Regional

Lençóis quer ser cidade de leitores

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Lençóis Paulista – Possuir um acervo público de livros respeitável e em local disponível à população é suficiente para reverter o baixo número de leitores no Brasil? No caso de Lençóis Paulista, a resposta é não. Ao perceber que ser a “Cidade do livro” não redundaria em promover entre os moradores o hábito da leitura, a comunidade local elaborou estratégias para incentivar a leitura entre seus moradores.

Em Lençóis, há mais livros do que habitantes. O acervo estaria em mais de 90 mil publicações enquanto que a população é estimada em 60.331 pessoas, dado de 2005 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por essa razão o município é conhecido como “Cidade do livro”.

A partir da premissa de que leitura é hábito e se precisa de tempo para formar leitores, no início de 2001, a administração municipal e as empresas da cidade puseram em prática um ambicioso projeto para formar novos leitores. Denominado “Cidade do livro, cidade de leitores”, a proposta engloba hora do conto e atividades que incentivem a leitura entre estudantes.

Para estimular nas crianças o hábito da leitura, a hora do conto é uma ferramenta avaliada como fundamental em Lençóis. A atriz Leda Fernandes, 28 anos, interpreta para estudantes de 3 a 9 anos. Ela circula com a contação de histórias pela rede de ensino do município, na Biblioteca Municipal Orígenes Lessa e em duas bibliotecas ramais, localizadas nos bairros Júlio Ferrari e Cecap.

Atualmente, Leda incorpora o personagem que cai do livro e não sabe de que história saiu. Este é o roteiro para um jogo lúdico com a platéia. O grupo passa por diversas histórias infantis para saber em qual se encaixa o personagem e os estudantes mesmo vão contando o enredo.

A atriz se utiliza de vários recursos teatrais em sua performance, como vozes diferentes para cada personagem. Com as crianças que não sabem ler, a atriz usa livros ilustrados. Ao final de cada hora do conto, cada estudante recebe um livrinho.

Quando a contação é na Orígenes Lessa, a atriz também apresenta o acervo da biblioteca para os estudantes. A bibliotecária Jane Maria Mozaner de Mello comenta que o trabalho aumentou a freqüência de crianças.

Leda testa algumas técnicas de contação com o filho, João Pedro, de 1 ano e 3 meses, e se surpreende pelo interesse. “Então tem de começar cedo. É importante que os pais criem o hábito da leitura de histórias com os filhos”, destaca. Quanto à concorrência de outros meios, a atriz diz não ver problema nos videogames, Internet e a TV. “O que preocupa é o que a criança está vendo. Se tiver assistindo programas com conteúdo cultural é ótimo porque é um parceiro. Mas a mãe chega em casa e vai direto na novela e a criança fica junto”, alerta.

Mas a contação de histórias não tem sido capaz de minimizar outro obstáculo à leitura, a padronização nos espaços de leitura. As 30 escolas municipais (creches, ensino infantil e fundamental) possuem biblioteca, porém a diretora municipal de Educação, Izabel Cristina Campanhari Lorenzetti, admite que faltam avanços. “Nós não temos ainda em todas elas (escolas) uma sala montada nos moldes que gostaríamos de ter. Cada escola que é reformada ou construída nasce com a biblioteca e mobiliário próprio”, enfatiza.

Apesar disso, o trabalho já realizado em Lençóis Paulista aos poucos começa a render frutos entre adolescentes e adultos. Este é o caso de Andresa Aparecida Dias, 17 anos, que concluiu o ensino médio e pretende cursar história. Ela conta que começou a ler por obrigação, atendendo às necessidades da escola, e acabou adquirindo gosto pela leitura. Dias comenta que ler transforma o vocabulário, a maneira como a pessoa se expressa, além da aquisição de conhecimento.

Tendo como foco formar leitores como Andresa, Lençóis quer se distanciar de um preocupante estudo divulgado em 2004 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) que revela que 61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm muito pouco ou nenhum contato com livros.

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