Brasília - Ex-tesoureiro de campanha do PT e presidente do Sebrae, Paulo Okamotto se negou ontem, em acareação na CPI dos Bingos, a abrir seu sigilo e a falar sobre o pagamento que fez de uma dívida de R$ 29,4 mil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o PT em 2004. Chamado de “homem do Lula” e “capa-preta” pelo economista Paulo de Tarso Venceslau, a quem chamou de mentiroso, Okamotto negou ter cuidado das finanças de Lula. “Nunca cuidei das finanças de ninguém”, disse.
Amparado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), Okamotto se recusou a abrir seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, levando senadores de oposição a dizer que ele pode comprometer Lula. Ele disse que “vai refletir”, mas não quer que seja por pressão da CPI.
O pedido mais enfático para que Okamotto abrisse seu sigilo foi do senador José Agripino (PFL-RN). “Você está puxando o seu presidente para baixo como partícipe de um esquema escuso. Limpe a barra dele e abra as suas contas.” E continuou: “Eu queria que o senhor chamasse de mentiroso quem suspeita que o dinheiro que pagou as contas de Lula tenha vindo do “valerioduto’”. Okamotto respondeu: “Ele (Agripino) manifestou uma opinião. Eu respeito e vou refletir sobre ela”.
Venceslau, que foi expulso do PT no fim da década de 90, também acusou Okamotto de pressioná-lo para deixar de fazer denúncias contra a CPEM - empresa que teria como sócio o empresário Roberto Teixeira, compadre de Lula. Na época, Venceslau era secretário das Finanças da Prefeitura de São José dos Campos (SP).
Misturando uma série de denúncias do passado, o economista acusou Okamotto, à época sem cargo na direção do PT, de também tentar arrecadar recursos irregulares para o partido em prefeituras petistas. Segundo Venceslau, ele percorria administrações para obter listas de fornecedores que poderiam ser eventuais doadores para o partido.
Para respaldar a afirmação de que a empresa do compadre de Lula daria recursos ao PT, Venceslau citou uma conversa que disse ter tido com Okamotto em 3 de setembro de 1993. No diálogo, o petista teria dito que a segunda Caravana da Cidadania -viagens pré-eleitorais feitas por Lula- poderia não ser realizada porque a CPEM havia parado de repassar recursos à legenda.
“Mentiroso”
Okamotto negou tudo. Disse que a conversa não existiu e que nunca foi escalado para fazer contato com fornecedores de prefeituras. Chamou várias vezes Venceslau de “mentiroso”.
Especificamente sobre a visita a São José dos Campos, o presidente do Sebrae disse que esteve na cidade em 1993 para discutir questões partidárias com a prefeita recém-eleita Ângela Guadagnin, deputada federal pelo PT-SP que comemorou dançando no Congresso a absolvição de um deputado “mensaleiro”. Em tom exaltado, Okamotto afirmou que a versão de Venceslau é “fantasiosa”. “O senhor mente. Delira. Mente. Essa conversa nunca houve”, afirmou o presidente do Sebrae. Venceslau rebateu. “Houve e vou afirmar pelo resto da vida. Vocês foram constrangidos a montar uma comissão para apurar o caso. Durante quatro anos era proibido falar em CPEM no PT”, disse Venceslau, referindo-se a uma investigação instalada em 1997 pelo PT paulista para apurar as denúncias feitas por ele.
O economista apontou Okamotto como “algoz” na sua demissão da secretaria em São José dos Campos. Ele relata que, na época, Ângela Guadagnin alegou que tinha de demiti-lo por ordem de Okamotto. A deputada encaminhou, por meio do senador Tião Viana (PT-AC), uma carta à CPI elogiando Venceslau, mas afirmando que ele foi exonerado, em setembro de 1993, por “relacionamento difícil com vereadores, o que acabou provocando desentendimentos”.
Ao tentar credenciar sua versão de que Okamotto atuava em prefeituras petistas, Venceslau citou a contratação da agência de publicidade Contexto pela administração de Guadagnin, em 1995, que foi alvo de investigação na Câmara.
Contratada sem licitação por R$ 5,8 milhões (aditado em mais 25%), a Contexto subcontratou uma organização chamada TVT, fundada por dirigentes petistas. Segundo o economista, entre esses petistas estão Lula, Okamotto, o ex-deputado José Dirceu, Luiz Gushiken e o ex-tesoureiro Delúbio Soares.