O Brasil já avançou na luta por tratamento humanizado para os portadores de sofrimento mental (ditos loucos). O debate ganha projeção a cada novo dia 18 de maio, quando os setores envolvidos promovem o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A principal reivindicação é o fim dos manicômios no País. Porém os avanços esbarram no “faz-de-conta que o problema não existe”, muitas vezes, dissimulado em um discurso de que se fala abertamente do assunto. Entretanto, fora das instituições se sabe muito pouco do universo dos doentes mentais.
É satisfatório saber que portadores de deficiência física saíram do “armário” e mais significativo é perceber hoje empresas disputando estes profissionais para seus quadros de empregados.
Com os portadores de sofrimento mental ainda há muito que avançar. Basta ver que grande parte da população de Pirajuí não sabe o que acontece atrás das paredes do prédio localizado na rua Voluntário Silvano de Lima, 1.035. Há três anos, o endereço abriga o Hospita-Lar Irmã Dulce na Providência de Deus, administrado pela Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus.
De acordo com o frei Isaías Fernandes, responsável pelo Irmã Dulce, são tratados 200 pacientes vindos de todo o Estado e apenas uma pessoa é de Pirajuí.
O prédio da instituição difere completamente do que tempos atrás foi a arquitetura típica de um manicômio. Ao invés de muros altos que esconda os pacientes, apenas arame cerca o terreno. Na entrada, há uma pequena capela para missas e orações de funcionários e pacientes. Os traços com motivos religiosos nos murais da capela e vitrais espalhados pela instituição revelam a transformação que as cores impressas nos trabalhos fizeram com Milton Pestillo. O frei Isaías conta que ele foi paciente e agora é funcionário da instituição. Pestillo é considerado artista na Irmã Dulce, onde também dá formas a esculturas.
Muitos pacientes circulam pela instituição, outros permanecem em seus quartos. Alguns aproveitam atividades de terapia ocupacional em uma ampla sala. O cômodo do lado está aparelhado para fisioterapia. Uma senhora cantarola uma canção antiga impostando a voz como a lembrar as famosas cantoras do rádio. Alguns apresentam muita dificuldade para se comunicar. Uma moça de olhar fixo não desgruda de duas bonecas, uma em cada braço. Outros com porte de adulto se comportam como crianças. Buscam atenção, querem conversar. Ao circular no corredor onde estão sentados alguns pacientes, um forte cheiro de urina indica que as pessoas usam fraldas. Muitos pacientes só se alimentam se receberem comida na boca.
Uma senhora segue a reportagem do JC na esperança de que possa tirar um “retrato”. A pedido do frei Isaías não foram captadas imagens dos atendidos. “São pacientes com problema neurológico crônico. Grande parte vive de cama”, detalha frei Isaías.
A cidade talvez não saiba também que a instituição Irmã Dulce é uma das maiores empregadoras de Pirajuí. Segundo o religioso, a entidade emprega 200 pessoas diretamente. São profissionais que propiciam terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, atendimento psicológico, nutricionistas, médicos e enfermeiros. “Hoje, temos equipe médica praticamente 24 horas”, acrescenta o frei.
A instituição atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e tem uma parceria com o governo do Estado de São Paulo. Isaías ressalta ainda as doações em dinheiro, roupas, alimentos e produtos de higiene pessoal vindas de colaboradores e empresas. Uma antiga ala foi totalmente reformada com banheiros nos quartos. O frei Isaías destaca as cores das paredes que em nada lembram um hospital. “Umas das preocupações com os pacientes é humanizar inclusive cuidando do ambiente”, explica. Ele acrescenta que o prédio tem mais de 50 anos e que as outras alas serão reformuladas. A parte da frente ganhou uma cobertura e bancos e será mais um espaço para os pacientes.