Bairros

Moradores do Jd. Nicéia têm aula em canteiro de obras

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Todas as noites, cerca de 30 pessoas se acomodam em um barracão no meio do canteiro de obras de um condomínio, no Jardim Nicéia. O local recebe de adolescentes a sexagenários, que enfrentam o frio e o cansaço para realizar um sonho: ser alfabetizado. A escolinha é fruto de uma parceria entre a iniciativa privada e a prefeitura municipal e é o único equipamento social do bairro, um dos mais carentes da cidade.

A parceria não é inédita em Bauru. Em anos anteriores, empresas da cidade disponibilizaram espaços para que seus funcionários pudessem estudar. A novidade é que, nesse caso, a escolinha não recebe apenas os empregados da obra, mas também membros da comunidade. A parceria é a única em atividade na cidade e começou no ano passado, quando o empresário Ralph Ribeiro Júnior, diretor regional do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), colocou a infra-estrutura de seu empreendimento à disposição da prefeitura.

Nem o frio da noite de segunda-feira espantou os alunos. Eles chegaram por volta das 19h para as aulas. Alguns vieram com os filhos, muitos estavam cansados, mas todos prestavam atenção na aula da professora Nilda Moreira, do Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja) da secretaria municipal de Educação. A lousa, as carteiras e o material didático foram fornecidos pela secretaria e o local foi construído com os recursos do empresário. “Eu tinha que contribuir. Começamos com a casinha, já aumentamos um pouco, construímos os banheiros e com o frio, vamos levantar as paredes”, explica Ribeiro Júnior. Antes da iniciativa, o bairro teve outra ação semelhante, mas as atividades foram suspensas em 1998.

A aula do dia era sobre auto-estima, coincidentemente, um dos objetivos da parceria. “Nossas aulas são voltadas às questões e necessidades do bairro”, conta Moreira. Ela elogia a disciplina e dedicação dos alunos. “Já organizamos mutirões para capinação de terrenos. Acredito que já começamos a fazer diferença na consciência de todos”, aponta. E o bairro precisa dessa conscientização. Posto de saúde, creche, iluminação, asfalto, áreas de lazer, esgoto, policiamento. Os estudantes saem de cor o que o bairro precisa.

Maria Lucilene, 37 anos não perde uma aula. “É muito gostoso. Estou aprendendo muito”, conta. Na carteira ao lado, seu marido Waldemar Cândido, 37 anos, elogia a iniciativa. Ele trabalha na construção do condomínio e depois do expediente, se apressa em casa para não perder a hora. “Volto de casa correndo. A professora explica muito bem”, elogia. Aos 69 anos, Maria de Lourdes de Oliveira também não perde as aulas. Todas as noites ele vai até o barracão junto da nora. “Estou aprendendo devagarinho. Para quem não sabia de nada, está uma beleza”, comemora.

André Luís Pires, 25 anos, parou os estudos na 4ª série. Agora, pretende chegar até a uma faculdade. “Quem sabe até a Universidade Estadual Paulista (Unesp)”, diz sobre a universidade que fica ao lado do bairro.

Além da secretaria de Educação, o empresário procurou a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), para desenvolver um projeto com os jovens do bairro. A idéia do empresário é promover uma escolinha de atletismo no local.

Intervalo

Os alunos se mobilizam também na preparação da merenda. Todas as noites, a cozinheira oficial da turma prepara o leite com achocolatado que é servido com bolachas. “A gente faz até fila. Tudo igual nas escolas“, conta Gislaine Cássia Ferreira da Silva, 29 anos, que é responsável por dar o sinal do intervalo. Ela conta que parou de estudar na 3ª série, “Logo depois disso, com 12 anos, fiquei grávida. Aí não deu para voltar, mesmo”, conta. Hoje, são as filhas e o marido que incentivam Silva a ir às aulas. “Quando desanimo, eles me falam para não perder a oportunidade. E é verdade. Se o Brasil inteiro tivesse oportunidades como essa, seria um país bem melhor”, acredita.

As aulas ganharam um outro significado para Maria Francisca da Silva Marcondes. Em um dos encontros, ela contou à professora que não via a família há trinta anos. Moreira passou a pesquisar nos ligares descritos pela aluna, informações sobre seus parentes. “Liguei para igrejas, delegacias e hospitais, até que encontrei uma irmã dela”. E foi no meio de uma aula que Marcondes falou com o pai, depois de tantos anos. “Só de ouvir a voz do meu pai, fiquei emocionada. Eu não tinha mais fé que um dia eu votaria a pedir a bênção dele”, emociona-se. Ela já conversou com uma irmã, que mora na Bahia e promete visitar o pai que está no Rio Grande do Norte. “Encontrei irmã em São Paulo, São Bernardo, São José do Rio Preto, em Irecê na Bahia. Já falei com todo mundo. Graças à professora que fez isso por mim”, conta.

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Parcerias

Para a diretora de divisão do Centro Educacional de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação, Idalina Rover, iniciativas como a do empresário Ralph Ribeiro Júnior deveriam ser repetidas. “Estamos à disposição. É só nos disponibilizar espaço físico e horário. Oferecemos os professores, material didático e escolar, lousas e carteiras. Basta procurar o Ceja”, explica

A rede municipal de ensino mantém 69 salas de aulas em 44 bairros. Ao todo são 1460 alunos freqüentando o ensino para jovens e adultos. “Alguns querem aprender a ler para acompanhar a bíblia ou tomar um ônibus, outros pretendem terminar os estudos. Cada um possui necessidades diferentes e temos alunos de 13 a mais de 80 anos”, observa Rover.

Na rede estadual não existe parcerias como essa, mas o programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA) está 87 salas de aula em Bauru. As turmas são divididas em 5ª a 8ª séries e ensino médio. Atualmente o Estado atende cerca de 8.700 estudantes.

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