As manchetes dos jornais do último dia 12 superaram a CPI do ‘mensalão’ ao anunciar a decisão do procurador geral da República, de denunciar ao STF 40 pessoas de integrarem “organização criminosa comandada pelo ex-ministro José Dirceu e pelos petistas José Genoino, Delúbio Soares e Silvio Pereira”. Entre os crimes apontados estão lavagem de dinheiro, desvio de dinheiro público por servidor e corrupção ativa. Embora ainda dependa da aceitação da denúncia pelo tribunal e do seu julgamento, se for aceita, o fato real é que ruiu, de forma decepcionante, o governo petista, que tanta esperança havia criado nas classes mais humildes. Só se salvou, por enquanto, o presidente Lula, porque, como escreveu um articulista, o povo, povo, ainda vê nele um seu igual, que fala a sua linguagem, que coloca qualquer chapéu na cabeça e apeá-lo do poder agora, poderia causar uma comoção social. Por isso está sendo poupado.
Agora vem a campanha para as eleições com velhas figuras, muito conhecidas por coisas semelhantes a essas, a se unirem com outras que estão trilhando o mesmo caminho, tentando criar em nós a esperança ou, quem sabe, mais apropriadamente, tentando fazer-nos crer que eles vão mudar para melhor. Assim foi quando, sob os efeitos do fim da guerra, terminou a ditadura do Getúlio e o país voltou ao regime democrático, com a eleição de Eurico Dutra. As dificuldades que o governo Dutra viveu, em conseqüência da própria guerra, propiciaram que Getúlio voltasse ao poder, por eleição, porque ele ainda encarnava a esperança. Mas nem ele agüentou e suicidou-se.
Após um período de turbulência vem Juscelino e a construção de Brasília não podia escapar da corrupção, pelo próprio vulto do empreendimento, abrindo caminho para o ‘homem da vassoura’. Mas Jânio não conseguiu varrer a sujeira e renunciou. O país entrou em caos e os militares, sob a alegação de evitar o domínio comunista, tomaram o poder. O início, com Castelo Branco, gerou otimismo e o povo se mobilizou patrioticamente com a campanha ‘ouro para o bem Brasil’, que arrecadou, só em São Paulo, 400kg de ouro e mais de meio bilhão de cruzeiros.
No fim o regime militar deu no que deu e veio a ‘campanha das diretas já’. Governo militar nunca mais. O povo se encheu de esperança e elegeu Tancredo mas o destino nos legou Sarney. Nova frustração e aí aparece o cavaleiro da esperança, Fernando Collor de Mello, acompanhado do P.C. Faria, que ficou como símbolo da corrupção. Felizmente foi defenestrado e assumiu Itamar, que criou condições para a meia esquerda dos contestadores do regime militar assumir o poder com Fernando Henrique Cardoso. Lula, três quartos esquerdista, vinha tentando até que o povo em maioria acreditou e o elegeu.
E assim, de esperança em esperança, vamos nos enganando, porque não são eles que nos enganam, somos nós que acreditamos, não no que eles dizem, mas que eles poderão realizar o nosso desejo de ver o Brasil em situação melhor. É o auto-engano, analisado pelo professor de economia, e também filósofo, Eduardo Giannetti da Fonseca, em seu livro “Auto-Engano”. Diz ele: “O dom de mentir para si mesmo pode ajudar a manter a chama da vida acesa nos momentos em que a sobrevivência está por um fio.
O doente grave ou terminal que entrega os pontos e se rende por completo à probabilidade avassaladora da morte iminente está praticamente morto. Mas o doente que, apesar de toda evidência em contrário, sustenta no íntimo de sua alma a convicção cega, firme e inabalável de que vai conseguir vencer o mal parece aumentar as suas chances objetivas de recuperação.” Mantenhamos a nossa esperança mas saibamos votar nas próximas eleições.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru