hospitais, enfim, um campo mais aberto de atuação desses profissionais e uma abertura do conhecimento da mente. Essa é uma de nossas preocupações em Bauru. Por isso, nós estamos propondo para o último final de semana de maio uma jornada de psicanálise com o psiquiatra David Zimerman, que vai falar sobre como a psicanálise pode contribuir para melhorar a qualidade de vida no mundo.

JC- E como a abordagem psicanalítica pode ser aplicada na prática?

Elza - A psicanálise é uma técnica de tratamento de conflitos, distúrbios afetivos. Geralmente, a pessoa que procura a psicanálise é uma pessoa que está sofrendo. O que caracteriza essa busca é a dor mental, o sofrimento e os sintomas.

JC - Quais, por exemplo?

Elza - Há vários sintomas que levam a pessoa a procurar um psicanalista. Ela pode estar com depressão, fobias, dificuldade de alimentação, sono, relacionamento familiar, profissionais, conjugais ou afetivas, problemas de ciúme excessivo, traição, enfim, há muitos motivos. São situações de sofrimento mental e emocional. E, às vezes, há o sofrimento físico, como problemas psicossomáticos, dores muito intensas, dificuldades e somatização com característica emocional intensa.

JC-Algumas pesquisas apontam que a depressão e transtornos de ansiedade estão em destaque na lista de doenças do País. Qual sua opinião sobre isso?

Elza - De maneira geral, percebemos que a depressão, a qual se caracteriza como uma alteração de funcionamento afetivo e do humor, um humor mais depressivo, é uma baixa de energia. Na maioria dos problemas emocionais existe um fundo depressivo que pode ser leve, moderado ou profundo, podendo até levar ao suicídio. A depressão em si não é um problema. Sentimentos depressivos todos nós temos porque somos humanos. Não existe uma condição humana sem tristeza. As pessoas se deprimem ao assistir grandes tragédias ou assistir coisas socialmente negativas. Nossa cultura, atualmente, é muito superficial em alguns aspectos, como o de que é preciso estar sempre feliz. Esse mito da felicidade é algo que leva as pessoas a ficarem constantemente em ansiedade, insatisfeitas e, muitas vezes, deprimidas.

JC- Por que a senhora considera a felicidade como um mito?

Elza - Porque não se consegue ficar só feliz. A pessoa precisa também experimentar os sentimentos tristes. É necessário poder vivenciar momentos de pesar, tristeza, luto, porque isso faz parte da condição humana. Se o indivíduo não aceita estar triste ou infeliz em alguns momentos, ele reprime sua capacidade de prazer. Se ele não pode sentir dor, não pode sentir prazer, porque uma coisa está relacionada a outra. Muitas vezes, as pessoas reprimem ou ficam impossibilitadas de sentir sofrimento e dor e também ficam impossibilitadas de sentir alegria e prazer. Aí, ocorre o vazio, que é a patologia do momento.

JC - Quais são as principais conseqüências da “patologia do vazio”?

Elza - Relacionamentos superficiais, ausência de objetivos e valores, o que dificulta estabelecer discriminação entre certo e errado, entre aquilo que é saudável ou não. Fica uma idéia de que não se pode ter frustração. Há uma busca desenfreada de gratificações e isso faz com que a tolerância à frustração fique muito pequena, deixando a pessoa absolutamente impulsiva e incapaz de lidar com a realidade. Uma das condições para que o ser humano possa crescer mentalmente e lidar com a realidade tanto de sua mente quanto de sua vida externa é saber enfrentar as frustrações. E ter a capacidade madura de se relacionar, viver emoções - sejam elas tristes ou alegres - e estabelecer vínculos duradouros.

JC- Esse é o “segredo” do equilíbrio?

Elza - Uma personalidade equilibrada e madura não é aquela sem conflitos, sintomas ou problemas. Mas é uma personalidade que busca e desenvolveu uma condição mental que possibilite usar esses conflitos para crescer e aprender com as experiências.

JC - É por isso que muitas pessoas dizem que só se aprende com o sofrimento?

Elza - Isso. Mas se aprende também com as gratificações e prazeres. Para ser uma pessoa mentalmente saudável é preciso ter capacidade maior de compreensão de suas emoções, tolerância e uma certa capacidade de lidar com as frustrações. Uma pessoa imatura não agüenta as frustrações. Se ela não for satisfeita do jeito e na hora que ela quer, reage de maneira muito impulsiva e descontrolada.

JC - A sociedade e a própria mídia ajudam a reforçar o “mito da felicidade”?

Elza - Sim. É uma cultura utilitária e narcizista, que defende a necessidade de ser belo, jovem, saudável, feliz e nós não somos isso o tempo todo. É uma sociedade que busca eliminar e erradicar a dor e o sofrimento, mas eles são patrimônios da humanidade e parte da condição humana. Isso não significa que as pessoas precisam viver tristes ou sofrendo, mas têm que usar isso para crescer. O ser humano precisa lidar com as questões internas e externas porque dessa forma melhora sua qualidade de vida.

JC - Como a psicanálise pode ajudar o ser humano a desenvolver sua maturidade?

Elza - A psicanálise é uma maneira de superação e libertação de um modo infantil de funcionamento mental, como, por exemplo, de amar e se relacionar na vida. O amor infantil é exclusivista, possessivo, onipotente e que não aceita a independência do outro. Esse tipo de amor narcizista é normal na criança porque ela está em desenvolvimento, mas não deve dominar a personalidade adulta. O trabalho psicanalítico ajuda a pessoa a se desenvolver mentalmente, trabalhando com seus conflitos de forma madura e estimulando-a a refletir, controlar os impulsos e estabelecer vínculos duradouros. A psicanálise é um trabalho de vinculação. E através desse vínculo paciente/analista que se desenvolve a capacidade de se relacionar e lidar com as emoções de maneira mais reflexiva e amorosa e dessa forma ampliar a capacidade de suportar as dores e usufruir os prazeres que a vida oferece.

JC - O amor narcizista norteia muitos relacionamentos amorosos...

Elza - Sim. E quando isso ocorre, a pessoa fica possessiva, excessivamente ciumenta, invejosa das conquistas do outro e imatura. O ideal é que, ao invés de se comportar de maneira muito impulsiva, ela se comporte de forma mais reflexiva e espontânea.

JC - O Brasil foi considerado campeão em número de integrantes no site de relacionamentos Orkut. Como a tecnologia influencia nos relacionamentos?

Elza - Os instrumentos da tecnologia, como qualquer coisa, podem ser usados tanto para que a pessoa se oriente em uma direção de construção e criatividade, quanto também pode se dirigir para coisas negativas. Não dá para se negar esses recursos. Há uma condição de facilitar a comunicação, ampliar os vínculos, mas o que pode ou não ocasionar problemas é o uso que se faz da tecnologia. É possível usar esse recurso de maneira saudável ou não, para a mentira ou para a verdade. A psicanálise é uma busca da verdade, da verdade sobre si próprio e sobre o mundo. À medida que a pessoa se torna madura, não vai se aproveitar do outro e vai buscar a verdade, o que fortalece a capacidade de se vincular.

JC - Nesse contexto, a comunicação virtual pode ser considerada uma forma de receio de aprofundar relacionamentos?

Elza - A comunicação por intermédio da tela protege a pessoa de um contato direto. Ela fica mais à vontade e pode ficar espontânea ou mentirosa. Essa comunicação facilita a diminuição da angústia do contato porque o contato pessoal e direto é muito angustiante. Toda vez que as pessoas se reúnem ou estão em alguma situação próxima, gera um campo de ansiedade e tensão. Isso é humano e natural. Por outro lado, se a pessoa agüenta e suporta essa situação, vai desenvolvendo a troca intimidade e fortalece um vínculo duradouro.

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