O diretor brasileiro Fernando Meirelles, de “Cidade de Deus”, foi convidado a dirigir sua primeira produção de um estúdio estrangeiro depois que o inglês Mike Newell saiu do projeto para realizar “Harry Potter e Cálice de Fogo” (que também chega às locadoras – leia mais nesta página). Com Newell, a adaptação do livro de John Le Carré provavelmente teria se tornado um drama centrado na relação dos personagens de Ralph Fiennes e Rachel Weisz. “O Jardineiro Fiel” de Meirelles, por outro lado, esquadrinha as idéias do romance e se mantém fiel à trama de Carré, com suspense, tensão e crítica social, embalando tais elementos com visual impressionante.
O filme acompanha Justin Quayle (Fiennes) em um pronunciamento da Organização das Nações Unidas. Na ocasião, ele – um mero diplomata sem grandes obrigações a não ser aparecer em eventos – é peitado por Tessa (Weisz), uma empenhada defensora dos direitos humanos, que o questiona sobre a participação da Inglaterra na guerra do Iraque. Depois dos insultos, os dois iniciam um romance e, meses depois, Tessa acompanha Justin em sua transferência para a África.
Ao ser informada de um surto de problemas de saúde no Quênia, Tessa descobre que testes de um novo medicamento, iniciados por uma indústria farmacêutica em conluio com os governantes, pode estar matando a população. Durante suas investigações com o médico Arnold (Hubert Koundé), Tessa é morta e o até então alienado Justin, interessado em jardinagem, passa a tentar descobrir o que provocou o assassinato da esposa – e a verdade sobre a própria Tessa.
O roteiro enxuto de Jeffrey Caine e a edição de Meirelles mostram-se precisos ao quebrar a estrutura do romance e reverter os fatos, iniciando o filme com a morte de Tessa e retornando, com Justin, aos momentos e acontecimentos que levaram à fatalidade. Nas lentes do diretor, Rachel Weisz soube deixar de lado os maneirismos de personagens de filmes de ação como “A Múmia” e realmente assumir a postura de Tessa, o que lhe rendeu o Oscar e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante. Fiennes também está em uma de suas melhores atuações, depois de deslizes como “Encontro de Amor”.
Falando em maneirismos, é importante destacar a forma como Meirelles posiciona sua câmera na ação, quase como um personagem, passeando pela cena às vezes de modo ágil e nervoso, e outras gracioso, como nas passagens de Tessa nas favelas do Quênia. Com o tempo, o recurso pode vir a ser marca registrada do diretor ou ser confundido com um cacoete, mas em “Jardineiro Fiel”, ele funciona. Não é gratuito também o contraste entre as cenas da Europa, plásticas e azuladas, com as da África, coloridas e granuladas, o que acentua o tom social que a história ganhou no longa.
O DVD que chega às locadoras tem extras com cenas excluídas, uma cena prolongada e o documentário “Abraçando a África”, além de um bom making of e uma análise da transposição do romance de John Le Carré para o filme.