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Desde a colonização, intransigência está presente

Erika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

A pesquisadora Zilda Lokoi explica que no período Brasil colonial, a própria montagem da colônia já eliminou a diversidade. “Toda população nativa que vivia no Brasil desaparece. Os negros africanos, com suas diversas línguas, etnias, origens de lugares diferentes, transformam-se todos em apenas negros(...) Os índios passam a ser tratados como negros da terra”, explica. “Toda a riqueza da sua cultura desaparece na lógica da homogeneização do fazendeiro e a grande família, que é a casa grande e a senzala”.

Com isso, apesar, de toda diversidade dos modos de agir, de falar, de estruturas religiosas, “a memória que sobra dessa dominação, é uma memória homogênea como se houvesse apenas a estrutura do branco português e da civilização européia chegando no espaço vazio, onde tudo o que foi feito teve por objetivo civilizar e acabar com a barbárie”.

O segundo momento histórico abordado por Iokoi compreende o final do século XVIII e o início do século XIX. Período em que as tensões acirram-se com a preocupação econômica de Portugal em garantir o controle da mineração.

Para isto, explica Iokoi, é montada uma forte estrutura de poder de Portugal, que vai se manifestar na forma de vigiar a extração do ouro, na transformação do metal em barra, na cobrança de impostos sobre a atividade da mineração.

Tudo isso exarceba as tensões, que no período colonial tinham um certo nível de tolerância. “(...)como a contradição entre o fazendeiro e o escravo está ligada a relações interpessoais, muito da violência contra os escravos não aparece fortemente. Isto porque o fazendeiro se mistura com os escravos, tem filhos com as escravas(...)”.

Com a mineração, a pressão passa a ser bem maior tanto de Portugal sobre os proprietários das minas (estes passam a ter que pagar impostos), quanto destes sobre os escravos para trabalhar diuturnamente na extração dos minérios. Acontecem conflitos e revoltas como a dos Malês (escravos que fogem da mineração) na Bahia.

Mais uma vez a ordem social é garantida “por uma enorme prática de intolerância que atinge os três segmentos sociais: escravos, setores médios envolvidos no comércio e os proprietários das minas”

O terceiro momento da história do Brasil abordado por Iokoi é o da independência do País. Neste momento, na conjuntura internacional, a Inglaterra, começa a promover a discussão pelo fim da escravidão. Isto porque o pacto colonial impede que ela comercialize com os outros países livremente. “O interesse é recuperar os capitais investidos no tráfico de escravos para o desenvolvimento de sua própria industrialização”.

A independência acontece neste cenário. “A independência ocorre, de forma ridícula, com a Inglaterra transferindo a corte para o Brasil, para fugir da invasão napoleônica. O Brasil sai da tutela política e econômica de Portugal e entra no poder econômico da Inglaterra”, afirma Iokoi. “Mudou a estrutura de comando, mas de fato não se estabeleceu um regime onde a sociedade tivesse lutado em busca da superação daquela violência anterior”.

Iokoi afirma que todo esse movimento, desde o período colonial, promove uma desigualdade contínua e uma pseudo diversidade. “Isto porque todo mundo tem sua própria origem (baiano, italiano, japonês, etc.) e uma abstração do que é o Brasil”.

A pesquisadora conclui afirmando que, em conseqüência, “não temos (brasileiros) nenhum apreço às instituições. Tudo é personalizado, o poder é individualizado, as instituições são individualizadas, então não se tem democracia e nem direito”.

Para que seja respeitada, a diversidade precisa das instituições e precisa simultaneamente da garantia dos direitos políticos, direitos, civis e direitos sociais, diz a pesquisadora. Não pode existir um sem o outro, senão você não tem nem a diversidade e nem a igualdade”.

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