Geral

Piano ajuda a melhorar auto-estima dos abrigados na Casa da Criança

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

Um piano antigo, doado anonimamente há alguns meses, está ajudando a transformar o cotidiano de vários abrigados da Casa da Criança. A música, ingrediente pouco comum no cotidiano desses meninos e meninas, está servindo de instrumento para ajudá-los a resgatar, pelo menos em parte, suas histórias marcadas por dor e sofrimento.

“Fico feliz em saber que a doação serviu para uma ação positiva, mas não quero divulgar isto, foi uma coisa de alma, íntima”, limita-se a dizer o doador do piano.

O fato é que, ao chegar na Casa da Criança, o piano salvou a aula de musicalização que estava prestes a acabar por falta de um espaço adequado. A professora Ana Beatriz Trovarelli tinha iniciado, sem nenhum instrumento, um projeto para iniciar as crianças no universo musical.

Sem um espaço adequado, Beatriz estava quase desistindo das aulas, pois não via como despertar o interesse das crianças. Com a doação do piano abriu-se uma outra perspectiva. Conseguiu-se uma sala onde funcionava o antigo lar dos idosos. A solução tinha sido encontrada. Silvia Previdello, outra voluntária, se juntou a Beatriz para ensinar piano.

“O projeto era bom, mas acontece que as crianças tinham aula no espaço onde moram. Isto fazia com que não valorizassem o que estava acontecendo”, conta Beatriz. A professora avalia que sair de onde moram, se arrumar para assistir a aula, mesmo que seja do outro lado da rua, dá outro significado para aquilo que estão fazendo. “As crianças têm outra motivação”, afirma.

Com o novo espaço, a coordenadora da Casa da Criança, Lurdinha Terezinha Carvalho, de férias da instituição, sugeriu, segundo Beatriz, o que passaram a chamar de “metodologia da motivação”. “As crianças participariam das aulas de piano e musicalização por merecimento.”

Para tanto, elas teriam basicamente que adotar uma série de atitudes positivas básicas: ir à escola, manter notas boas, ter um autocuidado com higiene, se vestir adequadamente. As que aceitaram o desafio e freqüentaram a aula, gostaram e contaminaram as outras, que aos poucos foram cedendo às “condições” para participação.

O resultado foi tão positivo, segundo Beatriz, que em menos de dois meses já estava montado um programa com diversas atividades. “Sempre com a metodologia da motivação, as crianças passaram a ter atividades de leitura, artesanato, evangelização infantil, culinária e informática.

Tudo isso foi possível, segundo Silvia, porque o projeto com o piano e a musicalização funcionou. “Isto significa que as crianças passaram a querer fazer a aula, a se empenhar para isto. Este é o grande desafio, despertar este desejo nas crianças”, explica Silvia.

Auto-estima

O objetivo principal das professoras Ana Beatriz Trovarelli e Silvia Previdello é conseguir através da musicalização ajudar as crianças abrigadas a voltarem a acreditar em si mesmas, na sua capacidade de criação. Beatriz conta que a satisfação de cada criança ao conseguir tirar um som do piano é plena.

“Elas vêem que conseguem, que é possível aprender. Tentamos ajudá-las a transportar esta experiência para outras coisas que acham que nunca vão conseguir”, conta Beatriz. “Eu não gosto de matemática, por exemplo, mas porque você não gosta? Por que eu não sei. Mas o piano você também não sabia e aprendeu....”, exemplifica.

As conquistas são muitas e no plano da subjetividade. “Não estamos preocupadas em preparar estas crianças para fazer uma apresentação de final de ano, mas sim em ajudá-las a entrar em contato com suas potencialidades”, afirma a professora.

Neste sentido, já podem enumerar alguns sucessos. Silvia conta que através das aulas de piano algumas crianças, que já estão na 3.ª série, por exemplo, estão vencendo dificuldades de leitura, escrita e coordenação motora.

Silvia ressalta também as mudanças de comportamento. “As crianças estão menos agitadas em aula, há mais harmonia e até mesmo a postura no andar melhorou’, conta. Porém, as voluntárias concordam que a grande conquista é a melhora na auto-estima. “Isto porque a música que tiram do piano é algo que elas produziram, elas fizeram”, afirma Sílvia.

Comentários

Comentários