Polícia

Isolamento social contribui para o crime

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Na gíria marginal, o Núcleo Fortunato Rocha Lima, um dos bairros de Bauru onde o comércio de armas clandestinas é fonte de renda, é uma ilha porque está isolado do restante da cidade por causa de questões sociais e econômicas. O preconceito e a discriminação são as barreiras que dividem os moradores da zona noroeste, onde está o Fortunato, da zona sul, por exemplo.

Um dos moradores que vive com sua família em uma das casas do núcleo explica. “É chamado de ilha porque estamos abandonados. Um lugar de pessoas mais sofridas, mais humildes que não podem contar com os aparelhos públicos da mesma forma”, enumera

Com raras exceções, os moradores, segundo o entrevistado, têm que usar da mentira para arrumar um emprego, ainda que ele não inclua muitas exigências, uma vez que a mão-de-obra é pouco qualificada. “Quando nos candidatamos a um emprego, não podemos dizer que moramos aqui porque se o patrão souber, manda embora. O bairro tem o estigma de abrigar somente bandidos”, avalia.

A cicatriz também aparece na rotina diária, quando os moradores querem se relacionar com outras pessoas. “Nós temos amigos só no bairro. Os moradores de outros bairros não querem se relacionar com a gente. Eles têm medo”, comenta.

Por isso dizem, são poucos os moradores que conseguem sobreviver sem a ajuda da marginalidade. “Alguns coletam materiais recicláveis, trabalham com carroça e outros vão para a roça. Mas uma boa parte vive nessa vida marginal, correndo da polícia e praticando comércio ilegal”, diz.

O estigma compromete ainda o atendimento dos órgãos públicos, comenta o morador. “A polícia só vem aqui atrás de denúncias, para apurar furtos e roubos. Quando nós precisamos dela, o atendimento demora ou nunca vem. Quando nós matamos, somos presos. Quando matam um de nós, eles esquecem”, reclama.

A “Carta Magna” do Fortunato é o silêncio. Falar do vizinho é ser delator, por isso, pouco se sabe da vida daqueles que vivem em uma das moradias. “Mesmo as pessoas de bem têm que se defender. Se falam, ficam marcadas. Algumas até andam armadas”, comenta o entrevistado

Escravizados

Enquanto a sociedade dá as costas para os moradores do Fortunato, a marginalidade abraça. Um abraço que tem preço definido. “Ele dão com uma mão e pegam com a outra. Para ganhar dinheiro, muitos moradores estão escravizados pelos traficantes. Com um pequeno aparelho celular, segundo o morador, o traficante preso coordena todo o varejo das drogas. “Ele controla tudo, o comércio de armas e de drogas. Alguns vendem droga aqui fora e depositam o dinheiro na conta bancária do preso.”

O morador entrevistado pelo JC diz que para comer e beber, ou seja, sobreviver, alguns não abandonam a vida do crime. “Temos que sobreviver. Nossas crianças estão com fome e só quem ajuda é o traficante. Ele nos fornece comida, segurança e saúde, assim como nos morros do Rio de Janeiro” , compara.

Pelo telefone, de acordo com o morador, o traficante administra o negócio. “Tem muito celulares na cadeia. Eles dão celulares para seus ‘mulas’ a fim de ter contato com o lado de fora da prisão.”

Além de comercializar armas, alguns presos mantêm os empréstimos. “Eles emprestam armas para nós. Porém, se perdermos, temos que pagar o dobro do valor dela.”

____________________

A dança das armas

Armas de fogo “andam”. De mãos em mãos, elas “viajam” de um extremo a outro da cidade. Atravessam fronteiras e chegam a outras cidades e até Estados num intercâmbio perfeito. Mas a verdadeira coreografia para esconder armas acontece nos bairros em que elas estão concentradas quando a polícia aparece.

O esquema começa quando a viatura policial entra numa rua e bate em uma casa. “Se o morador tem arma e desconfia que a polícia vai entrar, a passa para frente. De uma casa para outra, a arma atravessa muros de um lado para outro até chegar num local seguro” , conta um dos vendedores.

O mesmo ocorre quando a arma é prova de crime e a polícia está atrás do autor. “O autor se esconde e nós cuidamos da arma. Passamos o revólver pelos muros até chegar onde pretendemos enterrá-la.”

Quando a situação é normal, o esquema é outro. “Ficam escondidas (as armas) nos lugares de difícil acesso. O melhor lugar para esconder é enterrá-la. Há pessoas que se arriscam e deixam na laje das casas, embaixo do assoalho, mas eu acho muito arriscado”, diz um dos comerciantes do produto.

Ele calcula que quase metade dos moradores de seu bairro anda armado. “Especialmente os jovens, mas há adultos e mulheres que possuem armas. A primeira arma a gente paga, vendendo alguma coisa.” Quando a arma precisa ser levada a outro bairro, geralmente é um adolescente quem faz o transporte.

Comentários

Comentários