Tribuna do Leitor

Rocinha e Bauru


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Os maiores cegos são os que insistem em não querer enxergar!

A cada vez que uma realidade do nosso cotidiano vem à tona em forma de matérias vindas da nossa imprensa escrita, falada ou televisionada, igual à recente e polêmica sobre os meninos do tráfico exibida no Fantástico da Rede Globo, veio a mexer com os sentimentos de toda uma sociedade, de forma assustadora e depois de ouvir os depoimentos espantados de alguns deles, deixou-me a impressão de que os mesmos estavam fora da terra há anos. E só agora estariam retornando à mesma, e não haviam assistido nada igual até aquele momento.

Eu trabalho há algum tempo como autônomo ou informal, como queiram, e nas minhas idas e vindas faço meus trajetos quase sempre à pé, e sempre que posso e a ocasião me permite, gosto de repor as energias respirando um pouco do ar puro que ainda resta no bosque da comunidade, ou admirando as paisagens refletidas nas águas do parque Vitória Régia.

E já faz muito anos que traço quase que os mesmos percursos e, além das coisas belas e saudáveis que ainda existe em nossa cidade, como as nossas fachadas com arquitetura pouco admiradas, nossas praças que, apesar do abandono no qual as mesmas se encontram, ainda se podem encontrar muito romantismo e inspiração. Temos por outro lado uma realidade nua e crua que apesar dos apelos junto as nossas autoridades e governantes insistem em não enxergar.

No começo de 2004 eu, em matéria feita através da 94,5 FM, denunciava os riscos que poderiam ocorrer com o abandono e os descasos de nossas autoridades para com nossas favelas. Na ocasião até comparei com uma futura “Rocinha”, a qual não havia nascido daquele tamanho, mas graças ao descaso e a vista grossa de modo geral, fez dela hoje a maior favela da América Latina, em todos os sentidos, do bem e do mal. Após a apresentação da matéria pela TV denominada “Falcões meninos do tráfico”, presidente, juiz, promotores, e até ministro da justiça demonstram-se assustados com a situação, e com igual espanto ouvi recente de um delegado de Bauru afirmar em entrevista, que não sabia da prática de prostituição infantil nas proximidades do parque Vitória Régia.

Nossa polícia ainda não sabe do consumo excessivo de drogas por nossas crianças, maconha, crack, colas, solventes além de álcool e outras mais consumidas pelos nossos menores de rua, os quais nos assediam diariamente nos sinais de trânsito, praças, em frente a restaurantes, lanchonetes, ou nas ruas de forma geral. Sujos, drogados com o irreparável frasco plástico contendo solvente e o tradicional paninho umedecido, com os lábios e o nariz todo queimado pelo uso constante de tal substância.

Será que sou eu a única pessoa a prestar atenção nestes detalhes, ou todos enxergam mas não querem se envolver por achar que isso não lhes diz respeito?...

Quando escrevi “A guerra dos meninos”, neste mesmo espaço, condenei o Estatuto do Menor e do Adolescente e o classifiquei de propaganda enganosa, porque não adianta dar um peixe as nossas crianças, precisamos sim é ensiná-las a pescar, só que em águas puras e cristalinas sem as poluições da demagogia e das falsas ovelhas. Eu creio que hoje 80% dos trabalhos feitos em prol da humanidade como os pobres, deficientes, viciados e mais uma porção de esquecidos pela sorte e pela sociedade, são socorridos por organizações não-governamentais, igrejas, e milhões de voluntários que hoje têm sido verdadeiros “anjos da guarda”.

Diante de uma situação cada vez mais assustadora, nós sabemos que uma andorinha só não faz verão, está na hora de abrir nossos olhos para a realidade que aí está e que comove o País inteiro e mais aqueles onde pode chegar as imagens da TV brasileira.

Agora o que nos resta é unir a sociedade de uma forma geral sem ignorar a atual e preocupante situação, juntando as autoridades federais, estaduais e municipais, e entrar a fundo no foco de tudo isto, porque as tempestades naturais que assolam algumas partes do País e do mundo, muitas vezes podem ser detectadas através de radares meteorológicos nos dando a chance de nos prevenir, só que este tipo de tempestade que está prestes a cair sobre nossas cabeças, sem exceção, infelizmente não pode ser detectada pelos radares do IPMet e sim pelos olhos atentos e a consciência de cada um porque só assim quem sabe no futuro podemos nos isentar da culpa pelos danos os quais ela venha a causar.

Claudionor Pedroso - autônomo - RG 13.908.437

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