Quando o telefone tocou, anteontem à tarde, uma empresária de Bauru aceitou a ligação a cobrar acreditando ser de familiares. Só depois de mais de duas horas ao telefone e já ter passado os códigos de cinco cartões para recarga de celular no valor total de R$ 250,00 porque acreditava que seu marido havia sido seqüestrado, ela descobriu que o interlocutor, com sotaque carioca, era um golpista. O marido estava em casa, com os filhos.
Primeiramente, quando a ligação completou, o interlocutor se identificou como sargento da Polícia Militar que havia acabado de atender uma ocorrência de acidente de trânsito no qual um homem estava ferido e inconsciente dentro do carro. “Na hora pensei no meu marido. O homem perguntou qual o modelo e a cor do nosso carro. Quando contei qual era, ele disse que era aquele mesmo, que o homem acidentado, antes de desmaiar, havia passado a ele o cartão da loja”, conta a empresária, que prefere não se identificar.
Grávida de 7 meses, ela desmaiou. Um funcionário, que estava por perto, pegou o telefone e continuou conversando com o interlocutor, que logo mudou o discurso. “Ele disse que era um seqüestro-relâmpago, que meu marido era a pessoa errada no lugar errado e queria R$ 20 mil para soltá-lo. Mandou a gente fechar a loja, não chamar a polícia e não ligar para ninguém porque, ao contrário, matariam meu marido”, relata.
Sem perceber que se tratava de golpe, o funcionário da loja continuou a negociação com o interlocutor e explicou que não dispunha de R$ 20 mil. “Ele mandou eu abrir a carteira, ir ao escritório e pegar todo o dinheiro. Fiz o que ele mandou e consegui R$ 250,00 em dinheiro. Então, o golpista deu de 20 a 30 minutos para comprarmos cinco cartões de recarga de celular de R$ 50,00 cada um. Meu funcionário comprou os cartões e nós passamos os códigos”, lembra.
Mas mesmo assim, o golpista não desligou. “Ele voltou a falar comigo e disse que precisava de dinheiro para sair de Bauru, para depois soltar meu marido. Negociamos até ele baixar os R$ 20 mil para R$ 1 mil. Eu liguei para uns amigos de outro celular, que estavam me ajudando a levantar o dinheiro. Enquanto isso, minha amiga pediu para funcionária dela ligar na minha casa para avisar meus filhos que íamos pegá-los porque estávamos com medo de deixá-los sozinhos. Foi quando descobrimos que meu marido estava em casa e não havia sido seqüestrado”, revela.
Alerta
A empresária, que precisou ir para o hospital, passa bem. Um dia após os fatos, ela avalia o quanto foi ingênua. “Não questionei nada. Achei tudo muito coincidência e acreditei. Mas quero alertar outras pessoas porque não quero que ninguém passe pelo pânico que eu passei”, explica. O mesmo alerta faz o delegado Silberto Martins, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru.
Ele ressalta que o golpe, que pode variar, vem sendo aplicado em Bauru, mas pelo menos três pessoas que estão presas no Rio de Janeiro foram identificadas como autoras das ligações. “Recebemos um documento da Polícia Civil de lá informando que três detentos do presídio Frei Caneca fizeram quase 6 mil ligações nos últimos dois meses para cidades de vários Estados, inclusive para Bauru, tentando aplicar o golpe. Elas estão respondendo inquérito por extorsão”, afirma.
Ele alerta que outros presos, do Rio ou outro Estado, podem estar de posse de celular e continuar com o golpe, mas orienta a população. “Ao receber uma ligação dessas, de alguém que diz que é da polícia, do bombeiros, informando sobre um acidente ou algo parecido, deve desligar o telefone e ligar para o 190, para o 193 para confirmar a notícia”, orienta.