O jornalista Mino Carta esteve em Bauru, na última segunda-feira, para abrir o 1.º Observatório Latino Americano (OLA), inédito no Estado de São Paulo. Durante o evento, que terminou ontem, foram discutidas a conjuntura social, política e econômica do continente. Pessimista contumaz da inteligência e otimista da ação, como afirma, Mino Carta é um dos ícones do jornalismo brasileiro.
Com currículo que inclui a criação das revistas Veja e IstoÉ, que agora ele acusa de servirem unicamente ao poder; do Jornal da Tarde, Quatro Rodas, do Jornal Republicano (que durou apenas cinco meses, nos anos 70); e de Carta Capital, a revista dos seus sonhos, ele é polêmico.
Mino Carta esteve na Redação do JC e concedeu entrevista na qual falou sobre o atrelamento da imprensa nacional ao poder, sobre o porquê não acredita em mudanças no comportamento da imprensa, política e seu próximo projeto literário. Veja a seguir os principais trechos.
Jornal da Cidade - O senhor está aqui em Bauru para falar sobre a “estreita relação da imprensa com o poder”. O senhor diria que as imprensas brasileira e latino-americana são cúmplices da atual conjuntura social, política e econômica do continente?
Mino Carta - Sem dúvida. Agora não sei se o raciocínio se aplica à América Latina em geral. Na verdade eu acho que a América Latina apresenta cenários muito diferentes. Então acho que o Chile, a Argentina, o Uruguai, representam um tipo de cenário, de alguma forma, com alguma semelhança; o Paraguai, outro; a Bolívia, outro; a Venezuela também e assim por diante.
JC - E a atuação da imprensa nestes cenários distintos?
Mino - Veja, o México neste ponto de vista é um campeão porque a imprensa mexicana é totalmente amarrada ao poder e declaradamente amarrada ao poder; pelo menos foi por muitas décadas. Agora, no caso do Brasil, não existe, digamos assim, uma ligação oficial porque os jornalistas brasileiros falam muito de liberdade de imprensa. É um refrão que está sempre na boca deles. Mas na verdade, liberdade de imprensa no Brasil não existe de fato porque, de um modo geral, a imprensa está na mão do poder embora os patrões da grande imprensa, que aliás é mínima, se odeiam. Eles têm um ódio visceral, um em relação ao outro. No entanto aqueles que supõem ser um risco comum, eles se unem e partem para a briga juntos - e é sempre de um lado só. Então acho que o cenário brasileiro, para repetir esta palavra, que não me agrada muito, já esteve mais na moda, mas continua de alguma forma e eu detesto a moda, mas essa situação (da relação da imprensa com o poder) é uma situação muito peculiar do Brasil, muito típica do Brasil.
JC – Por que?
Mino - Porque na origem disso tudo tem a falta de briga verdadeira, entende? Nunca houve briga de verdade, nunca houve muito sangue na calçada, isso falta na história do país.
JC - Nem na ditadura?
Mino - Teve sangue na calçada durante a ditadura? A ditadura declarou que era ditadura em uma hora. Precisamos de uma hora para que soubéssemos que a ditadura estava instalada. Não houve resistência alguma, diziam que a subversão estava em marcha e eu estou esperando ainda pela subversão, até hoje. Faz 42 anos e eu estou esperando pela subversão em marcha, tô aqui no aguardo deste encontro fatal com a subversão
JC - O senhor então atribui este comportamento subserviente da imprensa brasileira à falta de resistência, de luta?
Mino - Nada acontece por acaso. O Brasil é um país cujo povo ainda traz no lombo a marca do chicote, da escravidão. É um povo resignado, dizia Sérgio Buarque de Holanda, um povo cordial, e ele usava esta palavra com extrema ironia para dizer exatamente resignado, conformado, cabisbaixo. As únicas resistências efetivas, a não ser alguns movimentos como, sei lá, o MST, agora tem o movimento dos sem-tetos, também, são movimentos que de alguma forma representam a resistência, mas basicamente a resistência maior parte da criminalidade, o que é uma tragédia, evidentemente.
JC - Como o senhor vê a possibilidade de mudança, acredita na possibilidade de mudança do comportamento da imprensa?
Mino - Não. O meu ceticismo já bate qualquer recorde, eu tenho certeza de que não vai mudar. Pelo menos não ao ponto de que eu possa assistir, receio que nem os meus netos vão assistir essa mudança.
JC - Porque? Essa mudança dependeria de mudanças profundas na relação de poder no País?
Mino - Dependeria sobretudo de uma compreensão por parte da elite de que é preciso fazer um País diferente. Mas a nossa elite é o que é, nós vivemos num país medieval. Isso aqui é idade média, as pessoas não percebem, mas isto é idade média. Não percebem porque temos os computadores e um monte de coisas que nos dizem: somos modernos. Mas na essência, somos absolutamente medievais. Aliás, eu não sei se o mundo sem perceber não está entrando numa fase de idade média. O mundo todo, entende, nas mãos de imperadores como George W. Bush, por exemplo.
JC - Além do aspecto ideológico, o senhor critica também o jornalista no aspecto técnico. Então, na análise do senhor, se o país está entrando numa era medieval, o que diria da educação ........
Mino - Aí a questão, evidentemente, em primeiro lugar, é técnica, quer dizer, não é somente ideológica. Os jornalistas servem aos seus patrões porque temem perder o emprego. Pelo emprego fazem qualquer negócio, isso não é bom, evidentemente. Além disso, eu acho que há um despreparo técnico que também resulta, a meu ver, de uma falha educacional e que está na própria concepção do jornalismo. Portanto, também isso é resultado da prepotência e da incompetência da própria elite. A Folha se orgulha de escrever tudo com 100 palavras e de explicar tudo em 30 linhas. Parece que aqui (em Bauru) um jornal que está começando agora é todo sem texto. Isto é o fim do jornalismo.
JC - Neste quadro extremamente pessimista que o senhor pinta, o jornalismo, enquanto instrumento fiscalizador do poder, de contestação, não existe. É isso?
Mino - Quando eu falo imprensa, eu penso num jornal como o de vocês, portanto em algo impresso, em papel impresso. Eu diria que a mídia em geral(...),a meu ver, no Brasil serve ao poder, só ao poder. Há vozes isoladas. Eu não posso falar evidentemente de Bauru porque não conheço, estou falando de mídia brasileira. Tem vozes isoladas, Caros Amigos, Carta Capital e um ou outro colunista independente que dá o palpite dele e se manifesta com incoformidade, com o pensamento dele e não com o pensamento do poder. Mas fora disso é uma coisa só.
JC - O que diria para os jornalistas que estão começando. Tem os mandamentos do Mino Carta...
Mino - Repito à exaustão. Tenho até vergonha de repetir (risos). Acabo dizendo essa coisa implacavelmente (risos), para assoberbar o meu interlocutor (risos). Mas a questão é essa: você não faz jornalismo se você não tiver uma fidelidade absoluta à verdade factual. A verdade factual, essa é que interessa, sem entrar em outros méritos (...)Uso uma expressão da Hannah Arendt, que é uma grande pensadora alemã, que usava essa idéia da verdade factual, que se diferencia dos milhões de verdades que cada um carrega consigo. Segundo ponto: exercício do espírito crítico, você não faz jornalismo sem espírito crítico. Essa idéia de que o jornalismo é objetivo, de que o jornalismo é frio, que o jornalismo é equilibrado, isento, as besteiras que gente como Roberto Civita, como Otavinho Frias, repetem à exaustão; essas besteiras. Não têm nada haver com jornalismo. Aliás, são hipocrisias, quando eles dizem isso estão dizendo: “só me serve aquilo que fala bem de mim, do meu poder e das pessoas que eu aprecio e do poder que eu sustento”. Espírito crítico você exerce em relação a tudo: em relação a um filme, à política, à senhora sua mãe. Terceiro ponto é a fiscalização do poder. O poder não está só em Brasília. O poder está em todo lugar, está dentro dos jornais, está na chefia de redação, está onde você quiser, está na companhia de teatro.
JC - A fiscalização do poder é o principal ponto negligenciado pelo jornalismo brasileiro?
Mino - Eu acho que o jornalismo brasileiro não respeita a verdade factual porque manipula os fatos deliberadamente. Não exerce o espírito crítico com a devida isenção. É crítico com relação somente àqueles pontos, àquelas situações, àquelas personagens que desagradam ao patrão. E não fiscaliza o poder.
JC - O senhor já esteve à frente de diversos projetos editoriais, que hoje, na avaliação do senhor, são representantes desta imprensa amarrada ao poder. A Carta Capital é a revista dos sonhos? Representa a forma como o jornalismo deve ser praticado?
Mino - Sem dúvida. Do ponto de vista, digamos técnico, a Carta Capital é a melhor coisa que eu dirigi. Lembre que o jornalismo é trabalho de equipe, não existe essa coisa do homem do destino, do salvador da pátria. Claro que existem sempre pequenas equipes que são as que efetivamente trabalham e essas são compostas pelo pessoal que carrega o piano, mas que sabe tocá-lo. Esses são sempre, cinco, seis pessoas, numa redação de jornal. Eu sei perfeitamente que uma pessoa só não resolve.
JC - A revista Carta Capital é identificada, principalmente pelos adversários do Lula, como sendo porta-voz do governo. O que o senhor diria?
Mino - Haja vista por exemplo a capa desta semana (risos) (traz chamada de reportagem sobre a situação do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, no governo, após a quebra clandestina do sigilo bancário do caseiro Nildo)
JC - Como o senhor avalia esta crítica constante à Carta Capital?
Mino - A questão é a seguinte: à parte o fato que nós fomos muito críticos, evidentemente, do governo do príncipe dos sociólogos (Fernando Henrique Cardoso). Aliás, quantos livros você leu do príncipe dos sociólogos?
JC - Nenhum.......
Mino - Nenhum (espanto e risos). Como você sobrevive sem ter lido nenhum livro do príncipe dos sociólogos? Ninguém leu. A quem eu pergunto que livro você leu do Fernando Henrique, ninguém leu, mas é o príncipe dos sociólogos. Não é muito estranho isso? Mas voltemos. O príncipe dos sociólogos foi um perseguidor da revista Carta Capital, pelo menos em termos de publicidade. Não tivemos uma única escassa página do governo Fernando Henrique. Eu sou muito amigo do Lula, eu era amigo dele quando ele era sindicalista, somos amigos há 30 anos.
JC - A Carta Capital se posicionou favorável ao Lula na campanha presidencial que era Lula...
Mino - Grandes jornais, grandes revistas, órgãos jornalísticos, mídia e tal, (do mundo) se manifestam. Na Itália, por exemplo o Corriera della Sera, que é jornal de Milão, jornal nacional italiano...o Corriera della Sera, um mês atrás tomou posição, disse, agora tem eleições em abril, nós somos contra o senhor Berluscone, gostamos até de gente que está com Berluscone e achamos que seria ótimo se eles se fortalecessem porque isso faz bem à democracia, mas somos contra Berluscone, queremos que Berluscone perca. O New York Times sempre toma posição nas eleições, então nós tomamos posição dissemos olha entre Serra e Lula, nós somos Lula.
JC - Isto não se assemelha à relação da imprensa atrelada ao poder, que o senhor tanto critica?
Mino - Mas nós criticamos o Lula ferozmente, a política econômica. Nós constantemente fomos contra, quando o governo favoreceu a Monsanto na questão dos transgênicos, nós fomos ferozmente contra, achamos isso uma vergonha. Agora, tem coisas do governo Lula, alguma coisa do ponto de vista social, que tem algumas diferenças em relação ao passado, alguma coisa em termos de política exterior, algumas coisas em termos de política educacional. Mas a meu ver é muito pouco. Nós estamos profundamente decepcionados com o governo do PT e eu vivo repetindo isso. Nós achávamos que Lula poderia realmente introduzir uma mudança, não introduziu, no nosso ponto de vista.
JC - Então a Carta Capital não se posicionará favorável à reeleição?
Mino - Não, talvez até se manifeste. Aí o que vale é sempre o confronto. E a política é isso: você confronta, eu não sei ainda o que faremos, até porque a decisão não é minha exclusivamente, existe uma equipe, existe um conselho editorial, existem muitas coisas em jogo. Mas digamos em princípio, você diz Lula versus Alckmin, quem você quer? Eu quero Lula, não quero Alckmin, eu posso dizer isso com absoluta tranqüilidade, eu, eu Mino, não é a revista Carta Capital, eu vou votar no Lula, apesar de tudo...
JC - Por que?
Mino - Em primeiríssimo lugar, isso para mim é fundamental, é porque um metalúrgico na presidência da república do Brasil me agrada sobremaneira.
JC - Independente de tudo que tem acontecido? Agora mesmo o senhor afirmou estar profundamente decepcionado com o governo Lula.
Mino - Sim, porque eu não quero (bem alterado) essa pseudo aristocracia de cafajestes. É isso que eles são: um bando de cafajestes, metidos, que dizem que São Paulo é a capital – para falar de coisas que agradam os aristocratas – gastronômica do mundo. Em São Paulo se come muito mal, os restaurantes são ruins, as pessoas não percebem, acham que é a capital gastronômica do mundo. É uma cidade incrivelmente cosmopolita como há poucas no mundo, então você come comida japonesa, árabe e come como em poucas cidades do mundo você pode comer (em termos de variedade), mas se come mal.
JC - E seus projetos literários. Depois de “Castelo de Âmbar” e “À Sombra do Silêncio”, o senhor está pensando em outro livro?
Mino - Penso.
JC - Já tem um roteiro prévio em mente?
Mino - Às vezes acho que tenho, às vezes acho que não (risos)....
JC - Pode adiantar qual seria?
Mino- - Não... (risos)... posso, posso (risos). É que tem várias coisas que me atormentam... Duas questões: uma seria um retrato da sociedade brasileira, outra seria a falácia do tempo, quer dizer, entendido como algo que de fato existe... Eu acho que o tempo não existe, quer dizer....presente, passado, futuro, acontecem exatamente no mesmo instante, no mesmo relâmpago... Nascemos mortos... você, veja, o que eu estava te dizendo há um segundo atrás já passou, estamos sempre vivendo este momento (o agora, o presente), acho que estamos vivendo já o momento de nossa morte....Se eu conseguisse fundir as duas coisas (retrato da sociedade brasileira e o tempo), seria ideal.