Cultura

Sobre mundos: Cristo: Cordeiro rebelde

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

A mensagem central de Jesus Cristo abrange todas as dimensões da vida humana. Jesus revela um Deus que é Pai e possui um amor irrestrito por todo ser humano. Esta mensagem religiosa transforma não somente a relação entre homem e Deus, mas também a relação do ser humano consigo mesmo, as relações inter-pessoais e as relações político-sociais. Como filho amado de Deus, todo ser humano deve se compreender como algo sagrado e capaz de conduzir uma vida verdadeiramente humana. Não é por menos que Jesus foi crucificado e este fato não é de pouca importância. Afinal, a crucificação era uma pena de morte romana.

Isso deixa claro que Jesus foi condenado pelos romanos e não pelos judeus e o motivo de sua condenação não foi religiosa, mas política. Seguindo a linha de raciocínio de sua mensagem, Jesus deve ter feito vários discursos contra o Império Romano, afinal a opressão romana se contrastava com a idéia de que todos os seres humanos estão, frente a Deus, em situação de igualdade. Não somente a crucificação, mas a pergunta que Pilatos faz a Jesus deixa evidente que o motivo de estar sendo julgado é essencialmente político: “Você é o rei dos Judeus?”

Frente aos romanos, Jesus era mais um galileu subversivo ao Império e, portanto, deveria ser eliminado. Os quatro Evangelhos, porém, não dão ênfase à questão política e criam a nítida impressão de que Jesus foi condenado pelos judeus e o motivo de sua condenação foi religioso. Esta triste inversão histórica possui sua origem em uma estratégia de sobrevivência dos primeiros cristãos. Os primeiros seguidores de Jesus eram judeus que, apesar de acreditarem que Jesus era o messias, desejavam permanecer no judaísmo.

A cúpula judaica da época, porém, não aceitava a idéia de que um crucificado pelos romanos fosse o messias prometido por Deus e os seguidores de Jesus foram, então, expulsos das sinagogas. Não aceitos pelos judeus, os novos cristãos procuravam não somente sobreviver no Império Romano, mas também se esforçavam em adquirir a simpatia dos romanos. Aqui, porém, os primeiros cristãos encontraram duas grandes dificuldades: Jesus era um galileu e fora condenado à morte pelos romanos.

A Galiléia era uma região muito mal vista pelos romanos. Os principais movimentos revolucionários de libertação contra o Império Romano surgiram na Galiléia. Os romanos não suportavam os galileus com tamanha intensidade a ponto destes serem chamados pelos romanos de ladrões. Jesus, por exemplo, foi crucificado entre dois ladrões – isto não quer dizer entre dois homens que roubavam ou assaltavam, mas entre os seus, entre dois galileus, presos políticos, subversivos ao Império.

O outro obstáculo era mais agravante. Afinal, seria difícil aos romanos aceitarem uma religião que possuía como fundador alguém que fora vítima dos próprios romanos. Desta forma, se inicia um esforço para transformar o processo de condenação de Jesus. Os quatro Evangelhos não foram escritos de uma só vez, mas entre os anos 70 e 95 depois de Cristo. Neste período, os evangelistas se esforçam em retirar a culpa dos romanos e a jogarem sobre os judeus, como também em amenizar o motivo político de sua condenação e reforçar o religioso. Ao compararmos os quatro Evangelhos, vemos uma crescente participação dos judeus na condenação de Jesus e um enfraquecimento da participação de Pilatos até o ponto deste lavar as mãos, deixando toda a responsabilidade sobre os Judeus. O coroamento desta estratégia de sobrevivência dos primeiros cristãos está no Evangelho de João, o último Evangelho a ser escrito. João, desde o início de seu Evangelho, apresenta Jesus como um cordeiro que deve ser imolado e não alguém que, anunciando a palavra de Deus, atingiu a estrutura política de poder da época.

O que foi uma estratégia de sobrevivência dos cristãos no Império gerou graves conseqüências. A primeira foi um forte anti-semitismo no mundo ocidental. Os judeus se tornaram o povo assassino do salvador e carregaram esta culpa desde a oficialização do Cristianismo pelo Império Romano até o século passado, com Auschwitz. Hitler, quando estava no poder, chegou a afirmar que a encenação da paixão e morte de Cristo seria uma das mais eficientes propagandas nazistas.

A outra conseqüência foi o distanciamento da mensagem do Cristo em relação ao exercício de poder. O cristão acabou se restringindo a uma prática espiritual e alienada politicamente. A prática cristã se transforma com radicalidade se reconhecemos naquele que é, para nós, cristãos, o “caminho, a verdade e a vida”, alguém que foi essencialmente revolucionário. Infelizmente, muitos cristãos não assistem um Cristo revolucionário caminhando para a morte, mas enxergam apenas o cordeiro que se submete à morte por vontade de Deus. Uma vontade dissociada da dimensão política e somente ligada à salvação individual: “Jesus morreu para nos salvar”.

Desta forma, o paradigma dos cristãos deixa de ser político e passa a ser simplesmente religioso. Sem sombra de dúvidas, a mensagem do Cristo é muito maior do que a dimensão política, mas exclui-la, significa não compreendê-la em sua radicalidade. Em outras palavras, o cristão que não se compromete com o bem comum, com a construção de uma verdadeira democracia, com o fim da corrupção e com a dignidade da pessoa humana, não está incorporando a mensagem do Cristo. Ler a Bíblia é muito bom, melhor ainda é compreendê-la.

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