Articulistas

Compensar a agricultura


| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma vez, a agricultura brasileira está enfrentando sérias dificuldades, sem que os produtores rurais tenham dado qualquer contribuição para os duros golpes que atingem os seus negócios. Não é de hoje que isso acontece, mas, no último ano, a dose foi cavalar, com os problemas climáticos no Sul e Sudeste e o aprofundamento da crise de preços por conta da supervalorização do real. A questão do câmbio parece longe de se ajustar, prolongando os efeitos de mais uma crise que, a rigor, se repete a intervalos regulares nos últimos 20 anos.

A agricultura depende de crédito, mais do que qualquer outro setor da economia, e é especialmente sensível às flutuações dos preços que se formam nos mercados externos. Os cortes nos financiamentos das safras, a suspensão das garantias de preços mínimos, a eliminação de subsídios, e, principalmente, as políticas de câmbio e os juros escorchantes nos anos recentes obrigaram os produtores rurais a sucessivas renegociações de dívidas com os bancos. Mesmo os mais eficientes e capitalizados, dificilmente conseguem equacionar direito o endividamento pela falta de correspondência entre o ativo e o passivo devido aos problemas criados desde o plano Collor. No plano Real, o ajuste de preços foi feito com a redução dos patrimônios, com a queda rápida do valor das terras e demais bens rurais, enquanto o ajuste das dívidas foi feito pelo valor nominal, sem abatimento, com a cobrança de juros e correção monetária.

Apesar dos duros golpes, a agricultura conseguiu ir se ajustando durante todos esses anos, procurando se adaptar às novas condições de competição, criando tecnologias como o plantio direto, que começou no Sul do País, aproveitando os avanços genéticos e os processos de cultivo desenvolvidos pela Embrapa. Mais recentemente, recebeu o reforço do programa Moderfrota que impulsionou os sistemas de financiamento de equipamentos.

Mesmo com as perdas produzidas pela estiagem (milho e soja em Mato Grosso, na Bahia e em Minas Gerais), a safra 2005/2006 deverá ser ainda uns 10% maior do que a anterior. Infelizmente, o aumento da quantidade não será suficiente para compensar a queda de renda do setor, produzida pelas duas pragas que resistem a todo e qualquer tratamento desde o primeiro mandato de FHC: as insensatas políticas de juros e de câmbio. A valorização cambial, sozinha, é responsável pela queda dos preços da soja e do milho: de março de 2005 a abril de 2006 os preços pagos aos produtores de soja caíram 26% e do milho 28%! O setor pecuário também vem sofrendo fortemente (pelo câmbio, pela febre aftosa e pela gripe aviária), com uma queda de 30% nos preços da carne bovina e 40% na carne suína. E a carne de frango sofreu, recentemente, uma redução da ordem de 55%.

Assim se explica porque um salário mínimo compra hoje o dobro do que comprava em alimentos há três anos. Mas isso excede em muito os ganhos de produtividade que deveriam ser transferidos dos produtores aos consumidores. Os governos devem se preparar para políticas que compensem os sacrifícios dos agricultores.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

Comentários

Comentários