Cultura

Garras afiadas

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Se fosse outro, Nasi teria aproveitado o sucesso do projeto “Acústico MTV” do Ira! e emendado um novo disco com formato parecido, com a banda ainda a pseudo-comemorar seus 25 anos. Ou talvez refeito e regravado seu álbum solo para que ele tivesse canções fáceis para as rádios. Mas Nasi é diferente, assim como o Ira!. “Onde Os Anjos Não Ousam Pisar” (Sony & BMG), primeiro disco do vocalista, é ousado nas diferenças - e por isso mesmo, tudo o que é possível esperar dele.

O álbum começou a ser gravado em 2003, momento em que o Ira! questionava-se entre a produção de um novo CD de inéditas ou o “sim” à proposta de um acústico. A banda vinha do sucesso do CD e DVD “Ao Vivo MTV”, de 2000, e da recepção menos calorosa a “Entre Seus Rins”, de 2001. “Comecei a gravar nos últimos dois meses de 2003 e rolou a antecipação da produção do ‘Acústico’, então resolvi deixar para mixar depois da divulgação. Foi uma chance de amadurecer bastante o disco durante 2004, porque o ‘Acústico’ foi muito envolvimento e muito trabalho, muitos shows”, comenta Nasi, em entrevista ao JC Cultura.

A demora para finalizar e lançar o disco solo, para o músico, não foi prejudicial de forma alguma. Ele ainda afirma que não houve influência do projeto acústico na finalização de “Onde os Anjos”. “Esperei mais tempo para lançar por uma série de circunstâncias, mas a demora não surte nenhum efeito, o disco não soa datado. Se eu tivesse tentado fazer os dois (o disco solo e o ‘Acústico) juntos, acho que teria perdido o foco. Meu disco foi todo gravado da melhor forma e com os músicos ideais para cada música, quase não se repetem os executores em cada faixa”, aponta.

Músicos diferentes para cada música, influências coletadas em um quarto de século de música, blues, jazz, punk, hip hop? O resultado poderia ser um Frankestein, uma aberração, mas encontra sua coerência justamente nas diferenças. “O que costura o disco todo é a produção e os sons que eu e Apollo 9 (o produtor) escolhemos nas gravações. A mixagem só aprofundou essa atmosfera. O segredo de um disco é 80% na gravação”, defende o músico.

Nasi define o disco como uma espécie de trilha sonora para um universo sombrio e agressivo, influência direta da linguagem de histórias em quadrinhos que também percorre toda a arte gráfica do álbum. “É um disco de cantor, procurei viajar bastante no instrumental, tem essa atmosfera meio Frank Miller (roteirista de ‘Batman Cavaleiro das Trevas’ e criador de ‘Sin City’), dos efeitos de voz para fugir do estigma da canção pop e do cantor no melhor tom. Me preocupei mais com o lado autoral e os arranjos”, afirma.

Fora as brincadeiras no “MTV Rock Gol”, Nasi adotou a personalidade do mutante Wolverine, dos X-Men, justamente pelo resultado que tinha alcançado com as músicas do disco. “Me identifico com essa coisa cínica e ambígua, que foge do politicamente correto, do defensor da ordem e do progresso”, diz.

O cantor já havia posado como o personagem para um ensaio da “Revista MTV” e recebia comparações com o mutante por conta das costeletas que vão e vem em seu visual. “Porém tem a ver com a vida marginal que levei, no sentido junkie mesmo. É um personagem à beira do abismo. A capa é mais impressionista do que o ensaio. Não é a melhor forma de me vender para as jovens e lindas adolescentes (risos). O nome remete a uma atração sombria, um certo sarcasmo”, completa.

O batismo do álbum, segundo Nasi, rebobina o mesmo raciocínio e pega emprestado o nome da canção de Zé Rodrix e Etel Frota que fala exatamente de um personagem sem nada a perder ou a ganhar. “Equilibrado na beirada do abismo/ Quem sabe caia ou talvez vá voar/ Noite cerrada, ferro, fogo, batismo/ Anjo nenhum vai conseguir me escorar”, diz a letra.

“Estou no disco para cometer sacrilégios, fazer as misturas, dissonâncias de guitarras com elementos de soul music, hip hop, toques de música negra, pós punk. Remete a esse caldeirão, a um sarapatel macabro”, Nasi tenta explicar, e conta que o disco seria lançado por outra gravadora, mas foi cancelado. “Ter um pouco de raiva me estimulou a fazer um disco melhor. Quando disseram que não tinham mais interesse, olhei pro espelho e me prometi fazer um disco melhor do que faria anteriormente”, revela.

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