Saúde

Estresse na escola

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Assim como Ana, muitos profissionais convivem com o estresse, condição humana que em excesso pode desencadear um estado máximo de tensão, levando à ruptura no equilíbrio interno do organismo. Quando a pessoa não consegue administrá-la, o processo favorece o desenvolvimento de doenças, explica Sandra Leal Calais, doutora em psicologia e professora de terapia comportamental. “A maioria das profissões que trabalha ou precisa ter contato com outras pessoas tem essa condição de estresse”, diz.

O magistério ocupa lugar de destaque nesse ranking, aponta Calais. “O professor convive com muitas pessoas diferentes e tem um objetivo que precisa cumprir, o ensinar. Esse trabalho implica na participação de outros indivíduos, entre eles os alunos. Além da pressão da direção cobrando seu serviço, na maioria das vezes o professor recebe baixo salário e precisa levar trabalho para casa, entre eles preparar aulas e corrigir provas.”

Muitos desses fatores estão contribuindo para o desequilíbrio da saúde física e mental dos docentes. É o que aponta pesquisa realizada pelo doutor em psicologia e especialista em psicologia organizacional do trabalho Edward Goulart Jr., que buscou identificar a presença do estresse entre professores de primeira à quarta série do ensino fundamental de Bauru.

Participaram do estudo 12 das 14 escolas da rede pública estadual que oferecem ensino fundamental na cidade. De acordo com Goulart Jr., das 175 professoras participantes, 99 delas - o que representa aproximadamente 70% da classe - estão estressadas. Segundo o autor da pesquisa, grande parte das docentes do ensino infantil considera que o comportamento dos alunos é o principal fator de estresse. “Para 64% das professoras estressadas, a indisciplina tem forte impacto em seu equilíbrio emocional, contribuindo para a presença do estresse na categoria Professor de Educação Básica (PEB 1) do município”, observa.

Professora do ensino infantil há 20 anos, Sandra Regina Ribeiro Moreira da Silva, concorda com Goulart Jr. “O que mais nos deixa estressada é a indisciplina. Infelizmente as crianças perderam o respeito pelo professor, muitas vezes por conta da falta de comprometimento das famílias, que acabam ‘jogando’ a responsabilidade para a escola”, diz. Ana tem a mesma opinião da colega de profissão. “O comportamento dos alunos e a figura do professor, que precisa ser respeitada, mudou muito. Acredito que isso vem da falta de educação dada no seio familiar e que foi passada para a escola. Concordo que o mestre não deve se portar como o dono do saber e precisa se aproximar do aluno. Mas no momento em que está ensinando ele preciso ser respeitado”, defende.

Para a diretora regional de ensino de Bauru, Vera Nilce Jarussi Gomes de Sá, a questão da indisciplina em sala de aula está relacionada à diversidade na criação de cada criança. Ela reforça a necessidade do comprometimento da família no desenvolvimento educacional. “Os alunos têm de ir para a escola com um comportamento razoável no vestir e no falar. Os pais devem orientar e serem parceiros da escola o tempo inteiro”, defende.

Estrutura

Além da indisciplina, fatores como inadequação de salário, número excessivo de alunos em sala de aula, sobrecarga horária, falta de equipamentos para o trabalho e ambiente físico da escola foram apontados na pesquisa como causadores de estresse. De acordo com Vera Nilce, grande parte dos problemas estruturais das escolas públicas serão sanados em breve. “Nosso orçamento foi aprovado e neste mês de abril vamos consertar cadeiras e repor torneiras que foram roubadas, entre outros materiais.”

O movimento de inclusão social na educação é outro aspecto citado pelas docentes e que pode contribuir para o desequilíbrio físico e emocional, acrescenta Goulart Jr. Ana compartilha da mesma opinião apontada na pesquisa. “Não sou contra à inclusão, pelo contrário, sou muito à favor, mas não da maneira como ela é feita porque não prepara o aluno nem o professor. É uma inclusão apenas social, de convivência. Isso causa estresse para o docente porque ele fica de mãos atadas. Precisa administrar a sala e esse aluno (do movimento inclusionista) e às vezes ele não foi treinado para isso”, opina. “Já tive alunos inclusos com sucesso, mas antes ele foram preparados pedagogicamente pela classe especial para entrar na sala comum. O que acontece é que hoje, muitas vezes, o aluno vem direto para a sala comum e conta apenas com uma sala de recurso para aulas de reforço.”

Vera Nilce rebate e diz que os professores estão sendo chamados - por meio de uma parceria com o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP Centrinho/Funcraf - para receber orientações para lidar com alunos portadores de necessidades especiais. “Muitos já fizeram o treinamento nos anos anteriores e agora em abril começamos esse trabalho novamente.”

* Nome fictício a pedido da entrevistada

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