Articulistas

O uso do cachimbo


| Tempo de leitura: 3 min

Os ingleses são estilosos no uso do cachimbo. São posudos, o que não impede que acabem com a boca torta. De boca torta, os ingleses se tornam repetitivos, pretensiosos, arrogantes, tal qual nossos economistas de uma nota só, os fiscalistas, que só enxergam arrocho fiscal sobre as despesas e jamais sobre as receitas. Nenhum economista fiscalista, destes que mandam currículos para bancos , seguradoras, corretoras, bolsas, FMI, BID, Banco Mundial, PNUD, fundações universitárias, correm atrás de contratinhos e sinecuras, se deu conta do rombaço na Previdência na era Lula. Mas estão, como os escoteiros, sempre alerta, para pregar mais arrocho sobre servidores e trabalhadores. Afirmam que o Brasil gasta 10 vezes mais que a Índia com previdência. Tudo porque a Índia não gasta nada e sua previdência nada tem de comum com a nossa.

Escrevem então que o Brasil precisa de uma 3ª reforma da Previdência, no começo do novo governo, em 2007, aumentando a idade, achatando ainda mais os benefícios, talvez esquecendo que 65% dos aposentados e pensionistas do INSS recebem um mísero salário mínimo. No fundo querem 100% recebendo o mínimo. Quem quiser receber mais que comprem planos de previdência de bancos e seguradoras. Uma vilania sem-vergonha! Já admiti algumas vezes que a 3.ª reforma é necessária, mas igualmente expus minhas razões, muito diferentes das apregoadas pelos fiscalistas. Não vou lembrar a dívida histórica, dos US$ 500 bilhões levados da previdência pública quando havia sobras de caixa aos bilhões, para outros projetos de desenvolvimento do país.

Lembro só o presente. Nos quatro anos de Lula, nada, rigorosamente nada, foi feito para combater a sonegação que corresponde a 30/40% da receita líquida previdenciária. Antes - nada, rigorosamente nada, foi feito para reduzir a renúncia previdenciária que vem crescendo, apesar da mudança do seu sistema de medição. Tentaram expurgar os elementos mais forte da renúncia (contribuição dos empregadores rurais, clubes esportivos, etc). Nada, rigorosamente nada, foi feito para a cobrança da dívida incobrável de mais de R$ 250 bilhões, judicial e administrativa. Incorporaram a receita previdenciária à Receita Federal e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, esta com R$ 340 bilhões a receber, na vã ilusão de que o dinheiro vá cair do céu, quando se sabe que do céu só caem chuvas e aviões... Nada, rigorosamente nada foi feito para a recuperação de crédito. Os burocratas fizeram cursetes de análise de risco de crédito para fingir que estão aprendendo as quatro contas, através do Instituto Vias Transversais e Virtuais. A recuperação de crédito há uma década não passa de 1%. Caloteiro não precisa de análise de risco de crédito. Culparam o auxílio à natalidade, o salário-maternidade, auxílio-doença, a existência de um punhado de aposentados com mais de 90 anos, pagamento de sentenças judiciais, tudo um besteirol idiota.

Claro que a receita tende a piorar e o déficit só vai se agravar, na medida em que o Receitão se torna um monstro pesado, lerdo, burocratizado e sujeito as injunções e acertos políticos. Quando se olha para as cabeças coroadas da base política e das elites empresariais sabe-se que é difícil empreender esforços para despolitizar e despartidarizar, INSS, FGTS, Receita e a Fazenda Nacional. Não falo só do PT, deixo bem claro. O crime organizado está vencendo o jogo. A lavagem de dinheiro se intensificou com o caixa 2, mensalão, dinheiro não contabilizado, paraísos fiscais, bingos, bicho, drogas, CC-5, verbas, cargos, sustentação política e estabilização do governo, omissão da Polícia Federal e do Ministério Público e intervenção do Supremo.

O autor, Paulo Cesar de Souza, é presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência Social.-ANASPS

Comentários

Comentários