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Algumas verdades sobre segurança


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Um dos temas principais da campanha eleitoral deste ano será mais uma vez a segurança pública. Ou melhor: a insegurança pública. A maioria dos políticos acredita que segurança se faz comprando carros, armas e munições. Quem mora nas capitais e grandes cidades costuma assistir - sempre no fim dos mandatos, diga-se - ao tradicional desfile de viaturas com luzinhas piscando, quase sempre com o governador à frente do cortejo.

Há tempos se instituiu no Brasil a cultura de que o equipamento é mais importante que o homem e viatura zero quilômetro dá voto. Equipar a polícia é obrigação do estado. Mas não se pode imaginar que só isso fará diminuir a criminalidade.

Aqui em Brasília existem alguns especialistas em segurança pública respeitadíssimos, como o deputado Moroni Torgan (PFL-CE) e o ex-governador Luiz Antonio Fleury (PTB-SP). Ao contrário da maioria dos políticos, eles têm difundido a crença de que o mais importante são os homens e não as máquinas. Moroni sempre brigou pela valorização profissional e Fleury deu aumento de 118% aos policiais de São Paulo – o maior da história.

A melhor segurança pública é resultado do investimento no capital humano das corporações, seja a Polícia Civil ou a PM. Hoje, com salários ridículos, morando precariamente – muitos são vizinhos dos bandidos – e sem qualquer perspectiva de crescimento profissional, a atividade policial tornou-se um caminho fácil para a corrupção. Infelizmente nada tem a perder o tira que ganha mal, vive mal, não tem condições de dar boa educação aos filhos e, pior dos mundos, se morrer em serviço a família estará desamparada.

O desprezo do estado brasileiro pelo profissional de segurança pública gera mais prejuízos do que ganhos para a sociedade. O quadro só mudará se mudarem as prioridades. É preciso, por exemplo, criar fundos de pensão nos moldes daqueles operados pelos funcionários de grandes estatais, para os quais os policiais contribuirão com parcela do salário garantindo aposentadoria digna. Eles devem ter seguro de vida, incluindo bolsa de estudos para filhos até o fim da universidade. Com fundo de pensão e seguro, o profissional saberá que sua família estará amparada, caso ele morra no cumprimento de sua missão. Se sair da linha, terá muito a perder.

Agora um ponto fundamental: é preciso plano de carreira com salários dignos e que privilegie o mérito, seja pela capacidade intelectual, seja por bravura. Polícia de qualidade é resultado de investimento em educação, aperfeiçoamento profissional e ordenados atraentes.

Policial que vive na favela ou vizinho dela, vulnerável a todo tipo de ameaça e chantagem, não tem condições de fazer segurança pública decente. Numa relação de total hipocrisia, ele finge que trabalha e o estado finge que lhe paga. Em São Paulo, Brasília e outros estados, o policial usa carro zero, com ar condicionado e, quando larga o serviço, vai para casa de ônibus. Na maioria das vezes falta dinheiro para pagar contas e comprar comida. E o policial é obrigado a fazer bicos para reforçar o orçamento. Trata-se, portanto de resgatar a cidadania dos homens e mulheres que servem nas corporações policiais.

A moralidade é irmã da dignidade. A realidade mostra que em qualquer parte do mundo a qualidade do serviço de segurança é conseqüência das condições de trabalho oferecidas pelo governo. Se o eleitorado não cobrar a inversão das prioridades, os governantes continuaram gastando muito com máquinas e pouco com os homens. E continuaremos convivendo com nossa insegurança pública de cada a dia.

O autor, Marcelo S. Tognozzi, é jornalista e consultor político em Brasília

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