Adriana, a personagem da matéria, rejeita todas as argumentações sociológicas sobre o porquê de ter quatro filhos e um a caminho, aos 23 anos, em condições precárias de vida e num relacionamento que ela mesma já tentou romper.
O companheiro alcoólatra batia na jovem com freqüência. “Ele bebia muito, eu sempre apanhava. Quando eu estava grávida do meu terceiro filho, quase perdi o bebê”, conta. “Fui embora, disse que não voltava mais para ele”. Adriana estava determinada a acabar com o relacionamento, mas acabou cedendo aos apelos da sogra. “Foi por influência dela, que dizia como seria com as crianças pequenas, que eu voltei”.
Adriana voltou e engravidou mais duas vezes. “Não queria de jeito nenhum. Esta última até o sétimo mês eu não aceitava, devolvia as roupinhas que eu ganhava”, afirma. Maria Aparecida Barbosa Thomaz, coordenadora do grupo de gestantes do Núcleo Ferradura Mirim, do Centro Espírita Amor e Caridade, há dez anos trabalha com mulheres grávidas da periferia.
Ela conta que casos como o de Adriana são os que mais viu durante estes anos. Segundo ela, são muitas as jovens mães que antes dos 25 anos já estão com até sete filhos. Por detrás desta realidade, na avaliação de Maria Aparecida, está o machismo dos companheiros que se recusam a usar camisinha; o desconhecimento e o uso incorreto dos métodos anticoncepcionais.
“Muitas mulheres não se adaptam a um método e desistem, acham que é assim mesmo, não buscam outras formas de evitar a gravidez”, afirma. “Muitas só ficam sabendo dos vários tipos de contraceptivo quando engravidam pela primeira vez. Algumas nunca tinham ido a um ginecologista, até engravidar”.
Por mais surpreendente que possa parecer, muitas mulheres ainda são desinformadas sobre a prevenção da gravidez. “Isto acontece muito, elas precisariam ser melhor acompanhadas pelos postos de saúde”, afirma Maria Aparecida. A coordenadora do grupo afirma que a queixa de Adriana, sobre engravidar ao mudar de anticoncepcional, é comum entre as mulheres que atende.
Segundo ela, embora não tenha acompanhado “explicitamente” nenhum caso, há situações em que as mulheres engravidam como forma de escapar da pobreza. Nos depoimentos durante os cursos de gestante, de acordo com Maria Aparecida, há falas que revelam esta situação: “pelo menos com filho vai ter pensão”.
Mas na experiência de dez anos vivendo de perto a realidade da maternidade na pobreza, Maria Aparecida ainda afirma que a desinformação é a maior causa do grande número de filhos entre mães na periferia.