Não é de hoje que se critica o fato de o caráter comercial e consumista transformar-se em prioridade durante datas festivas e religiosas em detrimento dos reais significados histórico-culturais de eventos como a Páscoa e o Natal. Entretanto, para o filósofo e professor Fausi dos Santos, da Universidade do Sagrado Coração (USC), nunca essa triste característica esteve tão exacerbada quanto na sociedade contemporânea.
Em entrevista ao JC, Santos revela que o chamado “processo de dessacralização” iniciou-se há vários séculos e atingiu, atualmente, um momento sem precedentes na história da humanidade, gerando conseqüências nefastas às sociedades, como a perda de identidade do homem e de seus valores humanos.
Além disso, ele também analisa a polêmica divulgação do “novo” Evangelho de Judas, que em tese o “inocenta” da traição a Jesus, e as afirmações da obra “Código Da Vinci”, que acusa a Igreja Católica de esconder a “verdadeira” história de Cristo, figura cuja existência também é debatida por Santos.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
JC – Você acha que as pessoas estão esquecendo do verdadeiro sentido da Páscoa, assim como no Natal, em nome do consumismo?
Fausi – Com certeza. Vivemos um momento de dessacralização do fato religioso e das festas religiosas sem precedentes. Isso é um fato que temos já a partir dos séculos XVI e XVII com o Renascimento, quando, com o fim da Idade Média, do teocentrismo e o pulular do Renascimento, da ciência e do antropocentrismo, tenta-se tirar muito dessa religiosidade e colocar no lugar a razão, o pensamento e a ciência.
Quando se tem festas como a da Páscoa, que é antecedida pela Quaresma, digo que todas as religiões do mundo possuem períodos onde convidam seus fiéis a parar, refletir sobre sua existência, vida, família e trabalho. Isso não é apenas o cristianismo que coloca, pois a Páscoa antecede o próprio cristianismo. Ela é uma festa judaica, só que para o judeu tem outro significado, que é o da libertação do povo de Israel da escravidão no Egito. Já para os cristãos, é a libertação de toda a humanidade pela ressureição de Cristo.
E esse tempo de parada que todas as religiões convidam seus fiéis a fazerem é um período reservado para as pessoas se renovarem, converterem-se, fazerem um balanço sobre sua vida e existência e buscarem forças para continuar caminhando. É um processo de autoconhecimento que estamos perdendo hoje com a dessacralização.
JC – E quais são as conseqüências desse processo de dessacralização?
Fausi – É o homem se tornar um estranho para si mesmo. Quando você não tem tempo para parar e refletir sobre sua própria vida e existência, questões existenciais, como o sentido da vida, perspectivas de futuro e projetos, passam a ser pulverizados e aí o homem cai em um grave problema de não saber quem é ele próprio.
O que falta ao homem de hoje é pensar em sua existência. Só que a realidade que vivemos hoje com a dessacralização não dá chance ao homem para se renovar e o coloca em uma busca desenfreada pelo materialismo e consumismo, como o fato de converter a Páscoa apenas em ovos de chocolate e presentes. Como vivemos em um mundo onde tudo é igual sempre, caímos em uma rotina em que coisas pequenas tornam-se muito importantes, anulando valores que são importantíssimos em nossa vida e jogando tudo pela janela para acompanhar a evolução. Tudo muda e deve mudar, mas há coisas no interior do homem que devem permanecer e uma delas é aquilo que dá sentido a sua existência. Para o homem da Idade Média, o sentido de sua vida era Deus e tudo girava em torno do teocentrismo. Para o renascentista, tudo passa a girar em torno do próprio homem e da ciência. E, a partir do século XX, com as duas grandes guerras mundiais, caímos em uma crise da ciência que se prolifera para uma crise existencial em que hoje o homem não tem o sentido onde possa depositar sua existência. O que o homem procura, atualmente, são bases oferecidas pela sociedade capitalista onde possa depositar sua vida e existência, convertendo-o em um estranho para si mesmo, onde a moda agora é importante: Amanhã é determinada comida, depois é uma vestimenta.
Isso é terrível e vem contaminando as religiões. Os novos movimentos religiosos espiritualistas vão por aí tentando dar respostas a este homem. Hoje estou nessa igreja, amanhã estou naquela, depois de amanhã estou vestindo isso, comendo aquilo e nessa busca incessante há muita gente lucrando. E o preço que estamos pagando por tudo isso é muito sério e alto, não só no cristianismo e catolicismo, mas em todas as religiões, que convidam seus fiéis a uma parada para reflexão.
JC – E isso é justamente a principal importância da Páscoa, independentemente das religiões...
Fausi – Exatamente. Para os cristãos, o ápice da Páscoa é a ressurreição de Cristo, que pensa-se ser a época para o cristão católico também celebrar sua ressurreição. Os 40 dias que ele passou em jejum, refletindo e fazendo uma auto-análise fazem com que chegue na Páscoa totalmente renovado e possa celebrar a data em seu verdadeiro sentido. A palavra Páscoa significa “passagem”, ou seja, que o cristão possa passar nessa festa por uma renovação em sua vida e existência. Mas hoje temos um cenário onde os pais superprotegem os filhos para que os mesmos não convivam com as mazelas da sociedade, pois todo pai e mãe quer o melhor para o filho. Mas se o indivíduo não aprende a levantar por si mesmo, quando cai é muito perigoso porque nunca aprenderá a tomar as decisões por si mesmo. E é isso que estamos vivendo hoje com uma geração de “adultescentes”, que são adultos com manias de adolescentes.
JC – Explique esse conceito “adultescentes”...
Fausi – A Suzane von Richthofen (acusada de ser a mentora da morte dos pais) é um exemplo claro. É uma menina que, desde a infância, sempre teve tudo e em seu universo psíquico o “não” nunca imperou. Quando cresceu e teve um primeiro relacionamento que desagradou aos pais e a palavra “não” surgiu, ela não soube administrar esse “não” e acabou fazendo o que fez. Ela personaliza bem o cenário que vivemos hoje, com uma sociedade composta por pessoas profundamente despreparadas para assumir sua existência plenamente. Quando se tem algum problema, muitas pessoas sempre delegam aos outros a responsabilidade em vez de assumir suas próprias responsabilidades.
JC – Você acha possível mudarmos esse cenário ou a sociedade já se rendeu definitivamente aos apelos do consumismo e materialismo?
Fausi – Sou otimista e penso sim que é possível através do resgate dos valores humanos e familiares pela educação com políticas públicas que emancipem as pessoas. A educação é a única forma do indivíduo conscientizar-se de seu papel no mundo e na sociedade. Se vemos hoje uma sociedade alienada em que as pessoas fazem coisas e não têm plena convicção disso, é por falta de educação e ignorância.
JC – O mundo tem assistido à polêmica sobre o “novo” Evangelho de Judas. Qual sua real importância para os estudos teológicos e da religião católica?
Fausi – Todos os achados arqueológicos, principalmente aqueles em Qumrã, na década de 30 e 40, levantaram muita polêmica em torno do Cristo histórico. De forma geral, não temos muitos documentos e relatos históricos que falam da vida de Jesus por uma questão muito simples. Ao pegar os Evangelhos, que são livros de fé e, como tais, os evangelistas queriam falar dos feitos de Jesus, eles estavam tão profundamente convencidos que Jesus existiu que não ficavam atentos a uma apologia da existência de Jesus, mas muito mais em passar seus ensinamentos e mensagens que ele trouxe. E Qumrã, que é um conjunto de cavernas próximo ao Mar Morto, revelou muitos fragmentos que ajudaram os arqueólogos a montar um cenário da época de Jesus, como era a sociedade nessa época e chegar, através dos fragmentos, até o século segundo antes de Cristo. Para mim, o achado agora dos textos de Judas vem complementar, como o evangelho de Timóteo, algo que ajuda a contextualizar a época de Jesus. Mas são textos que não podemos afirmar que mudarão a história do cristianismo ou de como se vê Jesus. Isso é muito difícil, uma vez que são textos muito fragmentados que não possuem teor historiográfico para dar essa sustentação.
JC – Então, essa descoberta não colocaria a Bíblia ou o próprio catolicismo em xeque?
Fausi – Acredito que não. Todos esses textos encontrados ajudam a contextualizar Cristo, a sociedade de sua época e criar algumas polêmicas, talvez em torno dessas estruturas sociais da época de Cristo, mas não que vá levar a instituição católica ou a figura de Cristo para crises. O que acredito é que ainda há muita coisa a ser encontrada.
JC – O que, por exemplo?
Fausi – Há muita coisa a ser descoberta, mas o que é algo que nem mesmo os arqueólogos saberiam dizer. Mas acredito que poderiam ser textos e fragmentos de cunho catequético que eram utilizados pelos evangelizadores da época, como notas. Os evangelistas, na construção dos evangelhos, utilizaram muitas fontes, que chamamos de catequéticas. Uma delas é a de Didaqué, um escrito que antecede até os Evangelhos, que eram relatos feitos pelos primeiros evangelizadores a respeito de Cristo.
JC – Esses documentos a serem encontrados dariam ainda mais sustentação à existência de Cristo?
Fausi – Exato. O que temos hoje são os relatos de Flávio Josefo, que é um historiador judeu, de um historiador romano chamado Tássito e de outros. Todos são nomes importantes porque não eram cristãos, mas para os historiadores é suficiente para contextualizar esse Cristo histórico e atestar que ele existiu e não foi algo forjado por um grupo de cristãos que queriam fazer com que uma seita se tornasse uma religião. Na época em que Cristo existiu, muitos messias existiram com ele, pois a promessa do Messias é uma promessa judaica e esses ainda hoje o esperam.
Quando Jesus nasce e depois se proclama filho de Deus, ele não era o único Messias. Cristo foi mais um entre tantos, mas seu diferencial foi o histórico do nascimento, a pedagogia aplicada em sua pregação e o contato com as pessoas, coisas que outros não tinham.
JC – Esse é um dos argumentos utilizados pelos ateus para justificar sua linha de pensamento, bem como citar o fato de que a Bíblia seria um livro idealizado em diversas interpretações que dariam margem à construção de uma imagem forjada de Cristo...
Fausi – Isso é uma das polêmicas que se levantam. Outra aventada é se isso tudo não foi criado pelos primeiros cristãos a fim de estabelecer uma instituição. Particularmente, não acredito nisso e sim que essas pessoas estavam profundamente convencidas de que um grande evento tinha acontecido e, em vista desse evento, elas estavam comovidas. Isso causou nelas uma ruptura de nível quanto a sua existência, vida e história e elas tentavam testemunhar essa experiência e repassar para as gerações futuras. E como a tradição oral é forte, não somente no mundo judaico como também em todos os povos antigos, uma de suas qualidades é a veracidade e a confiabilidade.
Por isso, não diria que foi se utilizado desse evento para se criar uma religião ou imagem. Acredito que Cristo realmente existiu e as bases históricas que temos, mesmo que poucas, são suficientes para atestar sua existência. Agora, os Evangelhos são muito mais relatos de experiências e testemunhos de pessoas que acreditavam piamente na existência de Cristo. Além disso, nenhum evangelista viu Cristo, como Marcos, Mateus, Lucas e João, não foram testemunhas oculares de Jesus, mas estavam convencidos do evento Cristo.
JC – O que você pensa do livro “Código Da Vinci”, que acusa a Igreja de esconder a verdadeira vida de Cristo?
Fausi – O autor (Dan Brown) utilizou de algumas coisas reais e polêmicas existentes dentro da Igreja e sobre elas criou um universo paralelo fantasioso. Sou muito cético ao que o livro, e agora até o filme, coloca. É muito perigoso pegar um desvio histórico, seja de qual instituição for, e, através de uma instrumentalização, usar para determinados fins. Isso é o que acontece com o livro, pois ele se utiliza de alguns desvios da Igreja para criar polêmicas sobre eles com algumas instrumentalizações, que é você pegar algo real, manipular e colocar um fim específico. Por isso, não dou confiabilidade.
JC – Então você concorda com a posição da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que afirmou que o livro deveria ser considerado uma mera obra de ficção?
Fausi – Sim. Como elemento de ficção e um livro para se ler em uma viagem, é muito interessante. Acredito que deva ser lido e que devamos ter acesso à obra, mas as pessoas têm de ser esclarecidas à medida em que se iniciam confusões e as pessoas, por não terem base cultural mínima, acabam confundindo as coisas ao pegarem elementos de ficção, trazerem à realidade e transformarem como verdades. É perigoso utilizar-se dessas bases, pois não são bases historiográficas e científicas, mas sim ficcionais. Assim, devemos apreciar o livro e o filme apenas como arte, não como dados científicos.
Perfil
Nome - Fausi dos Santos
Data de Nascimento - 7/4/1977
Naturalidade - Iacri (SP)
Idade - 29 anos
Estado civil - Solteiro
Profissão - Filósofo e professor
Hobby - Leitura
Time do coração - Santos
Cor preferida - Verde
Para que ou quem daria nota 10
“Para o Marcos Pontes, por sua ousadia e espírito livre.”
Para que ou quem daria nota 0
“Para o atual cenário político nacional, que prima pela falta de ética e sensibilidade humana.”