Um bebê prematuro do sexo masculino ficou por cerca de quatro horas dentro de uma bolsa de viagem jogada em um brejo, nos fundos da favela São Manoel, em Bauru, no final da noite de anteontem. O menino foi salvo por policiais militares, que agiram rapidamente e o encontraram com vida. Apesar de ter chegado ao hospital com hipotermia e ter sofrido parada respiratória (leia mais nesta página), até o final da tarde de ontem, ele continuava internado na Maternidade Santa Isabel, em estado regular.
A criança, que pesou 2,5 quilos, foi localizada após Maria Amélia Campos, 35 anos, dar entrada na Maternidade Santa Isabel, anteontem à noite, com sangramento. Ela contou que estava grávida de dois meses e havia sofrido um aborto. O médico plantonista desconfiou que, pelo tamanho da placenta que ainda estava dentro dela, a gestação estava avançada e acionou a Polícia Militar.
Pouco tempo depois, os policiais localizaram o vigilante André Luiz da Silva, 29 anos, apontado como pai da criança que, questionado, revelou onde havia deixado a bolsa com a criança. Maria Amélia, André Luiz e a parteira Delza Aparecida da Silva, que teria ajudado o casal a fazer o aborto, foram presos.
Delza teria cobrado R$ 300,00 para fornecer dois remédios - Torsilax e Methergin – a Maria Amélia para provocar o aborto, por volta das 21h de ontem. Para se livrar do bebê, André Luiz teria embrulhado-o em uma toalha e colocado-o dentro de uma bolsa de viagem. Em seguida, teria jogado a bolsa no brejo na favela São Manoel e fugido.
Maria Amélia, que ficou com parte da placenta no seu útero, começou a passar mal e procurou a maternidade. O médico plantonista da maternidade, que preferiu não ter seu nome divulgado, ressaltou que a mulher poderia ter morrido se não tivesse procurado atendimento.
Ele conta que além de desconfiar da história contada por Maria Amélia, os ferimentos na vagina o levaram a desconfiar de aborto provocado. “Quando a gestante tem assistência médica no parto, o profissional faz um corte para a passagem do bebê. Como ela não teve assistência, a saída do bebê provocou ferimentos”, ressalta.
O ginecologista explica que, tecnicamente, é considerado aborto procedimento para a morte do feto até o terceiro mês da gestação. “A partir do quarto mês, como já é feto, no caso de morte, o termo certo é homicídio”, esclarece. Sobre os medicamentos utilizados pela mãe da criança, o médico disse que desconhece o Torsilax, mas confirma que o Methergin é usado para contrair o útero. “É usado após o parto. Se a utilização for feita na gestação, ele pode expelir o feto”, afirma.
Os policiais militares Rogério Módulo Orti e Paulo Sérgio Gonçalves contam que estavam trabalhando na noite de segunda-feira quando foram acionados pela Maternidade Santa Isabel. Em contato com Maria Amélia, eles descobriram que o bebê tinha sido levado pelo namorado dela. “Ela dizia o tempo todo que o bebê estava com o André (o suposto pai). A filha dela de 16 anos, que a acompanhava, confirmou”, relatam os policiais.
A adolescente contou que a mãe passou mal e foi para uma residência no Jardim Prudência. Ela teria ouvido gemidos da mãe e, em seguida, André Luiz teria saído com o bebê enrolado em uma toalha, pedindo que a menor acionasse a ambulância para Maria Amélia. Depois de ouvir a versão da adolescente, os policiais decidiram passar as informações para o comando, quando avistaram a irmã de Maria Amélia conversando com um rapaz do outro lado da rua.
Questionado, o rapaz confessou ser André Luiz. A vida do bebê foi salva graças aos dois policiais que o convenceram a contar onde ele havia abandonado a sacola com a criança. “Ele se convenceu a indicar o lugar quando nós falamos para ele que ocultação de cadáver era um crime hediondo e que ele não teria benefícios como preso”, ressaltam os policiais.
Localização
André Luiz se desesperou e concordou em levar os policiais até onde havia abandonado a bolsa de viagem com o bebê. A busca não foi fácil, relembram os policiais. “Andamos muito no escuro. O local é de difícil acesso e tem brejo. Caímos até achar a bolsa”, relatam.
Emocionado, Orti conta que o momento mais importante foi quando ouviu o choro do bebê. “A vida dele passou a ser prioridade. A chance de vida ali era muito pequena. No momento que a gente transmitiu ao Centro de Operações da Polícia Militar a informação de que a criança estava viva a precisávamos de ajuda, todas as equipes que estavam trabalhando se desdobraram ao máximo para que a criança chegasse o mais rápido possível à maternidade e recebesse os primeiro socorros”, lembra Orti.
O soldado Gonçalves não sabia descrever a emoção de ter encontrado o bebê com vida. “No meio do matagal, já tínhamos andado bastante e quando o meu colega de trabalho achou a bolsa eu acreditei que a criança estava viva. Aliás, eu sempre acreditei nisso”, frisa.