Em vez de comer o bacalhau da sogra eu é que tive que ir para a cozinha na Sexta-feira da Paixão. Até que me dei bem... O lado negativo foi queimar os dedos no forno com as batatas ao murro. Quando a publicação do meu artigo dominical cai numa data de porte, como é a Páscoa, parece que me vejo na obrigação de escrever sobre a efeméride. O duro é que a única novidade surgida com relação aos personagens da Semana Santa foi esse Evangelho de Judas, registrado em escrita copta em antiqüíssimos pergaminhos. Depois de quase dois mil anos de malhação, corremos o risco de ter que reabilitar o traidor cujo nome ninguém nunca ousou utilizar, nem no cachorro do vizinho.
Lavo as mãos, como Herodes. E não venha me dizer que Herodes nunca lavou as mãos. Ele era inimigo de Pilatos e, para complicar, o adversário encaminhou-lhe Jesus com uma túnica vermelha, a veste dos reis. A turba preferiu que Barrabás fosse solto e condenou Jesus. Aí, sim, Pilatos lavou as mãos como a se eximir de responsabilidade. “Fazer como Pilatos” significa, há muitos séculos, não ter nada com isso. Assim como o nosso presidente.
No Evangelho de São Lucas está escrito que “Herodes e Pilatos, que até ali eram inimigos, tornaram-se amigos naquele dia”. Hoje, “ir de Herodes a Pilatos” é ficar indeciso frente a um problema e empurrá-lo a um e outro como se não fosse o responsável original. “Quem pariu Mateus que o embale”, costuma responder o circunstante que não quer aborrecimentos com problemas por ele não criados. Acontece que Mateus, apóstolo e evangelista, era arrecadador de impostos, antes de ser chamado por Jesus. Quando aparecia em alguma cidade da Galiléia os comerciantes sabiam que vinha chumbo grosso. Os devedores recalcitrantes eram obrigados a cortejar o fiscal antes mesmo que apeasse do jumento já que tinham provocado a viagem de inspeção.
Além da bacalhoada passei a Semana Santa lendo e ouvindo algumas músicas dos anos 50/60, embalado pelo CD que o meu meio-xará Zarci me deu, com os temas da mini-série “JK”. Confesso que as letras, apesar de cafonas, acendem o abajur lilás dos meus sentimentos. Voltar a sentir a boca molhada, para sempre marcada pelos beijos teus evocam saudades da boneca cobiçada. Mas, nem só de dor-de-cotovelo vive o homem. Quando Dick Farney lançou “Alguém como tu” eu era garoto e já trabalhava como operador de som na rádio de Marília. Meu amigo Bertonha, italianinho englostorado do bairro, havia levado o fora da Rose, filha do português da padaria (seria um pleonasmo?). Expert nos “hits” do momento, tracei uma estratégia para tirar o amigo da deprê com um investimento de baixo custo. Bertonha topou comprar o 78 rpm do Dick Farney no Palácio do Disco, mandou embrulhar para presente e foi entregar a ‘bolacha” no portão da casa da razão dos seus ais, ao lado da padaria. Afinal, “alguém como tu, mais ninguém”. O samba-canção haveria de mexer com o emocional da garota a ponto de reacender a velha chama...
O disco mexeu mesmo com a Rose. No que abriu o envelopão carmim e leu o título lançou o disco à distância, nos paralelepípedos da rua. Bateu o portão e nem deu tchau para o pobrezinho, desenxabido. Numa noite depois da aula aconselhei-o a juntar seu amor, seus trapinhos e queimar tudo. Que ela saísse do seu caminho. Vingança. Haveria de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho do seu pra poder descansar. Bertonha até sorriu quando lhe contei que o apelido da Rose, lá no bairro, passou a ser “Discóbula”. Lembra daquela estátua do atleta grego, nu, no ato de arremessar o disco olímpico? Pois é... Só não tive coragem de dizer que, lá na vila, o Bertonha passou a ser chamado de “ÓVI – objeto voador identificado”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)