“Onde Os Anjos Não Ousam Pisar” abre em grande estilo com “Corpo Fechado”, repleta de referências de black music e que faz rock com participação de Thaíde nos atabaques (sim, atabaques no CD do cantor do Ira!), do DJ Spaiq e de Quelinah nos vocais. Os versos “Faça sacrifícios/ Alimenta-te de vícios/ Não respeita mesmo nada a ninguém” remetem sem piscar à foto de Nasi na contracapa do encarte, com um cigarro no cinzeiro, uma xícara de café na mesa e um charuto nas mãos, cínico e dono do que vem pela frente.
“Acredito no Amor” mergulha a voz do músico numa balada blues, como as do projeto Nasi e os Irmãos do Blues, e tem arranjos de poderosos metais de Bocato – ou seja, mais clima “Sin City”, impossível. A mistura de referências continua com “Rebanho”, que mostra o lado hip hop e funk do paulistano, e “Eu Não Me Canso de Dizer”, que vai fundo no folk blues acústico de violões em brasa. “Pistola na Mão” é pós punk com gaita – basta dizer isso.
“Você Me Usou” e “O Outro Lado da Moeda” são parcerias de Nasi com Johnny Boy e têm clima de rock fifties, clássicas, com efeitos interessantes de voz – a primeira, quase esfumaçada, e a segunda, mais psicodélica. A faixa-título, quase soturna, contou com arranjo, teclados e a benção de Zé Rodrix. Em overdose de teclados de grupos do britpop, é interessante ouvir um talento brasileiro e que é quase ignorado pelo público e mídia.
“Wolverine Blues” tem a personalidade de seu homenageado. “E aí, xará? Você quer se divertir?/ Não me venha com indiretas/ Eu sempre faço a coisa certa”, regada na guitarra de Nivaldo Campobiano, ex-integrante da banda Muzak. “Hey Meu Amigo”, segundo o material de divulgação, teve o vocal trabalhado como se fosse uma gravação “vintage” feita no estúdio Chess Records da década de 50. É ouvir esse bluesão para entender. Depois de “Quero Ser seu Homem”, a mais funkeada do disco, um resgate do repertório de Roberto e Eramos Carlos, “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”, black, 70’s e Nasi.
O dono do disco afirma que esse não foi um produto pensado para tocar em rádios e vender milhões. “Não é pop, não é o que vende. É o que eu fiz, cara”, diz o músico. “Onde Os Anjos” pode não chegar às paradas ou ganhar disco de ouro, mas merece ser apreciado e compartilhado do começo ao fim. Sejamos bem-vindos ao mundo do Wolverine brasileiro.