Daqui a um mês, milhares de noivas estarão adentrando as igrejas de véu e grinalda, pois maio é o mês das noivas e, com toda a certeza, o período do ano, junto com dezembro, em que mais ocorrem enlaces matrimoniais no Brasil. Destas noivas, muitas realizarão o sonho de oficialização da união conjugal usando vestidos que foram criados pelas mãos hábeis do costureira Luzia Machado, 53 anos.
Moradora do Jardim Bela Vista, ela aprendeu o ofício observando sua mãe e uma vizinha. “Minha mãe não deixava usar a máquina, pois eu era muito criança, mas estava no sangue”, ressalta. Aos poucos, Machado foi mostrando para a mãe que o gosto pelos trabalhos manuais, pela costura e pelo bordado eram encarados com seriedade e paixão pela pequena menina. Ela matriculou-se em um curso de corte e costura e começou a trabalhar profissionalmente.
Por ocasiões que nem a vida explica, Machado deixou a costura um pouco de lado e foi fazer magistério. Deu aula para alunos do primário, mas logo voltou para a linha e a agulha. “Nessa época, muitas pessoas queriam fazer cursos de corte e costura, então montei uma escola e comecei a dar aulas”, diz. A partir daí, ela não parou mais. Hoje, com mais de 30 anos de experiência no ofício, Machado afirma com orgulho que nunca lhe faltou trabalho. “Jamais coloquei uma placa na frente de casa anunciando que costuro, mas não pára de aparecer serviço”, comenta.
Desde pequena, o sonho de Machado era confeccionar um vestido de noiva. “Quando faço esses vestidos, entro no sonho da noiva. Ela tem que ser a pessoa mais bem vestida e mais linda da festa e me esforço muito para que isso se torne realidade”, afirma. Com a proximidade das festas de final de ano e dos casamentos, Machado começa a trabalhar por volta das 8h e só pára de madrugada.
Apesar das demandas, Machado explica que hoje são poucas as pessoas que se interessam pela arte do corte e costura. “Nas lojas há produtos baratos e prontos, não precisa medir muito nem esperar fazer, mas existe pessoas que fazem questão de uma roupa exclusiva. São elas que procuram as costureiras”, salienta.
Gepeto
Com madeira, serra, lixa e cola na mão, não há quem segure o marceneiro Geraldo Blasque, 71 anos. Também morador do Jardim Bela Vista, ele aprendeu o ofício há mais de 50 anos. “Comecei trabalhando no comércio com 11 anos, mas não levava muito jeito. Quando entrei numa marcenaria, aos 15 anos de idade, foi paixão à primeira vista”, lembra.
Blasque conta que ainda tem serviços, mas nada que se compare aos velhos tempos. “Ainda faço armários, gabinetes e dou manutenção para alguns clientes antigos, mas hoje existem móveis baratos nas lojas”, afirma. Móveis baratos, mas de qualidade muito inferior aos fabricados pelas mãos de Blasque. De acordo com ele, os móveis hoje são feitos de compensados e MDF, sigla para Medium Density Fiberboard, que são chapas fabricadas a partir da aglutinação de fibras de madeira com resinas sintéticas.
O marceneiro lembra que, há alguns meses, uma ex-cliente, para quem havia feito um armário há 36 anos, telefonou dizendo que estava se mudando e iria locar o imóvel para uma clínica médica, mas que os locatários pretendiam jogar o armário fora. Como ela não podia levá-lo, sugeriu a Blasque que ficasse com ele. ”Fiz alguns reparos na pintura e vendi novamente. Parecia que tinha acabado de fazer aquele armário. Antigamente, as coisas eram feitas para durar”, alfineta.
A arte de trabalhar a madeira é uma das mais antigas na história da humanidade, tanto que o pai do homem mais famoso do mundo, Jesus Cristo, era marceneiro. No entanto, segundo Blasque, o ofício não está longe do fim. “Hoje, as máquinas fazem quase tudo. Provavelmente alguns marceneiros perdurem, mas não sei por quanto tempo vão resistir na profissão. É uma pena”, lamenta.
De pai pra filho
Quem nasceu em Bauru ou mora na cidade há algum tempo certamente conheceu ou ouviu falar no Hippie Oscar, dono da Loja do Hippie na rua 1.º de Agosto. Falecido no início deste ano, Oscar Martins tinha mãos habilidosas para as artes manuais. Com couro, bambu, vime, sisal e arame, ele dominava a arte de confeccionar sandálias, chinelos, bolsas, cintos, baús e chapéus. Apesar do falecimento do Hippie Oscar, seus produtos artesanais não morreram. Vivem nas mãos também habilidosas de seus dois filhos e de sua esposa.
André Fabrício Martins, 28 anos, conta que aprendeu a confeccionar as peças observando seu pai. “Desde criança, eu o via fazendo e acabei herdando por gosto. Com a minha irmã foi a mesma coisa”, diz. Ele explica que hoje as pessoas preferem produtos modernos e tecnológicos, mas ainda assim há uma boa demanda de serviços, tanto que abriu uma segunda loja na avenida Getúlio Vargas.
Pós-graduado em administração de empresas, André ainda conserta sapatos, ofício que aprendeu com o pai e que também parece cada vez mais próximo da extinção. “Sempre aparecem sapatos para ser consertados, mas é uma profissão que não tem tanto serviço quanto antigamente”, salienta.