Mãe verdadeira é aquela que cuida e não a que apenas pare os filhos. Uma família que mora no Núcleo Beija-Flor, em Bauru, está acompanhando de perto o instinto materno de uma cachorra da raça pincher de 11 anos, que “adotou” dois filhotes de uma gata. No começo, a dona de casa Elisabeth Canavarros do Vale estranhou, mas depois resolveu deixar a natureza falar mais alto.
A pincher Bibi adotou os dois gatinhos que estão com 15 dias. A cadela cuida dos recém-nascidos como uma felina. Mas o curioso é que a mãe dos gatinhos mora na mesma casa. A cadela fica enciumada toda vez que a gata chega perto dos filhotes. Ela rosna, olha com cara feia e até late.
Se não bastasse tanto carinho com os pequenos gatos, a cadela está amamentando-os. Assim que os filhotes nasceram e Bibi assumiu a maternidade no lugar da gata, começou a produzir leite. “Ela assumiu mesmo o papel de mãe. No começo, tentamos impedir e deixar a gata cuidar dos filhotes. Mas, a cadela chorava o dia inteiro e ficávamos com dor de cabeça. Aos poucos, a gata foi aceitando e agora é a Bibi que passa a maior parte do dia com os gatinhos”, diz Vale.
Os filhotes também adotaram a nova mãe: brincam puxando a pata, miam e olham para a cadela, dormem confortavelmente, sem preocuparem-se que estão na presença daquele que seria o maior inimigo dos gatos. A cadela e os gatinhos dormem dentro de um pneu de automóvel usado, no chão da garagem da casa.
Antes dos filhotes nascerem, a cadela já estava acostumada a dormir com a gata. “As duas sempre passaram a maior parte do dia juntas e dormiam no mesmo lugar. Elas são amigas”, explica a dona de casa. Mas, desde que a cadela “adotou” os filhotes, a gata ficou um pouco cabisbaixa. Anda pelos cantos, levanta as orelhas para ouvir o miado dos gatinhos, mas quando percebe que a “outra” mãe está por perto, desiste de atender aos apelos dos filhotes.
Quando Bibi distrai-se por um segundo e o estudante Alysson Canavarros, filho de Elisabeth, tira os filhotes de perto da cadela, a reação é imediata: com todo cuidado, a cachorra agarra os gatinhos – um de cada vez – pela boca e leva-os de volta para dentro do pneu. Quentinhos novamente, agradecem a “mãe” brincando com ela. Bibi também preocupa-se com a higiene dos bichanos. A todo momento, limpa-os com a língua, imitando os cuidados de uma gata.
Instinto
Elisabeth Canavarros do Vale conta que não é a primeira vez que Bibi adota animais de outra espécie como filhos. Anos atrás, a família trouxe para casa um filhote de gato que estava abandonado na rua. “Ela fez a mesma coisa. Cuidou do gato do mesmo jeito. Mas era diferente porque o gato não tinha mãe”, conta.
A família, que está acostumada a receber visita de curiosos para conhecer a cadela, já tem destino certo para os filhotes: serão doados. “Já temos outra cadela em casa e uma gata. Decidimos doar os gatos, mas primeiro vamos esperar eles ficarem maiores”, garante. Enquanto isso, Bibi ocupa-se 24 horas por dia na profissão de mãe.
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Gravidez psicológica
“Os sintomas indicam uma gravidez psicológica”, diz o veterinário José Bezerra da Silva sobre a história da cachorra Bibi. Ele acredita que, por coincidência, a cadela já estava com o problema quando os gatinhos nasceram. “Se os gatinhos não estivessem na mesma casa, provavelmente a cadela ‘adotaria’ um objeto como filhote imaginário”, explica.
O fato de animais de espécies diferente adotarem filhotes não é raro. “É mais comum do que se imagina. O instinto fala mais alto”, conta. O veterinário disse, no entanto, que a família precisa ficar atenta à saúde da cadela e da gata. “Uma delas pode ter leite em excesso porque não está amamentando direito. Se isso acontecer, pode ocasionar infecção nas mamas que precisa ser tratada”, orienta.
Silva diz também que a gravidez psicológica pode ser revertida. “Já existe medicamento adequado ao problema. Uma cadela com gravidez psicológica fica desequilibrada e algumas vezes o tratamento adequado é a esterilização”, explica.